sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

REDESCOBRINDO PESSOA

Nestas férias, redescobri Fernando Pessoa. Não mais por obrigações acadêmicas ou escolares, não mais por acaso ou por deparar-me fortuitamente com poemas ou trechos que me cheguem aos olhos (e ao coração, certamente), pela Internet ou por um meio qualquer da mídia impressa.
Não, estou redescobrindo a pessoa - perdoem o mau trocadilho - que existe por detrás do poeta de várias faces, da figura multifacetada que se mostra em conflito com o mundo, com a existência, consigo mesmo.
E descubro Pessoa a partir da leitura de uma obra fascinante: Fernando Pessoa: quando fui outro. Coletânea organizada por Luiz Ruffato, publicado pela Editora Objetiva.
Entretanto já no final de 2011, o desejo do reencontro aconteceu por obra de um professor da UNISUZ, Marco Aurélio Maida, que intermediou o desenvolvimento do Projeto de Leituras Dramáticas com o Teatro da Neura, e o Curso de Letras. Nesse encontro, que partiu de uma provocação a partir de instalação na Biblioteca da Faculdade, e posteriormente tomou o palco do Auditório Orlando Di Gênova, em Suzano, foram apresentados poemas e textos dos três heterônimos mais conhecidos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, bem como de Pessoa, ele mesmo. Uma noite magnífica, em que a Poesia invadiu nossos olhos, nossos ouvidos e nossa mente e instalou-se com propriedade entre nós, atores, professores e alunos.
Nestes dias chuvosos de reencontro, a leitura é lenta, pois a reflexão é necessária. E invade nossa alma e permanece a martelar em provocações profundas...
Para uma idéia do que se mostra nesse livro, reproduzo alguns trechos, que certamente nos fazem pensar.

"Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se a tornarmos literárias." (A maioria da gente enferma, p. 28)

"Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou, e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens... Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero! Nuvens... ( Nuvens, p. 33)

"Tudo se evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.
Continuamente sinto que foi outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
[...]
Meu Deus, me Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?" (Tudo se me evapora, p. 36)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MOMENTO FUGAZ

Durante minha longa jornada como professora, raros foram os momentos em que me sentei ou permaneci em silêncio, sem interagir com os alunos. Construí minha carreira acreditando que o maior trunfo do professor é fazer com que o aluno o perceba  como um cúmplice na tarefa de desvendar o conhecimento, que tenha prazer e curiosidade nas atividades que pratica, e que seja sempre desafiado a crescer, a superar as dificuldades. Acreditando nisso, é dífícil imaginar aulas apenas expositivas, sem interação, sem conversas, sem brincadeiras e atividades lúdicas.
Entretanto, houve raros momentos de calma e silêncio.
O texto a seguir, escrito há alguns anos,  retrata um desses momentos.

Desfruto deste momento,
raro e fugaz,
de completa imobilidade.
Mente esvaziada de angústias,
problemas - solúveis talvez -
planos, projeto, dores...
A classe, silenciosa, calcula e pensa,
suspira e apaga... e escreve.
Eu, à frente, somente observo, quieta.
Pela janela aberta,
em meio à brisa matinal,
vozes que brincam,
pés que correm,
vida em movimento.

Nada, porém, desfaz esse momento,
e desfruto com prazer desse hiato
que, certamente passageiro,
será rompido a qualquer instante.

Alguém se move e se levanta
e se aproxima.
Rompe-se o instante,
e a vida retoma seu pulsar.
Novamente dona das minhas ações,
também me levanto, movimento-me
e retorno ao cotidiano agitado
que constrói o meu viver....

ÁRVORE


Como fundo um céu azul,
mesclado de branco e cinza
e, sozinha, ela recorta
seus contornos precisos.
Cinza da natureza,
branco  o caule
que o carinho do homem impõe
e protege.

Não há verde,
não há folhas,
ou flores.
Só a estrutura cinzenta
inspirando força, imponência.

A vida aí se encerra
e fervilha e brota
em entumescências e pontos.
A natureza, em sono aparente,
se renova a cada dia.
E a certeza de que a vida surgirá esplendorosa,
traz ao homem a esperança
de um constante renascer...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM "PONTO" PARA REFLETIR

É tão bom ler textos que nos instiguem, que nos levem à reflexão, que nos dêem prazer... Tenho lido muito, principalmente sobre a Filosofia de Luc Ferry (a conselho do amigo Jairo), sobre Contos (já que tenho a pretensão de publicar os meus), e hoje, tive a grata surpresa de ler os poemas do Leandro Bassini. Gostei da musicalidade, das idéias sugeridas, da construção e do conjunto do poema. Compartilho com vocês, que lêem estas linhas, os poemas Ponto e A arte de ver o mundo. Aproveitem!

PONTO
Leandro Bassini

 Um ponto é um ponto e fim.
Fim de frase, fim de linha;
Negócio fechado, acordo tratado;
Último passo, beira do abismo;
Questão de honra, passo a passo, rinha.
Boca pequena, trama e linha.

Quanto cabe em um ponto?
Toda a tinta que houver.
Toda a fidelidade que houver.
Toda a certeza que houver.
Toda a paciência que houver.
Todo o infinito.
Um ponto é over.

