Um espaço para a prosa e a poesia de todo dia, um espaço para os textos que amamos, os textos que produzimos, os textos que geram outros textos...
Viver em prosa e poesia, sem perder a ingenuidade e a utopia, mas de olhos abertos para o que se mostra, para o que é presente, para o que machuca e para o que se sente.
COM LICENÇA POÉTICA Adélia Prado Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura. minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.
PRADO, Adélia. COM LICENÇA POÉTICA. In: MORICONI, Italo. OS CEM MELHORES POEMAS BRASILEIROS DO SÉCULO. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.p.247.
Mexo em meus guardados e encontro, em papéis dobrados, ou no verso de calendários, pequenos textos escritos em momentos de espera, de descanso, de viagem, em que a inspiração veio e transbordou em forma de palavras... Passo a transcrever neste espaço, textos que surgiram a partir de situações vividas, algumas alegres, outras tristes, de esperança ou de mágoa. Afinal, isso não é viver? Momentos que se sucedem, sensações, sentimentos, muitas vezes esquecidos ou nem ao menos percebidos. Aqui vão portanto algumas destas linhas, traçadas em uma folha que o tempo amarelou.
Conheci o som do ukelele em minha adolescência. O som peculiar era comum em filmes de Elvis Presley e em comédias românticas que embalavam os sonhos de finais sempre felizes. Volto agora a ouvir e apreciar esse instrumento pelas mãos de meu filho que, apaixonado por música e percussão, ensaia seus acordes nos finais de semana, aqui em casa. Compartilho então um momento muito belo: um video em que o ukelele é tocado com maestria em meio a um mar que parece de sonho.
Can't Keep - Eddie Vedder
Youtube
Em busca de um texto para completar esta página, encontro um poema de José de Carvalho, autor que conheci à entrada do MASP, em São Paulo, há alguns anos. O livrinho (pequeno apenas no tamanho) traz poemas, haikais e fotos.
Segundo Marino Maradei Jr, que assina a apresentação do livro, "combinam-se claramente a sabedoria de Tsé, que inspirou o Taoísmo, e a sutileza poética do Bashô. O resultado conduz a um fluxo delicado e inteligente de exercícios que se traduzem numa idealização: a Beleza Absoluta"
PEIXE NA BOCA DE JACARÉ
Se não bastasse o ar que envolve a minha voz e esse silêncio uma imagem não se desgasta nunca
há sempre um novo sempre - a nos tocar fundo e não importa se fora ou dentro dormitam cenas fragmentos de um mundo inteiro. às vezes uma língua escavando em semicírculo o ouvido [em diálogos amenos de Aretino em outras, só planície, terra desolada pela seca onde erigiu-se uma estela aos sem destino.
e sendo um outro rio, me torno anfíbio e deslizo ao encontro de furtivas águas
CARVALHO, José de. Destas águas. São Paulo: Quebra Nozes, 2007.
Após quinze dias de esperadas férias, retorno à rotina de trabalho, encontrando os amigos queridos, as decisões a tomar, as tarefas a cumprir. Retorno ainda a este blog, do qual tirei férias também, pois a vontade era de apagar, por alguns dias, tudo aquilo que faz parte de meu dia a dia.
Agora, ânimo renovado, envio meu abraço aos meus visitantes, conhecidos ou não, esperando que tirem algum proveito do que encontrarão neste espaço.
PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO
João Cabral de Melo Neto
- VII -
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavra.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita
In: MORRICONI, Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século.
Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
CLARICE ESCREVENDO
Por que não tentar neste momento, que não é grave, olhar pela janela? Esta é a ponte. Este é o rio. Eis a Penitenciária. Eis o relógio. E Recife. Eis o canal. Onde está a pedra que sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na forma palpável das coisas. [...]
Se esta foi uma palavra ecoando no chão duro, qual é o teu sentido? Como é cavo este coração no peito da cidade. Procuro, procuro. Casa, calçadas, degraus, monumento, poste, tua indústria.
Da mais alta muralha - olho. Procuro. Da mais alta muralha não recebo nenhum sinal. Daqui não vejo, pois tua clareza é impenetrável. Daqui não vejo, mas sinto que alguma coisa está escrita a carvão numa parede desta cidade.
