domingo, 11 de agosto de 2013

BRINCOS




Moça com brinco de pérola
Jan Vermeer
www.allposters.com.br

Na obra de Vermeer, "Moça com brinco de pérola", o que sobressai é, sem dúvida,  o brinco, com seu brilho, seguido imediatamente do olhar da moça. 
Sem que houvesse qualquer relação, o texto a seguir, escrito há alguns anos, traz também, como detalhes, o brinco e o olhar...


SALA DE ESPERA        


            Pegue sua ficha e aguarde a sua vez
    À primeira vista, poderia passar por uma adolescente como tantas outras com quem cruzamos na rua, nos bares, nas tardes ensolaradas de uma cidade qualquer.
     A calça justa, a blusa que sugere um corpo jovem, os tênis da moda, tudo é cor, é movimento, é vida.
     Mas não o rosto. Observe o rosto atentamente. Neste momento está virado para a janela, perscrutando o horizonte em busca talvez de um pouco de azul entre o cinzento da cidade. Por isso só vemos os cabelos negros, lisos, curtos. Uma ponta de orelha e um brinco, inexplicavelmente, saborosamente amarelo.
     Mas, enfim o rosto. Ela se volta e o contraste é tão grande que é impossível desviar os olhos, é impossível até mesmo respirar. Um hiato e percebo que todos, como eu, a observam.
     Ela não se perturba. As pálpebras semifechadas,  os olhos não vêem o entorno, circundados por olheiras arroxeadas. O que mais impressiona é a palidez. Translúcida a pele, deixa entrever veias azuis que pulsam. Ou seria apenas impressão? Mas o nariz fino é real e a boca sem cor alguma é bela mas contraída, num rítus amargo.
     Uma porta se abre, uma voz que chama e um par de olhos azuis, imensos se revela e nos perdemos nesse olhar, misto de medo e resignação, de tensão e esperança.
Vida e de morte, se entrelaçando, aguardam um destino ou uma sentença.
O próximo, por favor...

sábado, 3 de agosto de 2013

APOSENTADA

Depois de quarenta e sete anos de magistério, como professora, inicialmente do ensino fundamental e médio, depois ensino superior e finalmente, como coordenadora de cursos superiores, estou aposentada!
E o que isso me traz?
Muitas coisas boas, que já começo a vivenciar...

Redescobrir a minha cidade, sem pressa, num sábado pela manhã, comprando coisinhas aqui e ali, olhando vitrines, reescrevendo meus passos, como turista na própria terra....
Rever amigos queridos, em jantar alegre e descontraído, numa sexta feira à noite, saboreando as memórias, compartilhando afetos, sorrisos e gargalhadas...
Sentar na rede, lá no meu quintal, olhando o neto, a imaginação infantil transformando uma caixa num possante carro, que brinca,  sorri e acena para mim...
Remexer a terra dos vasos, do canteiro, tirando ervas daninhas, sem pressa, sem planos, apenas usufruindo o momento...
Até agora, a alegria  tem sido minha companheira, espero que ela continue caminhando comigo.
E quando a saudade bater: dos amigos que deixei, dos espaços em que vivi e convivi, sentarei na minha rede, olharei o céu e agradecerei a Deus pela minha vida, pelos meus amigos e pelos momentos felizes que a vida tem me proporcionado.


Strawberry fields forever - Beatles
Duofel
Youtube


sábado, 13 de julho de 2013

PURA POESIA


São de Eufrásio Filipe, poeta português, os poemas que trago hoje. A profundidade que emerge da simplicidade dos versos curtos, a sugestão de imagens, a presença do mar, figura constante, encantam o leitor, sensível ao sentimento que transforma a palavra em pura poesia.
Seus poemas podem ser degustados no blog http://mararavel.blogspot. com.br.


