segunda-feira, 21 de maio de 2012

PAZ

As três idades do homem - Ticiano (Tiziano Vezellio) 1512
Galeria Nacional de Escócia


Céu de Ticiano,
Mescla de cinza, azul e rosa.
Brisa leve, estremecendo hibiscos,
Verde, branco intenso, vermelho ainda incipiente...
A água que nutre e refresca sussurra no entardecer.
Em meio a tudo isso, a vida parece estancar,
E os minutos se arrastam como horas.

Impregnada de natureza e de beleza,
Absorvo esse hiato no tempo,
Identifico-me, entrego-me.
Como a água ele me nutre...
É outono, é entardecer, é vida,
É Paz!




Casa no campo - Elis Regina
Autor Zé Rodrix

segunda-feira, 14 de maio de 2012

CONTINHO

Pergunto-me por que demorei tanto em postar alguma coisa... Falta de tempo? Falta de idéias? Falta de inspiração? Não sei, um pouco de tudo e mais. Respeito demais quem me lê para escrever qualquer coisa, apenas por escrever...
Aventuro-me hoje a colocar um continho escrito já há algum tempo, que segue o mote da brevidade. Este, mais lacônico do que o primeiro que escrevi, tem em sua objetividade uma meta a cumprir. Excluir tudo o que seja excesso.
Apresento então este continho intitulado:

Em uma certa noite de verão


Disse Tcheckov que a brevidade é a maior das virtudes. Disse também que em contos, mais vale dizer de menos que de mais. Assim, compreendam, esta brevidade, intencional, permite que construam a sua vontade, os detalhes que criam o desenrolar dos fatos, bem como as possíveis implicações que possam acarretar.
Vamos, pois aos fatos.
Por trás da vidraça fechada, o gato chora por liberdade em lamentos profundos.
Na cama virginal, a menina sonha sonhos eróticos, entre lençóis.
Na rua estreita, deserta a esta hora, o vento morno de verão, carrega folhas e poeira.
Alerta, o gato interrompe o lamento, orelhas em pé.
Ao assobio conhecido, a menina desperta e, rápida, deixa os lençóis e o pijama, já vestida em jeans e camiseta. Rapidamente, pela janela, agora aberta, passa o corpo esbelto que se acomoda na garupa da moto.
Parte a moto e o gato se esgueira, aproveitando o vão. Livre!
Livre ele, em muros e telhados. Livre ela, em um motel próximo.
A madrugada traz de volta os dois fugitivos e os primeiros raios de sol encontram a menina adormecida na cama que deixou de ser virginal.
O gato, esse dorme enroscado no tapete.
Tudo volta à normalidade, à rotina barulhenta de todo dia.
Tudo parece igual. Apenas parece.
Esses os fatos. E dessa forma, compacta e, espero, clara, deixo a quem lê, a tarefa de criar as conseqüências e os desdobramentos do acontecido em uma certa noite de verão...

                                              Papel de parede - Google Imagens






segunda-feira, 16 de abril de 2012

OUTONO

Alguns amigos relataram problemas de visualização dos textos.Como leiga que sou em coisas de internet, fui em busca de respostas e tento agora um novo layout para verificar se o problema está resolvido.
Para aproveitar, rendo-me à nova estação e trago folhas de outono para enfeitar a página. Lembro-me também de uma melodia antiga, cantada por minha irmã: Concerto de outono. Talvez os que me lêem não se recordem dela, por isso trago a letra, bela e singela.
Para concluir, a melodia eterna de Yves Montand: Les feuilles Mortes.
                       
Concerto de Outono
Carlos Galhardo
 
Olhando as folhas mortas
Sopradas pelo vento
Eu sinto o frio da solidão...
Nas nuvens tão escuras
Se espelha meu tormento
Não tem mais luz
Meu pensamento
 
Eu sinto então vibrando
No céu sem claridade
A melodia que me traz a ilusão
Do início de um concerto
Dizendo ao coração
O outono está voltando
Quem amo não...
 
 

terça-feira, 10 de abril de 2012

SOBRE HUMANIDADE

Hoje, por diversas vezes, tive oportunidade de refletir sobre dois conceitos que atualmente parecem distintos: o conceito do direito, e o conceito de humanidade. Nesta terra em que as vantagens parecem se sobrepor aos direitos, em que o certo e o errado parecem borrões indistintos que se mesclam, reservar-se o direito de ser justo é  uma qualidade pouco percebida.
Ou ainda, lutar  pelos direitos dos menos favorecidos, dos menos esclarecidos, torna-se  a mola que impulsiona bem intencionados os quais dedicam sua vida e sua carreira em favor do outro.
Mas, muitas vezes, a noção do direito, principalmente do direito adquirido subverte  o conceito primeiro e sufoca conceitos outros como humanidade, fraternidade, cooperação...
Estar em seu direito significa não olhar o outro com olhos de humanidade?
Estar em seu direito significa tornar-se insensível à dor alheia?
Obviamente, não me refiro a conchavos, a subversões da lei ou infrações camufladas.
Refiro-me, sim ao transcender a condição do direito adquirido, o que  seria abdicar do mesmo por uma causa nobre, por um ato de fraternidade, por um olhar mais humano...
Essas reflexões me deixaram triste por pereceber que há uma nova geração que se fecha para o outro, em busca de "seus direitos" e abriram-me os olhos para a importância de levar aos jovens a discussão sobre o direito e a humanidade. 
Ainda há tempo.
Ou não?



