sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011


EU NATUREZA

Pés no chão, mãos na terra,
sou natureza,
identifico-me com o cosmo,
passado e futuro em mim,
no presente.
Sinto raízes em meus pés,
seiva corre em minhas veias,
sou parte do mundo,
sou todo, sou eu...
As dores sentidas, sinto-as na pele
rugosa em caule, macia em pétalas.
O vento e a chuva me fustigam
e eu sou ar e água,
sou tormenta e calmaria.
Eu e o mundo,
identificados, unidos, resumidos,
ser, universo,
sem fim.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sem palavras

Ontem vi meu irmão chorar
e chorei junto,
sem lágrimas, ao seu lado,
sem nada dizer.

Senti a fragilidade humana
e a pequenez das palavras,
nada a dizer, tanto a sentir...

Hoje vi meu irmão sorrir
e sorri com ele.
Novamente nada foi dito,
a emoção se sente e compartilha
não há palavras para traduzir.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Entardecer de ócio



Aos meus amigos, a quem gostaria de oferecer uma tarde assim.



Todos deveriam ter o direito de desfrutar de um entardecer de ócio. Todos, sem exceção, de todas as cores, credos ou procedências, jovens, adultos, idosos, deveriam, por direito, usufruir da beleza do por do sol, em perfeita ociosidade.

Bons ou maus, não tão bons, nem tão maus, pobres e ricos, trabalhadores e proletários, comunistas, socialistas, imperialistas, capitalistas e todos os "istas" possíveis, nenhum deles seria privado do direito de contemplar, imóvel e em completo descanso, o róseo do céu, o vermelho do sol que se põe no horizonte.

E ainda todos aqueles que amam e que odeiam, que choram e que riem, seja por alegria, seja por tristeza, seja por inveja, seja por raiva, os sinceros e os falsos, os cínicos, os irônicos, os confiáveis e os amáveis: sim, todos eles deveriam ter esse direito e dele usufruir...

Seria um entardecer de plena paz: sem desejos nem anseios, sem planos e decisões, sem projetos, sem perspectivas: apenas o céu e o sol. Mas também não haveria mágoas ou tristezas, lembranças e saudades, dores e temores. Nada. Apenas a tarde.

E a tarde seria bela: o céu de um azul perfeito, algumas nuvens, por que não? Afinal é possível a magistral beleza de um céu em que as nuvens deixam escapar feixes de luz.

No horizonte, aos olhos extasiados, se mostraria o rosa, o lilás e o dourado, emoldurando o disco vermelho que se despede, aos poucos, prenunciando a noite.

A tarde seria também perfumada e sonora. Perfume de flores no ar, nada forte, nada intenso, nada que perturbasse o recolhimento e o prazer daqueles instantes em que o tempo deixou de existir. Sons de pássaros, em voos rápidos, aos pares ou em bandos, ou ainda solitários, completariam a festa dos sentidos, sons e aromas, cores e luz, perfeição.

E nesse entardecer de ócio, total desprendimento de tudo que parece ser tão importante: coisas, pessoas, ações, até o tempo pareceria imóvel: uma pausa, um hiato, um momento de puro deleite, de entrega e interação. Seriam todos apenas um: ser e natureza, integrados. Sem pressa, sem tempo, sem nada.

Apenas a tarde.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Janelas


Há quem diga que em nossa vida há muitas janelas;
As que iluminam, as que aquecem, as que deixam passar o ar fresco da manhã.
Há entretanto aquelas pelas quais entram vendavais, invadindo nossa vida,
Trazendo a tristeza, a insegurança, o medo.

É preciso então saber abrir a janela certa,
E se acaso feridos e tristes, ter a certeza de que outra se abrirá,
Trazendo a luz e o calor para acalmar a vida...



(Torre de Belém, Portugal)

domingo, 27 de setembro de 2009

Contemplando

Há pessoas que passam pela vida e não levantam os olhos para as pequenas maravilhas que a natureza, por si mesma, ou a mão do homem nos oferecem. Contemplá-las é, para alguns que passam, perda de tempo, coisa banal. Para outros, estão invisíveis, não as enxergam, ensimesmados em seus problemas, suas moedas, seu poder.

Entretanto há aqueles, entre os quais me incluo, que reverenciam ao Ser Supremo pela alegria de um entardecer dourado, pelas obras do homem que permanecem indiferentes ao tempo, por todos aqueles momentos vividos em que pudemos ver, admirar...

Maior tesouro é esse, que ninguém ou nada jamais roubará de nós. A alegria do contemplar.


Compartilho esses tesouros, com aqueles que também contemplam, que também admiram, que também agradecem...



Vaticano, estátua de São Pedro.




Florença, Loggia della Signoria, obra de Cellini: Perseu.




Pequena obra prima da natureza. Não há como imitar!

sábado, 19 de setembro de 2009

CARMO

Trezentos anos de recolhimento e preces contemplam a praça, impassíveis ao passar do tempo e das gerações.
Do alto da torre, os sinos centenários, emudecidos, parecem dormir. Só despertarão ao sol do meio dia, quando seu som festivo espantará os pombos que se abrigam nos beirais.

Janelas e portas fechadas, de um verde forte, destacam-se na parede branca irregular, protegendo a riqueza de seu interior: imagens, pinturas, entalhes, reunidos em uma atmosfera de sombra, silêncio e paz.

O contorno domina a praça, de tradição e história perdidas e aviltadas; imponente, vê passar pessoas de todas as idades, raças, destinos, desejos...

Igreja e praça se integram, e por sobre as pedras irregulares passam sons e sonhos, dores e amores, em busca do alento ou da salvação. Reúnem-se em um único espaço, que perdurará repleto de história e de histórias, misto de tradição e modernidade, passado e presente fundindo-se em um tempo que passa, fugaz.

À luz do sol a igreja brilha e atesta seu poder e permanência: passarão os tempos e ela estará lá, repicando sinos e recolhendo orações.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tudo que se esvai


Luz do entardecer.
Sol no horizonte.
Formas das nuvens
... negras da tempestade.
Areia no rodamoinho.
Caminho da gota na janela.
Sereno sobre a folha.
Vapor ao sol da manhã.
Chuva ao vento forte.
Imagem vista da janela
... do trem
Areia na ampulheta.
Desenho na areia da praia.
O verde no solvente.
Também o amarelo, o vermelho, o azul, o branco.
O sorriso na boca.
A lágrima nos olhos.
O abraço.
O beijo.
Os rostos na janela do ônibus.
A fumaça da fábrica.
O café, no leite - mistura, fusão.
A manteiga no pão quente.
O açúcar na panela ardente - transformação.
O gesto.
A palavra.
O olhar puro do menino.
O suspiro do amante.
O pulsar do coração agonizante.
O creme no corpo.
A música trazida pelo vento.
A última badalada do velho sino da igreja.
O cavo som da pedra no fundo do poço.
O riso da criança.
O soluço do peito.
O doce aroma da dama da noite.
O perfume da moça que passa.
O sabor de hortelã do beijo da menina.
O cheiro de trabalho do homem ao lado.
O suave odor da primeira rosa enamorada.
O cheiro de cebola e alho nas mãos da mãe que já se foi.
O aroma das páginas do livro novo.
E da roupa nova.
A cumplicidade dos apaixonados.
A raiva.
A aflição.
O medo.
Os pensamentos ao adormecer.
As lembranças.
O amor.
A vida.