Espaço para cantar

Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

ainda há espaço para cantar
                                                     Eufrásio Filipe


Google Imagens

Roubem-me tudo

Roubem-me tudo
os lápis de cores
as minhas flores preferidas

mas não me roubem
os olhos por onde vejo
um mar que não se verga

roubem-me tudo
menos um verso
                                          Eufrásio Filipe




A ostra e o vento
Chico Buarque de Holanda
Youtube

domingo, 7 de julho de 2013

UM BOM TEXTO

O que pode ser considerado um bom texto?

Durante anos, em sala de aula, procurei orientar os alunos a escreverem bons textos. Não sei se consegui. Alguns ainda guardo, pois a poesia, presente nas linhas adolescentes, destacava-se dos vários outros que refletiam  a dificuldade de transpor para o papel as ideias que brotavam sem freio, ou então as poucas ideias que o tema despertava. A busca pelo bom texto, pelas palavras certas, pela sequência lógica, foi sempre uma preocupação.

Dos alunos que tive, alguns são hoje poetas, alguns jornalistas, muitos professores. Mas, dentre eles,  havia aqueles que surpreendiam e superavam minha expectativa.

Tudo isso apenas para comentar uma crônica que li hoje, no Estadão, assinada pelo Fábio Porchat. 

Já admirava esse menino, novo ainda, e sua capacidade de nos fazer rir, nos programas da TV. Agora ele assina aos domingos uma crônica, ora com um humor inteligente, ora com uma crítica interessante. Mas a de hoje é emoção pura. Fala dos sentimentos ao ver que a casa em que morou na infância não existe mais. 

Ao terminar de ler a crônica, com olhos marejados, constato que o bom texto é aquele que  toca o leitor, que faz despertar  a emoção e compartilhar o sentimento.

Minha casa minha vida (trechos)
Fábio Porchat
[...] Dia desses, resolvi, a caminho do hotel, passar pela minha antiga rua, pra matar as saudades. Quando parei o carro na frente da casa, qual não foi minha surpresa? Não havia mais casa, só um buraco gigante entre os meus vizinhos. A casa foi demolida. [...]

De repente, pensando em tudo isso, parado, perplexo, eu vi minha casa ali de novo, na minha frente. Exatamente como eu havia deixado. E percebi que, na verdade, ela só tinha sido demolida se eu estivesse de olhos abertos. Se eu fechasse os olhos, a casa estava lá, pronta pra morar, com todos os móveis, com toda a minha família comemorando o meu aniversário de dez anos, com minha irmã chorando porque eu impliquei com ela, a minha mãe costurando durante a noite enquanto assistia a um filme na sala, com o meu quarto cheio de bonequinhos do He Man... Pense na casa da sua infância agora. Feche os olhos. Viu? Ela também está lá. E digo mais. Se bobear, nós somos vizinhos!

O ESTADO DE SÃO PAULO. Caderno 2. p C6.  07/07/2013. 


quinta-feira, 4 de julho de 2013

MEU QUINTAL II


Aproprio-me  da aquarela de Marlene Edir 
(alemdoquintal.blogspot.com.br) 
para introduzir minha postagem de hoje.


Dia com chuva - Aquarela - (detalhe)
Marlene Edir

Escrevi o texto abaixo há quase dois meses.. Com a correria de final de semestre, ficou em rascunho até hoje. O que era prenúncio de inverno,  já é inverno pleno, com temperaturas baixas para nós, que temos um tempo ameno e mais propenso ao calor. Mas o quintal está quase todo verde. A grama cresce, as plantas voltam a ter viço. A vida recomeça...

MEU QUINTAL II

Um coro de andorinhas invadiu meu quintal hoje, após a chuva forte que trouxe novamente o  frio, prenunciando o inverno. Corri para recolher a roupa que balançava ao vento, quase seca, neste domingo preguiçoso.

Após a reforma, meu quintal é agora apenas área de lazer, tudo o que lembra trabalho:  materiais de limpeza, baldes, bacias, etc, ficam na área de serviço, próxima à cozinha, e  os varais, por sua vez, ficam na área lateral de minha casa. Motivo de reclamações do Júlio, que não se conforma em ver o sol forte lá no fundo e a roupa a secar na área sombreada, que recebe, neste outono, apenas o sol forte do meio dia.

