sexta-feira, 4 de julho de 2014

SEMPRE POESIA - 1

VISÕES DE FAMÍLIA

Encontro um poema de Drummond, acompanhado de uma tela de Botero, em um  livro didático que usei muito em minhas aulas de Língua Portuguesa, por oferecer uma visão abrangente do uso da língua, não se atendo apenas às noções gramaticais.
Drummond, meu poeta preferido, várias vezes lembrado neste espaço, e Botero, o  pintor colombiano  que apresenta a figura humana sempre em formas arredondadas.
Imagem e poema retratando a visão do artista para um tema de alto valor afetivo.


FAMÍLIA
Carlos Drummond de Andrade

Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda noite
e a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! Mas a esperança verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

CEREJA, W.R.; MAGALHÃES, T.C. Gramática Reflexiva: texto, semântica e interação. São Paulo, Atual, 1999. p.106.

A família - Fernando Botero
1989
arteseanp.blogspot.com.br

domingo, 29 de junho de 2014

LUGARES - 1

A beleza está em nós. Em nosso olhar, em nosso sentimento, em nossa sensibilidade.
Já tive a oportunidade de ver pessoas passarem apressadas, olhando de relance obras de arte que a mão do homem produziu, ou então verdadeiras obras de arte produzidas pela natureza, apressadas para chegar a qualquer centro de compras e comprar, comprar, comprar...
Mas há aqueles que, como eu, guardam com carinho e admiração, momentos de verdadeira contemplação, em que se pode perceber a grandiosidade, a perfeição das linhas, das formas, das cores, das texturas...
Dentre os muitos lugares e obras que me encantaram, não me esqueço da sensação de grandiosidade que me fez até perder o ar, quando, ao sair de uma daquelas estreitas  ruas de Florença, deparei-me com o majestoso Duomo.
A Catedral Santa Maria del Fiore, de Florença, construída em 1296, impressiona não apenas por sua grandiosidade, mas também  pela cúpula de Fillippo Brunelleschi e pela fachada, do século XIX, que apresenta um trabalhado mosaico  em mármore colorido, no estilo neogótico.(Wikipedia, enciclopédia livre).
Inesquecível!



1. Ao final da via medieval, o Duomo nos aguarda...




2. Mosaico em mármore colorido...


3. A "Porta do Paraiso"


4. O Duomo ao entardecer.

Fotos: 
1. Ana Flávia Gatti; 
2. Ana Flávia Gatti; 
3. Imagebank: http://chnm.gmu.edu/courses/ffolliott/arth340/imagebank.html ;
4.www.disfrutaflorencia.com


quinta-feira, 26 de junho de 2014

PERÍODO SABÁTICO





         Após um período sabático, estou de volta.

        Depois de digitar a frase acima, parei a refletir sobre ela e fui em busca do significado da palavra sabático. Encontrei no blog Caminho a pé algumas informações interessantes, que transcrevo a seguir.

Shabat ou Sabá em português, é o nome dado ao dia de descanso semanal no judaísmo, simbolizando o sétimo dia em Gênesis, após os seis dias de Criação.

A palavra hebraica שבת, shabāt, tem relação com o o verbo שבת, shavāt, que significa "cessar". Apesar de ser quase universalmente como "descanso" ou um "período de descanso", uma tradução mais literal seria "cessão". Cessão de um ciclo de trabalho, de relacionamento ou de vida.

 http://caminhoape.blogspot.com.br/2010/03/periodo-sabatico.html



      E realmente assim foi. Simplesmente parei. Por três meses deixei de escrever, comentar e, até mesmo, ler os blogs que sigo. Por quê? Não sei.
Nem mesmo o conto cujo final ainda está por ser escrito, o romance em que trabalho há já algum tempo... Nada.
       Uma pausa. Um hiato. Uma cessão.
    Final de um ciclo que hoje se reinicia, com o objetivo de trazer neste blog algo mais organizado, mais planejado e sem a carga de estresse que me acompanhava nas últimas postagens, ao procurar temas ou poemas (perdoem a rima pobre...) , com a angústia da exigência pessoal de publicar.
    Espero que este novo ciclo seja longo e que a chama que o alimenta seja bem mais duradoura do que a da vela que ilustra esta página.
       
Abraços a todos.





domingo, 2 de março de 2014

SOBRE FOTOGRAFIA, ARQUITETURA E ARTE


Beco do Pinto - São Paulo - SP
http://www.prefeitura.sp.gov.br



O "Estadão" deste domingo traz o interessante e agradável ensaio da designer gráfica e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Priscila Farias, com o título "Beleza Áspera". Nele, a professora apresenta o fotógrafo J. R. D'Elboux que registrou  o conjunto de letras e números que fazem parte do espaço urbano. Transcrevo os primeiros parágrafos. 