Clarice Lispector: O manifesto da cidade.
In: Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro, Rocco, 1999.
Hoje não há palavras, nem rimas, nem versos... Nem ao menos aquela vontade de criar, que invade e exige a produção. Hoje, só preguiça. Falta a adrenalina do cotidiano e mesmo o cotidiano atual se arrasta. Lanço mão então de meus poetas preferidos para preencher a página e esta noite de inverno que mais parece verão.
Emergência
Mario Quintana
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Todo sentimento - Cristóvão Bastos e Chico Buarque de Holanda
Depois de um final de semestre extremamente cansativo e tenso, estou em férias!
Google Imagens
Peço licença para reproduzir um texto publicado no ano passado, desejando a todos muitas tardes como a que descrevo.
Entardecer de ócio
Aos meus amigos, a quem
gostaria de oferecer uma tarde assim.
Todos deveriam ter o direito de
desfrutar de um entardecer de ócio. Todos, sem exceção, de todas as cores,
credos ou procedências, jovens, adultos, idosos, deveriam, por direito, usufruir
da beleza do pôr-do-sol, em perfeita ociosidade.
Bons ou maus, não tão bons, nem
tão maus, pobres e ricos, trabalhadores e desempregados, comunistas, socialistas,
imperialistas, capitalistas e todos os "istas" possíveis, nenhum deles seria
privado do direito de contemplar, imóvel e em completo descanso, o róseo do céu,
o vermelho do sol que se põe no horizonte.
E ainda todos aqueles que amam
e que odeiam, que choram e que riem, seja por alegria, seja por tristeza, seja
por inveja, seja por raiva, os sinceros e os falsos, os cínicos, os irônicos, os
confiáveis e os amáveis: sim, todos eles deveriam ter esse direito e dele
usufruir...
Seria um entardecer de plena
paz: sem desejos nem anseios, sem planos e decisões, sem projetos, sem
perspectivas: apenas o céu e o sol. Mas também não haveria mágoas ou tristezas,
lembranças e saudades, dores e temores. Nada. Apenas a tarde.
E a tarde seria bela: o céu de
um azul perfeito, algumas nuvens, por que não? Afinal é possível a magistral
beleza de um céu em que as nuvens deixam escapar feixes de luz.
No horizonte, aos olhos
extasiados, se mostraria o rosa, o lilás e o dourado, emoldurando o disco
vermelho que se despede, aos poucos, prenunciando a noite.
A tarde seria também perfumada
e sonora. Perfume de flores no ar, nada forte, nada intenso, nada que
perturbasse o recolhimento e o prazer daqueles instantes em que o tempo deixou
de existir. Sons de pássaros, em voos rápidos, aos pares ou em bandos, ou ainda
solitários, completariam a festa dos sentidos, sons e aromas, cores e luz,
perfeição.
E nesse entardecer de ócio,
total desprendimento de tudo que parece ser tão importante: coisas, pessoas,
ações, até o tempo pareceria imóvel: uma pausa, um hiato, um momento de puro
deleite, de entrega e interação. Seriam todos apenas um: ser e natureza,
integrados. Sem pressa, sem tempo, sem nada.
A poesia, como a música, nos enleva, nos preenche, faz com que, por momentos, vivamos uma outra realidade. Hoje, ao findar a tarde, passei alguns momentos de enlevo saboreando as melodias entoadas pelos coralistas, no Encontro de Corais que aconteceu no Clube de Campo de Mogi das Cruzes.
Junto às emoções da música, a emoção do encontro com amigos, com pessoas que admiro e que fazem ou fizeram parte de minha história de vida.
Agora, passeando pelos blogues que sigo, e outros pelos quais perambulo, encontro imagens e textos que trazem mais beleza e harmonia para este final de domingo (ou talvez início de segunda feira...)
Atrevo-me então a transcrever um poema de Neruda, que encontrei no blog de Catarina: "Contempladora Ocidental" ( http://contempladoraocidental.blogspot.com.br/ ) , publicado há alguns anos.
Pablo Neruda me encanta sempre pela sonoridade de seus versos, pelas imagens construídas, pela profundo olhar com que viu e nos faz ver a vida...