segunda-feira, 2 de março de 2015

SEMPRE POESIA: RETRATO

Sobre a mesa
sob o tato
sem contato
com meus dedos, 
não ligado 
ao meu afeto:
seu retrato.

Não se perde
numa concha
o mar
que nela
instilaram.
Seu retrato
sob o tato
não dos dedos
mas do afeto
perde
um pequeno
objeto
que se reflete
em abstrato:
meu silêncio
em seu retrato.

(Carlos, Manoel. Bicho alado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. p. 67)




FOTO: MENINA AFEGÃ
Steve McCurry

Foto da afegã Sharbat  Gula aos 12 anos, publicada na revista National Geographic, em junho de 1985.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sharbat_Gula

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, mais conhecido apenas como Manoel Carlos, nasceu em São Paulo em 14 de março de 1933. É escritor e autor de novelas. Seus trabalhos retratam o cotidiano e a sociedade carioca.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_Carlos


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CRÔNICAS DA MINHA TERRA: SIMPLESMENTE JARDIM


Coreto do Jardim - Praça Oswaldo Cruz
Primeira metade do século passado
Arquivo de Chico Ornellas (jornalista)


Era ponto de referência, lugar de encontros amorosos ou nem tanto, ao lado da estação de trem, do cinema popular, da caixa econômica estadual, da principal rua da cidade.
Era chamado simplesmente de "Jardim".
Se alguém perguntasse onde ficava minha casa, dizia: fica perto do jardim. E pronto, identificava-se a localização.
No centro, um coreto, onde, em ocasiões especiais, apresentava-se a Banda Santa Cecília, referência em música da cidade. Ao lado, um "bosquinho", espaço em que a vegetação vedava aos olhos indiscretos, os encontros dos enamorados.
As árvores, enormes, ao menos para meus olhos infantis, formavam uma cobertura verde, que deixava escapar os raios de sol: como fitas iluminadas, desciam formando desenhos no chão.
Era um tempo em que as ruas não ofereciam perigo: crianças ali  brincavam, até mesmo à noite, muitas vezes sem que o olhar adulto estivesse presente. As portas das casas, abertas, aguardavam o retorno de seus pequenos moradores, que, sem medo, corriam, jogavam bola, pulavam corda...
Nesse tempo, eu, menina de longas tranças,  imaginação fértil e poucas palavras, passava horas sozinha, no Jardim, a ler.
Levava meus livros, ou livros de meus irmãos, e, sentada na imensa raiz de uma daquelas árvores, me perdia nas aventuras de Emília, de Pedrinho ou então nas aventuras mais maduras, de Flash Gordon, de Tarzan  ou de Mandrake.
Não havia medo, nem preocupação dos adultos. Havia apenas o fruir de um espaço em que  famílias frequentavam,  crianças brincavam...
O tempo passou, a menina cresceu, o mundo mudou.
O Jardim, que já foi chamado de Praça do Relógio, de Praça do Aviário - por um breve tempo - é hoje a praça Oswaldo Cruz. Talvez já fosse, naquela época, não sei... 
Espaço de passagem de quem chega  à cidade de trem, ou de quem a deixa, perdeu seu caráter familiar. Não há mais crianças a correr ou a recolher folhas caídas para fazer cocares, não há mais famílias levando bebês ou sentadas a conversar.
Hoje, ao passar por ali, tento sentir o mesmo que sentia na infância. Em vão. É outro espaço;  aquele em que me sentia protegida e amparada, não mais existe. Ou melhor, existe apenas em minha memória, dentro de mim. Está bem guardado, junto às pessoas queridas que conviviam comigo nessa época e não mais aqui estão.
Mas é uma lembrança forte em minha vida e, muitas vezes quando alguém me pede alguma referência do centro da cidade, esqueço-me de que o tempo passou e digo apenas:
Fica perto do Jardim...


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

FORA DO AR

Estive fora do ar por quase um mês. 
Meu computador estava nas últimas, recusando-se a  comunicar-se com outros... Finalmente, chegou o novo, mais moderno e disposto a atender meus desejos de comunicação...
Cá estou novamente, pedindo desculpas aos que me acompanham por este período de ausência. Desta vez, involuntário.

