quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PEQUENAS ALEGRIAS

Muito se fala sobre felicidade. Em um encontro em que homenageávamos uma colega de trabalho que se despedia, eu mesma desejei a ela felicidades: Seja feliz!
E isso fazemos frequentemente: em casamentos, em aniversários, sempre desejamos ao outro a felicidade. Mas, eu pergunto, não a temos ou não a tem o que parte? Parece-me que a felicidade se torna algo fora de nós, algo que precisamos conseguir. Entretanto, esquecemo-nos das pequenas alegrias do dia a dia, que nos tornam felizes: a chegada de um ente querido, uma carta (ou email) esperada ou inesperada, um céu puramente azul, uma flor que brota em nosso quintal...


A felicidade se faz em nós e não fora de nós, é preciso saber olhar, saber sentir, saber rir de si mesmo, saber aproveitar os momentos que a vida nos oferece, em meio a esse turbilhão de encargos, compromissos, batalhas diárias a serem vencidas.
Recentemente, procurava em uma floricultura mudas de gerânios pendentes. A moça que me atendeu disse que não havia e eu, curiosa perguntei sobre três mudas que havia em um determinado canto da loja. Ela me respondeu que sim, aqueles eram gerânios mas não poderia me vender pois não sabia me dizer a cor da flor...
Trouxe para casa as três mudas: a primeira me ofereceu flores de um lilás bem pálido, suave, muito belas. A segunda me encantou e fez minha manhã mais feliz do que geralmente é: o vermelho mesclado ao branco resplandecia em meio ao verde ao seu redor.
Aguardo agora mais uma pequena alegria. A terceira muda ainda não floriu...

Sobre alegrias, tristezas e poesia, não há quem melhor fale do que Cecília Meireles:

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada,
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

SAUDADE

Saudade, palavra da língua portuguesa que tenta definir a sensação misto de prazer e tristeza, de sensações de ausência, de falta... Não há como explicar, não há como não sentir...



                                                                Jardim em Bruges, Bélgica


JARDINS

Eram sombrios os jardins,
ou seria eu
quem os veria umbrosos
úmidos,
verdes cinzentos?

Caminhos estreitos,
orlados de samambaias,
verde da planta,
cinza o passeio do chão.

Se havia flores,
não me recordo,
apenas o verde me vem à lembrança.
E o cheiro de terra,
terra molhada
depois da chuva.

Em vão, procuro, em meu presente,
as sensações que sentia
ao percorrer os jardins do meu passado.
Só o que resta
é uma melancolia leve,
que se pode
chamar saudade...



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

AMOR

Tenho acompanhado um blog extremamente interessante: (In)Cultura: http://sonhar1000.blogspot.com/. A última postagem de Ana traz um texto sobre o Amor. Explica de forma mítica a origem da cegueira que é a característica primeira do amor. Eternamente acompanhado da loucura, o amor se vale dos sentidos, não atende à razão... Seria esta a provável causa do inexplicável que é esse sentimento.
Para ilustrar essas reflexões, apresento dois momentos que tratam do amor: o primeiro um texto meu, antigo, que encontrei entre meus guardados e um link para o nosso Chico, sempre incomparável!
Ah, e também o iluminado Klimt e O Beijo.

FORÇA DO AMOR

Espanta-me sempre a força do amor,
que permanece vivo apesar do tempo,
de tudo e de todos...
que brota às vezes em sobressaltos e angústias,

em suavidades e ternuras.

Fosse um romântico
e cantaria loas
e traçaria versos
e diria neles: Te amo ainda!

Mas não:
sou razão,  não sentimento
e busco as causas, raciocino,
procuro origens desta força que em mim existe.



 Gustav Klimt:  O beijo  (WikpediA)

A resposta, não sei, não a encontro
apenas constato
pasma e incrédula:
Não tenho armas
ou quem sabe argumentos
para reagir
à incrível força do Amor
que existe em mim.

Chico Buarque: Eu te amo

domingo, 5 de fevereiro de 2012

DE ONDE VEM A POESIA?

Mas afinal, de onde vem a poesia? De onde surge este ímpeto que transborda em palavras, se acomoda em versos e ritmos, impregnado de sentimento, de sensações?
Inexplicável é a inspiração, que surge ora espontaneamente, ora de forma planejada criada, construída.
Em meu caderno, em que o tempo tem se ocupado em deixar suas marcas, encontro textos escritos há anos, provocados por situações que vivenciei, por momentos de crise, de transformação, de reflexão e até de cansaço, incômodo...
Dentre eles encontrei o que transcrevo agora. As palavras se construíram em meio a uma reunião de professores, uma das muitas de que participei (e ainda participo), na minha longa jornada no magistério. Certamente o assunto, o local, a época - já que não há nenhuma  data - de nada disso me recordo. Apenas lembro-me, isso sim, da sensação que provocou o texto:

TÉDIO

Rostos impassíveis,
Corpos imóveis:
Nenhum movimento.
Apenas a acomodação
uma posição mais confortável,
um tocar o rosto,
um disfarçado bocejo.
Olhos que ora percorrem o ambiente,
ora fixos em um ponto distante,
ora imobilizados,
alheios!
Massa humana, amorfa,
reunida por circunstância
não por vontade própria.
Presente fisicamente apenas...
Escutam o que eu falo?
O que levarão daqui?
O Tédio!

