Um espaço para a prosa e a poesia de todo dia, um espaço para os textos que amamos, os textos que produzimos, os textos que geram outros textos... Viver em prosa e poesia, sem perder a ingenuidade e a utopia, mas de olhos abertos para o que se mostra, para o que é presente, para o que machuca e para o que se sente.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Tranças
banco-raiz
e no banco a menina de tranças, sentada,
limitada ao espaço físico da praça,
liberta em voos da imaginação.
As tranças, a árvore, a praça: os limites.
A fuga do real para o sonho, o presente, o futuro,
em palavras, por outros pensadas,
tesouros impressos a descobrir,
a levar, elevar, conduzir...
Hoje, mudou a praça,
não há mais banco-raiz,
não há mais árvore,
nem tranças,
apenas o sonho permanece a opor-se à realidade,
apenas as palavras, os sentidos, tesouros alheios,
apropriados,
apenas o alento do conhecer, do desvendar:
fuga do cotidiano, das limitações, do real,
para o infinito e ilimitado voo da imaginação.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Perdão
pelo que não foi visto,
pelo que não foi feito...
Peço perdão pelas palavras não pronuciadas,
pelos olhares desviados,
pelos gestos reprimidos.
Peço perdão por tudo aquilo
que se deixou de realizar,
pela indiferença,
pela omissão...
E só por isso eu peço perdão:
pois o que foi feito,
e visto,
e dito,
fosse certo ou errado,
pensado ou irrefletido,
ao menos foi vivido
e sentido!
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Perda
e o coração descompassado
volta a bater tranquilo, sem sobressaltos
ou temores...
As lágrimas secam, o olhar se firma
e até consegue vislumbrar o que de belo existe.
Os passos que, indecisos, buscavam um caminho,
- um retorno?
agora já fortalecidos, seguem sem receios
ou dúvidas.
Buscam o futuro,
a vida,
o amanhã
e quem sabe, talvez caminhem
ao encontro de um novo amor.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Ruas da minha infância
menina ainda,
descobrindo o mundo, aprendendo a viver...
Lembro-me do sol,
sol de agosto, abafado,
o vento quente, a tarde avemelhada.
No fim da rua, a amarelinha,
o sol aquecendo o corpo,
o vento balançando as tranças...
Ruas da minha infância,
a saudade bate mansinho quando novamente
percorro meus caminhos,
e a menina, adormecida em mim,
brota na mulher:
presente e passado se encontram
e continuam, a passos largos
em direção ao futuro certo,
ou incerto?
Quem sabe...
domingo, 2 de agosto de 2009
Praia
cinza nas nuvens carregadas,
cinza no concreto que a envolve,
cinza nas almas...
Do outro lado, a luz
reverbera em cores: azul do céu, róseo das nuvens, verde do mar.
Aos meus pés, a natureza revela sua perfeição
em estrelas e conchas,
ligeiros, minúsculos, peixinhos correm atrás das ondas.
Indiferentes, convivem com a indiferença do homem:
marcas, restos, lixo...
A manhã, tranquila, vai se construindo em sons e movimentos,
e a paz, aos poucos, se perde na maré que sobe
A faixa de luz, lentamente se desfaz,
é cinzenta a manhã...
A vida, agora desperta, segue seu rumo, sem parar,
e me leva em seu ritmo constante,
forte e envolvente, como ondas do mar.
domingo, 26 de julho de 2009
O semeador
No meio do campo ele para
e volve os olhos para o caminho percorrido.
Relembra a terra fértil que lhe foi entregue
ávida de semente e de cuidados.
Recorda o trabalho, preparando o solo,
o depositar da semente,
o carinho, o desvelo,
o despontar dos brotos,
primeira resposta ao seu labor.
As dificuldades que enfrentou,
tempestades e vendavais,
sem desânimo ou desalento,
constante presença
a refazer,
a recomeçar, sempre...
E agora ele se volta para o que o espera:
novos campos, novas terras, novas sementes,
novas dificuldades também...
Mas o ideal é forte
e ele segue sua missão sublime:
fazer crescer a planta,
fazer nascer o broto,
fazer brotar a vida!
Azul Drummond
Em plena tarde azul
ausente de desejos
ou mágoas ou temores,
o olhar inebriado de luz e cores
-rosa dourado derretendo o dia -
busco encontrar sentido,
tento achar respostas
a perguntas perdidas na memória dos tempos...
As mesmas perguntas sem respostas
feitas desde que se percebeu ser no mundo,
as mesmas perguntas que a fé responde sem provas concretas
e a ciência busca em vão.
Nesta tarde inebriante de azul,
identifico-me, apenas,
entrego-me.
Perco-me no azul, na intensa luminosidade que me envolve,
apagam-se perguntas, perdem-se respostas,
sou apenas azul, dourado e róseo, derretendo o dia.