quinta-feira, 26 de março de 2015

SER E DEIXAR DE SER

Mas, afinal, o que nos constitui?
Nosso olhar? Nossas palavras? Nossas ações?
O que nos materializa?
Este corpo, tão frágil, tão sujeito a sossobrar 
ante as tormentas e vendavais que a vida impõe?
Esta aparência que o tempo vai moldando em nosso desfavor?

Mas, afinal, o que nos constitui?
Nossas posturas perante o que se apresenta?
Nossas revoltas, 
nossas tristezas, 
nossas alegrias?

Eu sou,
Eu quero,
Eu vou...
Palavras e atitudes vão se impondo em nosso caminhar,
E aparentemente nos representam, 
nos identificam.

Mas, eu? Eu, quem?

As máscaras que assumimos, os papéis que representamos,
não chegam a nos constituir.
Somos mais, muito mais,
indefinidos, indefiníveis,
indecifráveis para nós mesmos.
Estamos além do que se apresenta, 
além deste pouco que reconhecemos.

Até que um dia,
inesperada ou lentamente, 
deixemos de ir, 
de querer,
de ser...

sexta-feira, 20 de março de 2015

OUTONO QUINTANA

HAICAI DE OUTONO

Mário Quintana


Uma folha, ai
melancolicamente
cai!

(A cor do invisível, 1989)



Paineira perde suas flores no outono.
http://blogdoeduambiental.blogspot.com.br/

quinta-feira, 19 de março de 2015

ÁGUAS DE MARÇO

Se ainda estivesse entre nós, Elis Regina teria completado 70 anos no dia 17 de março. 
Minha homenagem a esta maravilhosa intérprete, que iluminou minha juventude com sua voz límpida e interpretação primorosa.

Saudades de Elis Regina.



Bem a propósito da época: ÁGUAS DE MARÇO, de Tom Jobim.




segunda-feira, 2 de março de 2015

SEMPRE POESIA: RETRATO

Sobre a mesa
sob o tato
sem contato
com meus dedos, 
não ligado 
ao meu afeto:
seu retrato.

Não se perde
numa concha
o mar
que nela
instilaram.
Seu retrato
sob o tato
não dos dedos
mas do afeto
perde
um pequeno
objeto
que se reflete
em abstrato:
meu silêncio
em seu retrato.

(Carlos, Manoel. Bicho alado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. p. 67)




FOTO: MENINA AFEGÃ
Steve McCurry

Foto da afegã Sharbat  Gula aos 12 anos, publicada na revista National Geographic, em junho de 1985.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sharbat_Gula

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, mais conhecido apenas como Manoel Carlos, nasceu em São Paulo em 14 de março de 1933. É escritor e autor de novelas. Seus trabalhos retratam o cotidiano e a sociedade carioca.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_Carlos


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CRÔNICAS DA MINHA TERRA: SIMPLESMENTE JARDIM


Coreto do Jardim - Praça Oswaldo Cruz
Primeira metade do século passado
Arquivo de Chico Ornellas (jornalista)