Para nosso deleite, o poema de Manoel de Barros

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.


Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.



Manoel de Barros 
Memórias inventadas:  As Infâncias de Manoel de Barros 
São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.

domingo, 18 de janeiro de 2015

LEMBRANDO VINÍCIUS: PARA ISSO FOMOS FEITOS

A GRANDE SEMENTE
VERA CHAVES BARCELLOS  - 1973

Vivemos atualmente  um  estranho paradoxo....
Nosso cotidiano tranquilo, feliz, com a família em harmonia: crianças crescendo, jovens e adultos estudando e trabalhando, os mais velhos, entre os quais me incluo, usufruindo de uma vida mais calma... Essa realidade contrasta totalmente com o que se vê, o que se ouve, o que se lê.
Atentados, terrorismo, assassinatos, manifestações com tumulto e saque, pessoas sendo mortas, atacadas: uma sociedade  em crise! Essa parece ser a realidade deste nosso mundo o que  nos faz parecer culpados pela vida tranquila que vivemos.

Peço perdão por ser feliz.... 

E para encerrar este domingo de verão, tórrido e seco, lembro a doçura e leveza de Vinícius de Moraes, o nosso inesquecível Poetinha,  que soube como ninguém descrever o sentido da vida


POEMA DE NATAL
Vinícius de Moraes


Para isso fomo feitos: 

Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos - 
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.


Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos - 
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.


Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai - 
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte - 
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Observação: o blog ignorou a formatação original do poema : quatro estrofes, colocando versos soltos. Não consegui mudar a formatação... JG.

VINÍCIUS DE MORAES In: MORICONI,Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século.Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
VERA CHAVES BARCELLOS: http://mam.org.br/acervo/1997-077-000-barcellos-vera-chaves/


domingo, 4 de janeiro de 2015

DEIXE ENTRAR O SOL

Foto: Ana Flávia Gatti

Deixe entrar o sol que está lá fora.
Aqui dentro há sombra e frio...
 É preciso luz, é preciso calor.

O bem-te-vi que canta prenuncia a tarde 
que se vai.
 Aproveite o momento,
não espere muito. 

Há tanto a viver!




"Melhor viver , meu bem,
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você"
Felicidade, Marcelo Jeneci
Youtube

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

UM NOVO ANO: A VIDA SE RENOVA

A Natureza jamais vai deixar de nos surpreender. As teorias de hoje, das quais somos justamente orgulhosos, serão consideradas brincadeira de  criança por futuras gerações de cientistas. Nossos modelos de hoje certamente serão pobres aproximações para os modelos do futuro.[...]Teorias científicas jamais serão a  verdade final: elas irão sempre evoluir e mudar, tornando-se progressivamente mais corretas e eficientes, sem  chegar nunca a um estado final de perfeição. Novos fenômenos estranhos, inesperados e imprevisíveis irão sempre desafiar nossa imaginação. Assim como nossos antepassados, estaremos sempre buscando compreender o novo. E, a cada passo dessa busca sem fim, compreenderemos um pouco mais sobre nós mesmos e sobre o mundo a nossa volta.[...]
É a persistência do mistério que nos inspira a criar.
Marcelo Gleiser, A dança do Universo, 2006.




   Ocultista e alquimista francês, François Jollivet Castelot alegava poder transformar prata em ouro.
http://hypescience.com/incriveis-imagens-de-antigos-laboratorios/


Mark Reece, à esquerda, e Don Susan examinam um novo botão de liga de memória que eles removeram de um arco-aparelho de fusão. Várias novas ligas têm sido desenvolvidas no Sandia
http://hypescience.com/imagens-incriveis-laboratorios-cientificos/

sábado, 4 de outubro de 2014

A VIDA NÃO ERA ASSIM...

Caros amigos,
Desde que incorporei o blog ao Google+ várias pessoas tiveram dificuldade em comentar as postagens. Assim, achei melhor desativar essa ferramenta e voltar ao sistema anterior. 


Em véspera de eleições presidenciais, a música de Ivan Lins vem bem a propósito:
"A vida não era assim...
       A gente não era assim..."


Abraços a todos que me seguem.

Abre alas
Ivan Lins
Youtube