sábado, 22 de setembro de 2012

TEMPO

Sem tempo para escrever... Sem tempo para criar... Sem tempo para sonhar...
O momento é de trabalho, de planos, de prazos, de tarefas a cumprir, enfim, a rotina de quem tem sob sua responsabilidade a gestão de um, ou melhor, dois cursos acadêmicos.
Peço desculpas aos que me seguem pela minha ausência nesses dias, em que as coisas "se embolam" como se diz na linguagem informal, por aqui.
Para me redimir, trago hoje três pérolas: Caetano Veloso,  Antonio Cicero e Vermmeer. O primeiro com a doce "Você não me ensinou a te esquecer", de Fernando Mendes;  o segundo permitindo que se reflita sobre guardar e perder  e o terceiro apenas para o prazer do olhar.

Caetano Veloso
Você não em ensinou a te esquecer - Fernando Mendes
Youtube

GUARDAR

Antonio Cícero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma. 
Em cofre se perde a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, 
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve,  por isso se diz, por isso se publica.
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

MORRICONI, ITALO. Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001



Moça com brinco de pérola
Johannes Vermeer
Google Imagens


domingo, 2 de setembro de 2012

O DISCURSO DO REI

Acabo de assistir ao filme "O discurso do rei", direção de Tom Hooper e com interpretação magistral de Colin Firth. Merecido Oscar para o ator, que fez com que nos angustiássemos a cada palavra a ser dita.
Como professora -  embora não mais em sala de aula - fico perguntando a mim mesma se todos temos consciência de nosso papel, enquanto formadores de leitores/escritores/falantes...
Uma palavra, um gesto, uma expressão podem tanto! Podem incentivar ou destruir, construir ou fazer desmoronar sonhos, ideais, planos. 
Este não é o lugar nem o momento para soluções didáticas ou pedagógicas, mas apenas para a menção rápida ao problema, que poderá levar, ou não, à reflexão.
Fica apenas a lembrança do filme e das palavras do rei:
Eu tenho uma voz!


Youtube


E é com orgulho que recebo o convite para a premiação de nosso ex aluno, hoje licenciado em Letras pela UNISUZ, Marcos Vinícius Pereira, que teve seu poema Estrangeiro de mim mesmo, contemplado com o primeiro lugar no 8º Concurso Literário Cora Coralina, de Suzano. 
Parabéns, Marcos Vinícius!


FOTO UNISUZ 
SIMPÓSIO DE LETRAS -  SIMPOL 2012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

SEM PALAVRAS

Quantas vezes nos quedamos sem palavras diante da dor do outro.... Quantas vezes queremos a palavra certa, a frase oportuna e permanecemos  silenciosos, sem nada dizer... Compartilhamos o sentir, esperando que o outro perceba nossos sentimentos.
As linhas abaixo retratam um momento, vivido há alguns anos, em que nada pude dizer, apenas sentir...


A UM AMIGO

Sinto no peito
doer a dor do amigo,
que apaga o sorriso
sempre companheiro.

Como lhe dizer, amigo,
que me sinto triste por vê-lo sofrer?

Saiba, companheiro,
já ouvi dizer alguém
que na vida tudo passa
e as dores passam também...

E nestes mal traçados versos
sem rima, descompassados,
eu peço a Deus que o faça
mais feliz,
para que assim eu possa
ser mais feliz também.


Para embalar os sentidos, ninguém melhor do que Piazzola, interpretado por Yo Yo Ma. 




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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PARA OS QUE AMAM DRUMMOND: OFEREÇO ADÉLIA

COM LICENÇA POÉTICA

                                  Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

PRADO, Adélia. COM LICENÇA POÉTICA. In: MORICONI, Italo. OS CEM MELHORES POEMAS BRASILEIROS DO SÉCULO.  Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.p.247.





  

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade
Voz: Paulo Autran
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domingo, 29 de julho de 2012

PALAVRAS ESPARSAS

     Mexo em meus guardados e encontro, em papéis dobrados, ou no verso de calendários, pequenos textos escritos em momentos de espera, de descanso, de viagem, em que a inspiração veio e transbordou em forma de palavras...
     Passo a transcrever neste espaço, textos que surgiram a partir de situações vividas, algumas alegres, outras tristes, de esperança ou de mágoa.      Afinal, isso não é viver? Momentos que se sucedem, sensações, sentimentos, muitas vezes esquecidos ou nem ao menos percebidos.
     Aqui vão portanto algumas destas linhas, traçadas em uma folha  que o tempo amarelou.