Para fechar, sem deixar de refletir, um pouco de Lenine: Paciência


quarta-feira, 21 de março de 2012

APESAR

Apesar dos pesares
A vida continua.

Apesar do riso,
Apesar da lágrima,
Apesar da indiferença,
A vida continua...

Apesar da fome,
Apesar da seca,
Apesar do corpo no asfalto,
Apesar do crime na rua,
A vida continua...

Apesar do amor,
Apesar da dor,
Apesar do aplauso,
Apesar do escárnio,
A vida continua...

Apesar de mim,
Apesar de você,
Apesar de toda gente,
A vida segue em frente...




Rosa persistente


Lembrança de formatura,
fincada na terra,
brotou no quintal
que embeleza com suas pequenas flores...
Resistente ao tempo,
ao sol, à chuva,
à falta de cuidados...
Apesar de tudo, segue firme
 e se renova a cada dia, trazendo alegria e esperança
para a vida da gente...



segunda-feira, 5 de março de 2012

DELICADEZA

Vivemos em um mundo que grita pelo fim da guerra, da fome, da corrupção, do materialismo... Vivemos em um mundo que brada por igualdade, por direitos, por honestidade.
Neste espaço, sem a preocupação de levantar bandeiras, de propor movimentos, apenas gostaria de falar sobre delicadeza. A delicadeza que nos rodeia e que nem sempre percebemos, aquela que muitas vezes não é retribuída, não é valorizada.
Hoje pela manhã, bem cedo, em direção ao trabalho, percebi que o carro à minha frente deu uma guinada à esquerda. Nada muito ameaçador, mas me fez prestar atenção ao motivo do rápido desvio. E o motivo caminhava tranquilamente, completando seu trajeto: um pequeno pombo atravessava a rua... Sorrindo, percebi a sensibilidade do motorista que desviou de um pequeno pombo. Delicadeza...
Mais tarde, já na Faculdade, ligou-me uma aluna para comunicar que não iria frequentar esse semestre para terminar seu Trabalho de Conclusão. Voltaria apenas no próximo. Estava apenas comunicando o fato. Agradeci a gentileza e desliguei o telefone sorrindo. Ela não precisava justificar-se à coordenadora, era apenas um ato de delicadeza...
E assim, pequenas ações tornaram meu dia mais feliz e agora encontro em minha mesa um livrinho de poesias de Guiomar Paiva, com fotos de Cesar Saulo que é simplesmente uma delicadeza... Chama-se Quintais, fachadas não! Transcrevo alguns versos  de que gosto muito:

" Há tanta beleza,
esconderijos
e mistérios
nos quintais...

Nas fachadas, não.

Os quintais
 contam
segredos
e o jeito de ser
do dono
que arquiteto nenhum
põe no papel...

As fachadas não

(...)

Quintais!

O que mais gosto neles
é que,
por mais que se pareçam
não existem
dois iguais.

As fachadas... não"

Delicadeza, gentileza, precisamos disso para sobreviver nesta nossa lida diária. E a palavra gentileza me lembra o Poeta Gentileza, do Rio de Janeiro que escrevia seus poemas cheios de ensinamentos nas pilastras das ruas cariocas. É dele a frase: Gentileza gera gentileza, que deu origem ao movimento Rio com Gentileza;
http://www.riocomgentileza.com.br/

Para um final a essas divagações nada melhor do que Dori Caimi. Delicadeza!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

RECORDAÇÕES

"Recordar é viver: eu hoje sonhei com você!" A marchinha de carnaval traz lembranças guardadas no fundo da memória. Remexendo caixas com fotos, que aguardam o carinho e a proteção do álbum há tanto planejado, encontro a foto em preto e branco. Lembro-me do texto, sem data, escrito há um bom tempo, e o encontro rascunhado no verso de um requerimento, rasgado pela metade... É o mote para esta postagem, que traz também Portinari, sempre incomparável e Mário Quintana, amoroso, delicado. É preciso dizer mais? Saudade...

AMIGOS

A foto antiga
mostra a turma unida, abraçada.
Turma que se reunia
ao findar a tarde,
e a rua.
A alegria se desdobrava em folguedos inocentes:
a corda, a amarelinha, o pique,
a mãe da rua, passa anel...

Em meio aos garotos, agachados,
Duas meninas em pé, braços dados,
sorridentes...

Tempo feliz!

Onde estão todos?
Naquele final de rua hoje há lojas e escritórios,
a turma se desfez, se perdeu no tempo.
Resta apenas a mulher
que procura encontrar dentro de si
a menina alegre
que pulava corda ao entardecer...


Cândido Portinari: Crianças Brincando óleo sobre tela, 1938.

SEGUNDA CANÇÃO DE MUITO LONGE
Mário Quintana

Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro...

Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa...

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes,  cavernosas como vozes de leões.
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia azulejos reluzentes, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas...
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos...
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,
O chiar das chaleiras...
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!...
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!
Primeira publicação em livro: 1946