Lá no fundo,  já passaram os pedreiros, os pintores, o eletricista, falta agora apenas o jardineiro para recuperar a grama destruida e replantar o que consegui salvar em vasos.
Felizmente o pé de café resistiu, bem como o arbusto - neve da montanha -  que trouxe em forma de semente de Águas de São Pedro e hoje  está forrado de flores brancas.

Reli minha postagem de outubro (01/10/2012) e percebo que já se passaram sete meses. Do projeto à construção terminada foram tempos difíceis, em que tentei conciliar obra, trabalho, crianças, rotina da casa e da Faculdade. O corpo cansado e a mente inquieta pediam momentos de descanso, que eram poucos frente ao acúmulo de tarefas e encargos.

Mas finalmente, a casa volta à tranquilidade, sem o vaivém de trabalhadores, apenas com a correria dos netos que aqui passam todas as manhãs.

Mais algum tempo e meu quintal estará pronto para a preguiça do domingo, na rede,  para o canto dos passarinhos e finalmente para o renascer da vida em forma de flores e frutos.

Amora
Renato Teixeira
Youtube




domingo, 30 de junho de 2013

FILOSOFIA DE FLOR

Para uma amiga que passa por momentos difíceis, ofereço Filosofia de flor


Flores embelezam.
Flores nos trazem perfume,
cor, harmonia...
Flores se manifestam em força que brota, invade, desabrocha.
Mas,
Flores às vezes se tornam vulneráveis:
sofrem, e se guardam
à espera da Natureza - Mãe
ou da  mão protetora do Jardineiro.
Elas parecem tão frágeis, tão pequenas,
mas em si encerram a força que as mantêm.
A seiva se nutre da esperança benfazeja
e elas confiam na mão que traz a vida e a força novamente.
Flores são sábias:
Logo estarão novamente
desabrochando em brotos:
embelezando a vida,
espalhando o perfume,

a cor e a harmonia.





Fotos: Ana Flávia Gatti (Berlim e Dresden) 
e Jane Gatti (Flores do meu quintal)

sábado, 25 de maio de 2013

POESIA SERTANEJA

Agradeço a minha amiga, Professora Valéria Mello Freire, pelo livro Vaqueiros e Cantadores, uma reedição da obra de Câmara Cascudo, pesquisador da arte popular, da cultura sertaneja do Brasil.

A poesia tradicional sertaneja tem seus melhores e maiores motivos no ciclo do gado e no ciclo heroico dos cangaceiros. O primeiro compreende as "gestas" dos bois que se perderam anos e anos nas serras e capoeirões e lograram escapar aos golpes dos vaqueiros. [...]
[...] O ciclo heroico dos cangaceiros, posterior ao ciclo do gado, não tem menor abundância nem influência na "cantoria" sertaneja. Os grandes criminosos estão com suas biografias romanceadas.
Câmara Cascudo  

A seguir um exemplo de Poesia de Cordel, de autoria de João Mendes de Oliveira, em homenagem ao Padre Cícero, figura religiosa e mística do sertão, registrado no livro de Câmara Cascudo.

Faz quarenta e tantos ano
que chegou no Juazeiro,
construiu uma Matriz, 
botou na frente um cruzeiro...
Celebrou a Santa Missa,
deu bênção ao Mundo Inteiro...

É um pastor delicado,
é a nossa proteção,
é a salvação das alma,
o padre Cisso Romão,
é a justiça divina
da Santa Religião!...

[...]

Quem não prestar atenção
ao que meu Padrinho diz
também não crer na Matriz
da Virgem da Conceição,
nem no profeta São João,
não poderá ser feliz.

[...]  

Não tenho mais a dizer,
Eu sou João Mendes de Oliveira,
nesta língua brasileira
eu nada pude aprender,
porém posso conhecer,
de tudo quanto é verdade!
Não tenho capacidade,mas sei que não digo à-toa:
PADE CISSO É UMA PESSOA
DA SANTÍSSIMA TRINDADE!...
                                                     João Mendes de Oliveira