domingo, 29 de julho de 2012

PALAVRAS ESPARSAS

     Mexo em meus guardados e encontro, em papéis dobrados, ou no verso de calendários, pequenos textos escritos em momentos de espera, de descanso, de viagem, em que a inspiração veio e transbordou em forma de palavras...
     Passo a transcrever neste espaço, textos que surgiram a partir de situações vividas, algumas alegres, outras tristes, de esperança ou de mágoa.      Afinal, isso não é viver? Momentos que se sucedem, sensações, sentimentos, muitas vezes esquecidos ou nem ao menos percebidos.
     Aqui vão portanto algumas destas linhas, traçadas em uma folha  que o tempo amarelou.

     ADEUS

     Todo dia é dia
     de dizer Adeus!
     Todo tempo é tempo 
     de Agradecer!
     É preciso, então,
     não perder o tempo
     de agradecer,
     antes que o dia chegue
     de dizer
     Adeus...



Edu Lobo: Pra dizer  Adeus
Edu Lobo e Torquato Neto
Youtube

sexta-feira, 20 de julho de 2012

UKELELE

Conheci o som do ukelele em minha adolescência. O som peculiar era comum em filmes de Elvis Presley e em comédias românticas que embalavam os sonhos de finais sempre felizes.
Volto agora a ouvir e apreciar esse instrumento pelas mãos de meu filho que, apaixonado por música e percussão, ensaia seus acordes nos finais de semana, aqui em casa.
Compartilho então um momento muito belo: um video em que o ukelele é tocado com maestria em meio a um mar que parece de sonho.




Can't Keep - Eddie Vedder
Youtube

Em busca de um texto para completar esta página, encontro um poema de José de Carvalho, autor que conheci à entrada do MASP, em São Paulo, há alguns anos. O livrinho (pequeno apenas no tamanho) traz poemas,  haikais e fotos.
Segundo Marino Maradei Jr, que assina a apresentação do livro, "combinam-se claramente a sabedoria de Tsé, que inspirou o Taoísmo, e a sutileza poética do Bashô. O resultado conduz a um fluxo delicado e inteligente de exercícios que se traduzem numa idealização: a Beleza Absoluta"

PEIXE NA BOCA DE JACARÉ


Se não bastasse o ar que envolve a minha voz
e esse silêncio
uma imagem não se desgasta nunca


há sempre um novo sempre - a nos tocar fundo
e não importa se fora ou dentro
dormitam cenas
fragmentos de um mundo inteiro.
às vezes uma língua escavando em semicírculo
o ouvido 
                  [em diálogos amenos de Aretino
em outras, só planície, terra desolada pela seca
onde erigiu-se uma estela aos sem destino.


e sendo um outro rio, me torno anfíbio
e deslizo ao encontro de furtivas águas


CARVALHO, José de. Destas águas. São Paulo: Quebra Nozes, 2007.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

DE VOLTA - PALAVRAS

Após quinze dias de esperadas férias, retorno à rotina de trabalho, encontrando os amigos queridos, as decisões a tomar, as tarefas a cumprir. Retorno ainda a este blog, do qual tirei férias também, pois a vontade era de apagar, por alguns dias, tudo aquilo que faz parte de meu dia a dia.
Agora, ânimo renovado, envio meu abraço aos meus visitantes, conhecidos ou não, esperando que tirem algum proveito do que encontrarão neste espaço. 

PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO
João Cabral de Melo Neto
     - VII -

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais 
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavra.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita

In: MORRICONI, Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século. 
Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.






 CLARICE   ESCREVENDO

Por que não tentar neste momento, que não é grave, olhar pela janela? Esta é a ponte. Este é o rio. Eis a Penitenciária. Eis o relógio. E Recife. Eis o canal. Onde está a pedra que sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na forma palpável das coisas. [...]









Se esta foi uma palavra ecoando no chão duro, qual é o teu sentido? Como é cavo este coração no peito da cidade. Procuro, procuro. Casa, calçadas, degraus, monumento, poste, tua indústria. 
Da mais alta muralha - olho. Procuro. Da mais alta muralha não recebo nenhum sinal. Daqui não vejo, pois tua clareza é impenetrável. Daqui não vejo, mas sinto que alguma coisa está escrita a carvão numa parede desta cidade.          

 Clarice Lispector: O manifesto da cidade. 

 In: Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro, Rocco, 1999.




Fotografia:  Google Imagens   

Link para o texto integral:





Uma palavra
Chico Buarque de Holanda
Youtube

sexta-feira, 6 de julho de 2012

PREGUIÇA...

Hoje não há palavras, nem rimas, nem versos...
Nem ao menos aquela vontade de criar, que invade e exige a produção.
Hoje, só preguiça. Falta a adrenalina do cotidiano e mesmo o cotidiano atual se arrasta.
Lanço mão então de meus poetas preferidos para preencher a página e esta noite de inverno que mais parece verão.


Emergência
Mario Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.