     ADEUS

     Todo dia é dia
     de dizer Adeus!
     Todo tempo é tempo 
     de Agradecer!
     É preciso, então,
     não perder o tempo
     de agradecer,
     antes que o dia chegue
     de dizer
     Adeus...



Edu Lobo: Pra dizer  Adeus
Edu Lobo e Torquato Neto
Youtube

sexta-feira, 20 de julho de 2012

UKELELE

Conheci o som do ukelele em minha adolescência. O som peculiar era comum em filmes de Elvis Presley e em comédias românticas que embalavam os sonhos de finais sempre felizes.
Volto agora a ouvir e apreciar esse instrumento pelas mãos de meu filho que, apaixonado por música e percussão, ensaia seus acordes nos finais de semana, aqui em casa.
Compartilho então um momento muito belo: um video em que o ukelele é tocado com maestria em meio a um mar que parece de sonho.




Can't Keep - Eddie Vedder
Youtube

Em busca de um texto para completar esta página, encontro um poema de José de Carvalho, autor que conheci à entrada do MASP, em São Paulo, há alguns anos. O livrinho (pequeno apenas no tamanho) traz poemas,  haikais e fotos.
Segundo Marino Maradei Jr, que assina a apresentação do livro, "combinam-se claramente a sabedoria de Tsé, que inspirou o Taoísmo, e a sutileza poética do Bashô. O resultado conduz a um fluxo delicado e inteligente de exercícios que se traduzem numa idealização: a Beleza Absoluta"

PEIXE NA BOCA DE JACARÉ


Se não bastasse o ar que envolve a minha voz
e esse silêncio
uma imagem não se desgasta nunca


há sempre um novo sempre - a nos tocar fundo
e não importa se fora ou dentro
dormitam cenas
fragmentos de um mundo inteiro.
às vezes uma língua escavando em semicírculo
o ouvido 
                  [em diálogos amenos de Aretino
em outras, só planície, terra desolada pela seca
onde erigiu-se uma estela aos sem destino.


e sendo um outro rio, me torno anfíbio
e deslizo ao encontro de furtivas águas


CARVALHO, José de. Destas águas. São Paulo: Quebra Nozes, 2007.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

DE VOLTA - PALAVRAS

Após quinze dias de esperadas férias, retorno à rotina de trabalho, encontrando os amigos queridos, as decisões a tomar, as tarefas a cumprir. Retorno ainda a este blog, do qual tirei férias também, pois a vontade era de apagar, por alguns dias, tudo aquilo que faz parte de meu dia a dia.
Agora, ânimo renovado, envio meu abraço aos meus visitantes, conhecidos ou não, esperando que tirem algum proveito do que encontrarão neste espaço. 

PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO
João Cabral de Melo Neto
     - VII -

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais 
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavra.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita

In: MORRICONI, Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século. 
Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.






 CLARICE   ESCREVENDO

Por que não tentar neste momento, que não é grave, olhar pela janela? Esta é a ponte. Este é o rio. Eis a Penitenciária. Eis o relógio. E Recife. Eis o canal. Onde está a pedra que sinto? a pedra que esmagou a cidade. Na forma palpável das coisas. [...]









Se esta foi uma palavra ecoando no chão duro, qual é o teu sentido? Como é cavo este coração no peito da cidade. Procuro, procuro. Casa, calçadas, degraus, monumento, poste, tua indústria. 
Da mais alta muralha - olho. Procuro. Da mais alta muralha não recebo nenhum sinal. Daqui não vejo, pois tua clareza é impenetrável. Daqui não vejo, mas sinto que alguma coisa está escrita a carvão numa parede desta cidade.          

 Clarice Lispector: O manifesto da cidade. 

 In: Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro, Rocco, 1999.




Fotografia:  Google Imagens   

Link para o texto integral:





Uma palavra
Chico Buarque de Holanda
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