Caminhando pelas ruas da cidade, somos cercados por eles. Forjados em metal, incrustados nos granitos imponentes que revestem as fachadas dos edifícios do centro histórico. Dourados como o ouro doado para o bem de São Paulo. Traçados com a régua, o compasso e os esquadros dos engenheiros e arquitetos modernistas. Mas também acidentais e acidentados, na fronteira da legalidade, inscritos na madrugada, com os espirros calculados de tampinhas customizadas ou com rolinhos selvagens, tinta pingando nos ombros do colega que deu suporte.
Eles são as letras e números que marcam, demarcam e conduzem o fluxo urbano. Informam o nome do edifício, o tipo de comércio e os algarismos que correspondem a sua posição na rua. Indicam que aquele é (ou era) o lugar de colocar as cartas, o leite, o pão.  [...]
Esse conjunto de letras, números e sinais presentes no espaço público constitui a paisagem tipográfica da cidade. É um conjunto vasto e complexo, como a própria metrópole. Tem características que variam de bairro para bairro, e até de rua para rua. Essas características contribuem para a percepção de certo sentido de lugar, que, ao se tornar parte da memória coletiva, influencia a constituição de uma identidade local.


Leia o ensaio em http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,beleza-aspera,1136258,0.htm

Conheça o trabalho do fotógrafo em http://tipospaulistanos.com.br/

Como sugestão de harmonização o fotógrafo sugere a melodia So Long Frank Lloyd Wright


So Long Frank  Lloyd Wright
Nouvelle Cuisine
Youtube
Frank  Lloyd Wright (1857-1959), arquiteto americano, defendia que o projeto deve ser individual, de acordo com a localização e finalidade. Dizia que "a forma e a função são uma só".
http://educacao.uol.com.br/biografias/frank-lloyd-wright.jhtm

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

MONTANHAS DE MINAS


copyright Albertina Dias
no blog: NATUREZA - Um toque especial de Deus
Postado por Thymonthy Becker
http://oprevisor.blogspot.com.br/2010/08/as-montanhas-das-minas-gerais.html


Fartas e femininas
são as montanhas de Minas:
contornos arredondados
vegetação que se transforma
aos olhos do viajante.
Ora abundante,
ora veludo verde, atapetando a terra,
pincelado pelo gado do bom leite.

Essa Minas que conheço
e que me acolhe hospitaleira
tem um quê de antepassados,
de uma avó que conheci apenas
pelos contares depois da janta:
de uma avó ainda menina, que o italiano comprou...

Essa Minas que eu conheço
revigora, fortalece,
firma meus passos que o tempo
teima em enfraquecer.
Nela eu bebo da água boa, 
das fontes que jorram sem cessar.
Nela eu encontro a paz
em sonoridades aladas,
em farfalhar de folhas que o vento embala, suave.

Minas, as Gerais,
terra de meu pai, de minha avó,
presente no sangue e na estima,
me encanta e estará sempre
na lembrança afetuosa, no desejo de voltar...



Como faz um viajante, a procurar horizontes...
Almir Sater
Horizontes
Youtube

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

TEMPO


O tempo insiste em deixar marcas:
Em meu rosto, em minhas mãos...
O tempo insiste em se fazer presente
Criando passados,
Limitando os passos,
Os compassos...

Disse o poeta que seu tempo é quando;
O meu tempo é o momento
Da palavra pensada,
Do verso, sem rima, sem nexo...
O meu tempo se faz e se desfaz,
Uma linha que se tece e se perde
No desenrolar do novelo...

Tempo, tempo, tempo, tempo
Diz a canção
Que o vento traz e leva.
Esparramando a poeira do caminho,
Balançando as folhas
Da árvore que plantei
Em um tempo que se foi.

Meu tempo é o poema,
Que se perde ao ser gerado
Mas é aquele que ao nascer tem a força das marés:
Quebra os limites,
Apaga as marcas
Faz esquecer passados,
E dura o tempo necessário

Para compor a vida em versos sem rima e sem nexo...

Oração ao Tempo
Rita Ribeiro 
Youtube

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

RECEITA DE ANO NOVO

Para terminar o ano, meu poeta preferido: 
Carlos Drummond de Andrade

Estátua de Carlos Drummond de Andrade  
Obra de Leo Santana - em bronze
Calçadão de Copacabana - Rio de Janeiro
http://www.wikirio.com.br/

Receita de Ano Novo
                                 Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.
http://pensador.uol.com.br/