Todo sentimento - Cristóvão Bastos e Chico Buarque de Holanda
Youtube

sábado, 30 de junho de 2012

FINALMENTE FÉRIAS!

Depois de um final de semestre extremamente cansativo e tenso, estou em férias!

Google Imagens




Peço licença para reproduzir um texto publicado no ano passado, desejando a todos muitas tardes como a que descrevo.


Entardecer de ócio



Aos meus amigos, a quem gostaria de oferecer uma tarde assim.



Todos deveriam ter o direito de desfrutar de um entardecer de ócio. Todos, sem exceção, de todas as cores, credos ou procedências, jovens, adultos, idosos, deveriam, por direito, usufruir da beleza do pôr-do-sol, em perfeita ociosidade.

Bons ou maus, não tão bons, nem tão maus, pobres e ricos, trabalhadores e desempregados, comunistas, socialistas, imperialistas, capitalistas e todos os "istas" possíveis, nenhum deles seria privado do direito de contemplar, imóvel e em completo descanso, o róseo do céu, o vermelho do sol que se põe no horizonte.

E ainda todos aqueles que amam e que odeiam, que choram e que riem, seja por alegria, seja por tristeza, seja por inveja, seja por raiva, os sinceros e os falsos, os cínicos, os irônicos, os confiáveis e os amáveis: sim, todos eles deveriam ter esse direito e dele usufruir...

Seria um entardecer de plena paz: sem desejos nem anseios, sem planos e decisões, sem projetos, sem perspectivas: apenas o céu e o sol. Mas também não haveria mágoas ou tristezas, lembranças e saudades, dores e temores. Nada. Apenas a tarde.

E a tarde seria bela: o céu de um azul perfeito, algumas nuvens, por que não? Afinal é possível a magistral beleza de um céu em que as nuvens deixam escapar feixes de luz.

No horizonte, aos olhos extasiados, se mostraria o rosa, o lilás e o dourado, emoldurando o disco vermelho que se despede, aos poucos, prenunciando a noite.

A tarde seria também perfumada e sonora. Perfume de flores no ar, nada forte, nada intenso, nada que perturbasse o recolhimento e o prazer daqueles instantes em que o tempo deixou de existir. Sons de pássaros, em voos rápidos, aos pares ou em bandos, ou ainda solitários, completariam a festa dos sentidos, sons e aromas, cores e luz, perfeição.

E nesse entardecer de ócio, total desprendimento de tudo que parece ser tão importante: coisas, pessoas, ações, até o tempo pareceria imóvel: uma pausa, um hiato, um momento de puro deleite, de entrega e interação. Seriam todos apenas um: ser e natureza, integrados. Sem pressa, sem tempo, sem nada.

Apenas a tarde.
Publicado originalmente em 11 de janeiro de 2011. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

SEMPRE POESIA

A poesia, como a música, nos enleva, nos preenche, faz  com que, por momentos, vivamos uma outra realidade. Hoje, ao findar a tarde,  passei alguns momentos de enlevo saboreando as melodias entoadas pelos coralistas, no Encontro de Corais que aconteceu no Clube de Campo de Mogi das Cruzes.
Junto às emoções da música, a emoção do encontro com amigos, com pessoas que admiro e que fazem ou fizeram parte de minha história de vida.
Agora, passeando pelos blogues que sigo, e outros pelos quais perambulo,  encontro imagens e textos que trazem mais beleza e harmonia para este final de domingo (ou talvez início de segunda feira...)
Atrevo-me então a transcrever um poema de Neruda, que encontrei no blog de Catarina: "Contempladora Ocidental" ( http://contempladoraocidental.blogspot.com.br/ ) , publicado há alguns anos.
Pablo Neruda me encanta sempre pela sonoridade de seus versos,  pelas imagens construídas, pela profundo olhar com que viu e nos faz ver a vida...


Casa
Tal vez ésta es la casa en que viví
cuando yo no existí ni había tierra,
cuando todo era luna o piedra o sombra,
cuando la luz inmóvil no nacía.
Tal vez entonces esta piedra era
mi casa, mis ventanas o mis ojos.
Me recuerda esta rosa de granito
algo que me habitaba o que habité,
cueva o cabeza cósmica de sueños,
copa o castillo o nave o nacimiento.
Toco el tenaz esfuerzo de la roca,
su baluarte golpeado en la salmuera,
y sé que aquí quedaron grietas mías,
arrugadas sustancias que subieron
desde profundidades hasta mi alma,
y piedra fui, piedra seré, por eso
toco esta piedra y para mí no ha muerto:
es lo que fui, lo que seré, reposo
de un combate tan largo como el tiempo.

Pablo Neruda

sábado, 9 de junho de 2012

MARCAS



É inevitável.
Sempre deixamos nossa marca no tempo:
leve, profunda, muitas vezes invisível...
Mas lá está ela, inexoravelmente...



                                                                       Portão em Atibaia, SP
... o que você demora
é o que o tempo leva...
... na cinza das horas


                                                                Vambora - Adriana Calcanhoto (Youtube)