Todo conto termina num ponto, para dar início a outro conto.
Ponto é pausa para o recomeço;
É suspiro; não é vírgula não, é suspiro de berço.
É apreço. ... enfim recomeço

O que cala um ponto?
Não cala não.
É definição.
Um ponto pede, insiste – é persistente
Nada se esconde num ponto – se revela.

Todo mundo freqüenta um ponto.
O táxi, o ônibus que se espera.
O norte, o sul que se aponta.
O ponto X, o ponto Chic, o ponto G.
Ponto de entrega, o ponto da entrega
O ponto.

O que parece limite, é fuga.
O que parece singular, é mutação.
O que parece segredo, é vista.
Um ponto é ponto mas não é o fim não.



A ARTE DE VER O MUNDO
Leandro Bassini
Eu como o mundo
E vejo tudo como Neruda.
Minha íris rendilhada
Transforma o aqui e agora
Em poesia e estrada.

O sangue é infra vermelho
O mar é alma contida
O olhar é palavra escrita
O céu é cartola e coelho

Os caminhos que sigo
As direções que tomo
São sopros, jogos do que sinto.

A morte é azul Portinari
O amor é profundo mergulho
A dor é pai sem orgulho
A sorte é achado que se ri

O mundo tem as cores da alma
Aquarela rebuscada
Busco na fé a calma
Para a folha em branco
Que escrevo a martelada.

Todos os sentidos
Todos os desejos
São para mim
Marcas dos anos idos
Loa aos próximos janeiros

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Tempos de abraços

  Nesses tempos de abraços e votos de felicidades, parece que o mundo, pelo menos o nosso pequeno mundo, constituído de amigos, familiares, conhecidos, se torna extremamente sentimental. Abraços, beijos, carinhos são constantes e o cotidiano é invadido por sensações que ficaram ocultas sob a avalanche de compromissos, tarefas...
  É bem verdade que o cartão ao meu lado desmente minhas afirmativas e os dizeres: "Vovó eu amo você de coração" não reflete o espírito do natal, pois já me foi dado há algum tempo, e sim demonstra a afetividade da criança que descobre que além da mãe e do pai pode contar também com a avó nas horas difíceis para ela (chuva, trovão, dores de barriga, brigas com o primo). Mais do que isso, demonstra a conquista da palavra escrita que pode expressar seu mundo interior.
  Mas é nesta época do ano que afloram os sentimentos e os e-mails nos trazem mensagens de quem não está perto, ás vezes acompanhados de sons, imagens. Tudo isso para dizer: Lembrei-me de você! Estou longe, mas gosto de você!
  Já disse uma vez que a distância pode separar o abraço, mas não pode impedir o afeto e isso se comprova nos vários telefonemas que recebemos e nos cartões que enviamos. (Afinal, alguém ainda envia cartões pelos correios?)
  Enfim, nesta manhã de 2012, em que as festas já se acabaram e os compromissos começam a bater à nossa porta, a vida retorna ao seu cotidiano. As expressões de afeto, agora, são rápidas e banais. Tornam-se mais saudações apressadas e não mais é preciso demonstrar que gostamos do outro.
  Será?
  Será que é preciso uma época especial para dizer que gostamos do outro? Ou, como Isabella, dizer, àqueles com quem convivemos, a qualquer hora, sem compromisso, sem data, sem motivo:
  Eu gosto de você! De coração!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

EM PROSA

Tanto tempo sem escrever! Falta poesia? Falta tempo? Falta vontade?
A poesia se esconde e por um tempo a prosa se mostra em lembranças e sensações. Neste espaço de prosa e verso, busco na memória as lembranças, as sensações e compartilho momentos vividos e pensados.  Um outro rumo para a expressão, quem sabe, mais constante...

CORES
                                          Verdes da Avenida Champs-Élysées em Paris
As cores da natureza sempre me impressionaram. Lembro-me de momentos intermináveis, na rede, na varanda da casa tão sonhada, de minha mãe, apenas a olhar o azul do céu e as nuvens que corriam, ora rápidas, ora lentas, em formas que a imaginação identificava.
Tardes inteiras de contemplação do azul, do branco, do dourado... O livro, deixado de lado, aguardava o reencontro com a leitora que, embevecida, esquecia enredos e apenas contemplava.
Até hoje o céu, seja ele azul, cinzento, ou negro, atrai meu olhar.
Em minhas viagens, as cores, não só da natureza, mas das criações do homem também me encantam e eu tento descrever àqueles que me rodeiam, as cores dos lugares em que estive, seja por breves momentos, seja por alguns dias...
E, sem dúvida é de Paris que vêm as lembranças coloridas mais fortes.
Os verdes de Paris!
São indescritíveis! Os jardins, em sua simetria, trazem tantas tonalidades de verde que é difícil de explicar. Vão do mais claro, esbranquiçado, ao mais escuro, terroso, verde negro. Caminhar por entre alamedas frescas e perfumadas revigora, acalma, alegra.
Essas lembranças, que compartilho, me fazem feliz, apenas... por lembrar. Em momentos de muito cansaço ou de preocupação, são elas que me fortalecem, me animam e tornam o dia a dia mais fácil.

segunda-feira, 7 de março de 2011







Identifico-me com a música de Ivan Lins:




São os outros olhos, ávidos de todas as cores,




que eu tenho que arregalar pra aprender a ver




Sem nenhum rancor, sem nenhum temor




de não entender.








Com os olhos extasiados vivenciei a beleza que compartilho neste espaço.