domingo, 10 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA

     O mundo em que vivemos há muito tempo está cheio de lugares nos quais estão presentes imagens que têm a função de trazer alguma coisa à memória. Algumas dessas imagens, como acontece nos cemitérios, nos lembram pessoas que não mais existem. Outras, como nos sacrários ou nos cemitérios de guerra, relacionam a lembrança dos indivíduos à dos grandes eventos ou das grandes tragédias. Outras ainda, como acontece nos monumentos, nos remetem ao passado de nossas histórias, à sua continuidade presumível ou real com o presente. Nos lugares da vida cotidiana, inúmeras imagens nos convidam a comportamentos, nos sugerem coisas, nos exortam aos deveres, nos convidam a fazer, nos impõem proibições, nos solicitam de diversas maneiras.

ROSSI, Paolo. O passado,  a memória , o esquecimento: seis ensaios da  história das idéias. 
Trad. Nilson Moulin. São Paulo: Editora UNESP, 2010





Mãe com filho  morto “Mutter mit toten Sohn”

Käthe Kollwitz
Memorial às vítimas da Guerra e da Tirania
Berlim, 1993.

Seria possível viver sem referências, totalmente ao sabor dos ventos e das marés?


Depois dos temporais
Ivan  Lins e Vitor Martins
Youtube

sábado, 26 de janeiro de 2013

LUZ DO SOL

MÃE E POESIA

Vivíamos a poesia e a literatura em minha casa. Após o jantar, nossa mãe contava o que havia escrito naquele dia, às vezes triste pela morte de uma personagem, às vezes em dúvida sobre o que haveria de acontecer... 
A cada livro publicado, a alegria de mais uma obra finda, em mescla com a dificuldade da distribuição de uma publicação independente... Mas isso não a assustava e logo havia nova história, novos poemas, um novo livro.
Trago hoje dois poemas de Botyra Camorim, minha mãe.


ESCALAS

Envolvida por cadeias,
segui todos os caminhos
presa e livre, ao mesmo tempo.
Em cadeias diferentes,
passo a passo conheci
as escalas do sentimento.

Difícil caminhada! Profundamente sentida.
Hoje ao final da jornada,
já na última escala,
com alegria reconheço,
minha vida foi bem vivida.
Sem dúvida posso dizer,
valeu a pena viver!

                        (Sentimentos – Botyra Camorim - 1981)

TEMPESTADE

As nuvens cor de chumbo,
tocadas pelo vento,
vão se agrupando
e pelo céu se espalham.

Em pleno dia,
parece entardecer.

Luminosos ziguezagues,
riscam o céu seguidos do trovão.
De repente, a chuva cai
em bátegas violentas,
açoitadas pelo vento.
Por longo tempo o que se ouve,
é o desabar das águas
lavando o casario, o arvoredo,
o asfalto.

E como veio,
a tempestade vai.
Uma nesga do céu se descobre
muito azul
e o verde da serra,
com novo brilho se destaca.
Abrem-se portas e janelas.
A vida continua.

(Sentimentos – Botyra Camorim - 1981)

Luz do sol - Caetano Veloso
Youtube


Panteão - Roma
Fotografia: Ana Flávia

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DRUMMOND: MEU POETA PREDILETO

Dentre os vários poetas brasileiros que admiro, Drummond é o meu predileto. Sua poesia direta, mas profunda, seu lirismo despido de pieguice, seu olhar e o recriar da vida e do mundo me fascinam. Não me canso de ler e reler sua obra. 

Há sempre um poeta que nos toca mais, com seus versos.
Esse, para mim, é Carlos Drummond de Andrade.

CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO

Carlos Drummond de Andrade

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como doi!

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: MORRICONI, Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.

FOTO DE CASARIO EM ITABIRA - MINAS GERAIS
GOOGLE IMAGENS



TRECHOS DE POEMAS DE DRUMMOND
PROGRAMA ENTRELINHAS
TV CULTURA - SÃO PAULO
YOUTUBE

sábado, 5 de janeiro de 2013

ETERNO RECOMEÇAR

A Poesia está em nossa vida
como a luz que entra pela janela aberta, como o céu azul dourado do anoitecer, como a andorinha que voa ligeira nas tardes de verão, como o aroma adocicado da dama-da-noite, como o som das águas que batem nas pedras do rio...
Tudo está aí, sempre.
É preciso, no entanto, saber ver, sentir, ouvir...


UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO

Manoel de Barros



No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

BARROS, Manoel de. Uma didática da invenção. In: MORICONI, Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século.
 Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.



REVOADA DE ANDORINHAS


Google imagens: danielthame.blogspot.com/2011



ANDORINHA - de Vitor Maia

Vitor e Renan no YouTube 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A VOZ DO NATAL

   Sábado vivi, juntamente com um grande número de pessoas, momentos de emoção e beleza, na apresentação das crianças do Colégio Santa Mônica de Mogi das Cruzes, nas janelas do prédio iluminado.
   Até mesmo a chuva que caía parou para ouvir as crianças entoando músicas natalinas, de louvor ao Divino Espírito Santo e outras mais, sempre harmoniosas...
   As mãozinhas enluvadas, que traduziam a letra das músicas na Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, o balançar de corações, guirlandas, bandeiras do Divino e  guarda-chuvas ornamentados de fitas coloridas, acompanhados de luzes e cores, faziam brotar lágrimas e abrir sorrisos embevecidos em pais, avós, irmãos, enfim, todos aqueles que foram ver o coral do Santa Mõnica se apresentar sob a regência da Professora Francine Martins.
   Momentos como esse fazem desse tempo, como já disse anteriormente, um tempo especial.

       Foto copiada da página da Professora Francine, no Facebook

Lembro-me agora dos versos da antiga canção de Orestes Barbosa:

 Noite azul, sem igual, 
        Deus nos dê um Feliz Natal!
        Nosso lar está cheio de luz,
       Paz na terra, nasceu Jesus!


domingo, 9 de dezembro de 2012

NATAL

Gosto do Natal.
Gosto desse tempo de gente que se abraça e sorri, de gente apressada que passa nas ruas, carregando pacotes...
Gosto de ver olhos arregalados admirando luzes e cores, de ouvir sons harmoniosos, das vozes infantis ou adultas entoando canções tradicionais, de sentir o aroma do pinheiro que enfeita a sala...
Gosto de desembalar os objetos que enfeitarão a casa, cada um com sua história, sua procedência, repletos de afetividade, de lembranças de lugares próximos e distantes, de pessoas queridas que aqui estão ou que já não se encontram entre nós....
Gosto preparar listas de lembranças, tentando descobrir o que melhor cabe a cada um daqueles que fazem parte de minha vida, de minha história, de meu cotidiano...
Gosto de abrir a casa, na véspera do Natal, as luzes da árvore acesas, o ar quente e abafado entrando pelas janelas, a comida, feita com carinho, aguardando no fogão a hora de ir à mesa...
Gosto de ver a família chegando, perfumada, bonita, as crianças ansiosas pelos presentes, os adultos  se acomodando, lembrando outros natais, memórias afetivas, expressões de carinho...
Gosto da emoção que invade, na oração conjunta em que lembramos os nossos queridos que já se foram, em que agradecemos o que recebemos, o que partilhamos...
Gosto do Natal e de tudo aquilo que ele provoca no ser humano: a fraternidade, a solidariedade, o desprendimento, a compreensão, a reconciliação...

Que o Natal de todos seja iluminado, não apenas pelas luzes que acendemos, mas por todos os bons momentos, repletos de alegrias e partilhamentos,  que iluminam e aquecem nossa vida. 


Luz eterna, é Natal, tela  de  Elvio Santiago
(http://diadeestilo.com.br/wp-content/uploads/2011/11/Tela-Luz-Eterna-%C3%A9-Natal-baixa.jpg)

domingo, 25 de novembro de 2012

VIAJANTES DO TEMPO PRESENTE

Quem somos nós, viajantes do tempo presente?

COGITO

Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


NETTO, Torquato. COGITO. IN: MORICONI, Italo. Os cem melhores poemas brasileiros
 do século. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.





Foto: Relógios à frente da Estação de Saint Lazare. Paris.