Era ponto de referência, lugar de encontros amorosos ou nem tanto, ao lado da estação de trem, do cinema popular, da caixa econômica estadual, da principal rua da cidade.
Era chamado simplesmente de "Jardim".
Se alguém perguntasse onde ficava minha casa, dizia: fica perto do jardim. E pronto, identificava-se a localização.
No centro, um coreto, onde, em ocasiões especiais, apresentava-se a Banda Santa Cecília, referência em música da cidade. Ao lado, um "bosquinho", espaço em que a vegetação vedava aos olhos indiscretos, os encontros dos enamorados.
As árvores, enormes, ao menos para meus olhos infantis, formavam uma cobertura verde, que deixava escapar os raios de sol: como fitas iluminadas, desciam formando desenhos no chão.
Era um tempo em que as ruas não ofereciam perigo: crianças ali  brincavam, até mesmo à noite, muitas vezes sem que o olhar adulto estivesse presente. As portas das casas, abertas, aguardavam o retorno de seus pequenos moradores, que, sem medo, corriam, jogavam bola, pulavam corda...
Nesse tempo, eu, menina de longas tranças,  imaginação fértil e poucas palavras, passava horas sozinha, no Jardim, a ler.
Levava meus livros, ou livros de meus irmãos, e, sentada na imensa raiz de uma daquelas árvores, me perdia nas aventuras de Emília, de Pedrinho ou então nas aventuras mais maduras, de Flash Gordon, de Tarzan  ou de Mandrake.
Não havia medo, nem preocupação dos adultos. Havia apenas o fruir de um espaço em que  famílias frequentavam,  crianças brincavam...
O tempo passou, a menina cresceu, o mundo mudou.
O Jardim, que já foi chamado de Praça do Relógio, de Praça do Aviário - por um breve tempo - é hoje a praça Oswaldo Cruz. Talvez já fosse, naquela época, não sei... 
Espaço de passagem de quem chega  à cidade de trem, ou de quem a deixa, perdeu seu caráter familiar. Não há mais crianças a correr ou a recolher folhas caídas para fazer cocares, não há mais famílias levando bebês ou sentadas a conversar.
Hoje, ao passar por ali, tento sentir o mesmo que sentia na infância. Em vão. É outro espaço;  aquele em que me sentia protegida e amparada, não mais existe. Ou melhor, existe apenas em minha memória, dentro de mim. Está bem guardado, junto às pessoas queridas que conviviam comigo nessa época e não mais aqui estão.
Mas é uma lembrança forte em minha vida e, muitas vezes quando alguém me pede alguma referência do centro da cidade, esqueço-me de que o tempo passou e digo apenas:
Fica perto do Jardim...


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

FORA DO AR

Estive fora do ar por quase um mês. 
Meu computador estava nas últimas, recusando-se a  comunicar-se com outros... Finalmente, chegou o novo, mais moderno e disposto a atender meus desejos de comunicação...
Cá estou novamente, pedindo desculpas aos que me acompanham por este período de ausência. Desta vez, involuntário.

Para nosso deleite, o poema de Manoel de Barros

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.


Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.



Manoel de Barros 
Memórias inventadas:  As Infâncias de Manoel de Barros 
São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.

domingo, 18 de janeiro de 2015

LEMBRANDO VINÍCIUS: PARA ISSO FOMOS FEITOS

A GRANDE SEMENTE
VERA CHAVES BARCELLOS  - 1973

Vivemos atualmente  um  estranho paradoxo....
Nosso cotidiano tranquilo, feliz, com a família em harmonia: crianças crescendo, jovens e adultos estudando e trabalhando, os mais velhos, entre os quais me incluo, usufruindo de uma vida mais calma... Essa realidade contrasta totalmente com o que se vê, o que se ouve, o que se lê.
Atentados, terrorismo, assassinatos, manifestações com tumulto e saque, pessoas sendo mortas, atacadas: uma sociedade  em crise! Essa parece ser a realidade deste nosso mundo o que  nos faz parecer culpados pela vida tranquila que vivemos.

Peço perdão por ser feliz.... 

E para encerrar este domingo de verão, tórrido e seco, lembro a doçura e leveza de Vinícius de Moraes, o nosso inesquecível Poetinha,  que soube como ninguém descrever o sentido da vida


POEMA DE NATAL
Vinícius de Moraes


Para isso fomo feitos: 

Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos - 
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.


Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos - 
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.


Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai - 
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte - 
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Observação: o blog ignorou a formatação original do poema : quatro estrofes, colocando versos soltos. Não consegui mudar a formatação... JG.

VINÍCIUS DE MORAES In: MORICONI,Italo. Os cem melhores poemas brasileiros do século.Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
VERA CHAVES BARCELLOS: http://mam.org.br/acervo/1997-077-000-barcellos-vera-chaves/