Imagino hoje como deveria estar interessante o assunto tratado para que a sensação se transformasse em palavras, registradas em uma folha de caderno...
Em outro momento, agora planejado, foi me pedido um texto em homenagem ao professor. Criei então o que segue, construído a partir de minha vivência como aluna de grandes mestres, a quem devo minha formação  como professora e como pessoa.

MESTRE

Por estender a mão
e acreditar em mim;
por acender a luz
de novas experiências;
por perceber meus erros
e acalentar meus sonhos;
por oferecer novas ideias,
novas palavras,
novos caminhos...

Por se chegar a mim
para que o siga,
por recomeçar sempre
e sempre
e mais ainda:
por me dar amor
e tanto me ensinar!

Por isso e muito mais
eu te bendigo
e te chamo Mestre
e te chamo Amigo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DOS HOMENS PARA OS HOMENS

Gosto de monumentos. Prefiro não pensar que existem para justificar um voto, para saldar uma dívida, para compensar uma perda...
Prefiro pensar utopicamente, que é apenas uma homenagem: do homem para o homem.
Por estes caminhos que tenho trilhado, aqui perto ou distante, além mar, visito, admiro e fotografo o testemunho de que alguém é merecedor de uma homenagem. Seja por situações de alegria, de sucesso, seja por situações de grande infelicidade.

A velha Europa é cheia de monumentos que atestam o poderio de reis lado a lado com a lembrança do sofrimento dos oprimidos, dos injustiçados, dos feridos no corpo e na alma...
Dentre todos os que vi, um deles me emocionou: em Budapest, no Bairro judaico, nos fundos da Grande Sinagoga, o salgueiro majestoso presta uma homenagem aos judeus mortos na segunda  guerra mundial. Cada pequena folha traz o nome de uma família sacrificada.
A beleza da obra, aliada à tristeza do que representa, emociona o viajante mais desavisado.


MEMORIAL DO HOLOCAUSTO
OBRA DE IMRE VARGA

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

REDESCOBRINDO PESSOA

Nestas férias, redescobri Fernando Pessoa. Não mais por obrigações acadêmicas ou escolares, não mais por acaso ou por deparar-me fortuitamente com poemas ou trechos que me cheguem aos olhos (e ao coração, certamente), pela Internet ou por um meio qualquer da mídia impressa.
Não, estou redescobrindo a pessoa - perdoem o mau trocadilho - que existe por detrás do poeta de várias faces, da figura multifacetada que se mostra em conflito com o mundo, com a existência, consigo mesmo.
E descubro Pessoa a partir da leitura de uma obra fascinante: Fernando Pessoa: quando fui outro. Coletânea organizada por Luiz Ruffato, publicado pela Editora Objetiva.
Entretanto já no final de 2011, o desejo do reencontro aconteceu por obra de um professor da UNISUZ, Marco Aurélio Maida, que intermediou o desenvolvimento do Projeto de Leituras Dramáticas com o Teatro da Neura, e o Curso de Letras. Nesse encontro, que partiu de uma provocação a partir de instalação na Biblioteca da Faculdade, e posteriormente tomou o palco do Auditório Orlando Di Gênova, em Suzano, foram apresentados poemas e textos dos três heterônimos mais conhecidos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, bem como de Pessoa, ele mesmo. Uma noite magnífica, em que a Poesia invadiu nossos olhos, nossos ouvidos e nossa mente e instalou-se com propriedade entre nós, atores, professores e alunos.
Nestes dias chuvosos de reencontro, a leitura é lenta, pois a reflexão é necessária. E invade nossa alma e permanece a martelar em provocações profundas...
Para uma idéia do que se mostra nesse livro, reproduzo alguns trechos, que certamente nos fazem pensar.

"Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. São intransmissíveis todas as impressões salvo se a tornarmos literárias." (A maioria da gente enferma, p. 28)

"Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou, e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens... Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero! Nuvens... ( Nuvens, p. 33)

"Tudo se evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.
Continuamente sinto que foi outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
[...]
Meu Deus, me Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?" (Tudo se me evapora, p. 36)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MOMENTO FUGAZ

Durante minha longa jornada como professora, raros foram os momentos em que me sentei ou permaneci em silêncio, sem interagir com os alunos. Construí minha carreira acreditando que o maior trunfo do professor é fazer com que o aluno o perceba  como um cúmplice na tarefa de desvendar o conhecimento, que tenha prazer e curiosidade nas atividades que pratica, e que seja sempre desafiado a crescer, a superar as dificuldades. Acreditando nisso, é dífícil imaginar aulas apenas expositivas, sem interação, sem conversas, sem brincadeiras e atividades lúdicas.
Entretanto, houve raros momentos de calma e silêncio.
O texto a seguir, escrito há alguns anos,  retrata um desses momentos.

Desfruto deste momento,
raro e fugaz,
de completa imobilidade.
Mente esvaziada de angústias,
problemas - solúveis talvez -
planos, projeto, dores...
A classe, silenciosa, calcula e pensa,
suspira e apaga... e escreve.
Eu, à frente, somente observo, quieta.
Pela janela aberta,
em meio à brisa matinal,
vozes que brincam,
pés que correm,
vida em movimento.

Nada, porém, desfaz esse momento,
e desfruto com prazer desse hiato
que, certamente passageiro,
será rompido a qualquer instante.

Alguém se move e se levanta
e se aproxima.
Rompe-se o instante,
e a vida retoma seu pulsar.
Novamente dona das minhas ações,
também me levanto, movimento-me
e retorno ao cotidiano agitado
que constrói o meu viver....