sexta-feira, 17 de abril de 2015

UTOPIA

Quando tudo parece decidido, 
algo nos surpreende.
É a vida dando palpite, 
interferindo.
Tentamos nos insurgir contra ela,
tentamos nos rebelar,
mas parece que somos fracos,
que não temos armas
ou argumentos.

 Então, se nada há a fazer, 
depomos nossas armas,
rendemo-nos.
Nesse momento, tudo se acalma.
O que não foi planejado
 passa a ser a verdade vivida.


E o que desejávamos 
torna-se apenas
utopia...


Nelson Freire
Bachianas Brasileiras nº 4 - Prelúdio
Youtube

sábado, 4 de abril de 2015

LEMBRANÇAS DE SEMANA SANTA

Minhas lembranças das Semanas Santas, que vivi em minha infância, são impregnadas de medo e apreensão. Não sei bem por que razão, mas tinha um medo, uma "paura", como dizia minha mãe, desses dias, principalmente da Sexta-feira.
As igrejas, com as imagens cobertas com panos roxos, a procissão à noite e a Verônica com sua voz potente invadindo a nossa alma, enquanto desenrolava a imagem do rosto martirizado do Cristo! 
Eu, pequena, não tinha como dizer que não queria participar de nada disso, afinal, há sessenta anos, as crianças faziam o que os pais mandavam... 
Mas lá estava eu, desviando o olhar do Cristo ensanguentado, daquele que balançava os cachos sob a pesada cruz. Num devaneio maluco, olhava para minhas mãos esperando ver as chagas de Cristo a se manifestarem! 
Devo dizer que as imagens da tortura de Jesus me incomodam ainda. Mas creio que para as crianças de hoje, talvez isso não seja mais tão pavoroso. Crianças que vivem em um mundo em que outras crianças são mortas em tiroteios, em que fanáticos degolam inocentes por não terem a mesma fé, em que casas são invadidas, pessoas são agredidas, nesse mundo Jesus seria apenas um a mais a ser atingido pela violência e pela intolerância...
Espero que meus netos aprendam a amar  Jesus, não apenas como aquele que foi martirizado, como tantos o são hoje em dia, mas sim como aquele que nos ensinou a perdoar, a respeitar e amar o próximo e nos fez acreditar que poderemos ser sempre melhores: mais compreensivos, mais amigos, mais humanos.

Feliz Páscoa! 

Google Imagens
http://paroquiarolim.com.br/portal/semana-santa-misterio-central-de-nossa-fe/

sábado, 28 de março de 2015

UM SÁBADO TRANQUILO

Para encerrar este tranquilo  sábado de outono, em que uma brisa leve e fresca entra pelas janelas abertas,  e a lua, entre nuvens, espia o gramado do quintal, uma melodia suave e agradável para o nosso prazer.

Que venha um bom domingo!

Seremos nós estrelas perdidas tentando iluminar a escuridão?



Lost Stars
Adam Levine
Youtube

quinta-feira, 26 de março de 2015

SER E DEIXAR DE SER

Mas, afinal, o que nos constitui?
Nosso olhar? Nossas palavras? Nossas ações?
O que nos materializa?
Este corpo, tão frágil, tão sujeito a sossobrar 
ante as tormentas e vendavais que a vida impõe?
Esta aparência que o tempo vai moldando em nosso desfavor?

Mas, afinal, o que nos constitui?
Nossas posturas perante o que se apresenta?
Nossas revoltas, 
nossas tristezas, 
nossas alegrias?

Eu sou,
Eu quero,
Eu vou...
Palavras e atitudes vão se impondo em nosso caminhar,
E aparentemente nos representam, 
nos identificam.

Mas, eu? Eu, quem?

As máscaras que assumimos, os papéis que representamos,
não chegam a nos constituir.
Somos mais, muito mais,
indefinidos, indefiníveis,
indecifráveis para nós mesmos.
Estamos além do que se apresenta, 
além deste pouco que reconhecemos.

Até que um dia,
inesperada ou lentamente, 
deixemos de ir, 
de querer,
de ser...

sexta-feira, 20 de março de 2015

OUTONO QUINTANA

HAICAI DE OUTONO

Mário Quintana


Uma folha, ai
melancolicamente
cai!

(A cor do invisível, 1989)



Paineira perde suas flores no outono.
http://blogdoeduambiental.blogspot.com.br/

quinta-feira, 19 de março de 2015

ÁGUAS DE MARÇO

Se ainda estivesse entre nós, Elis Regina teria completado 70 anos no dia 17 de março. 
Minha homenagem a esta maravilhosa intérprete, que iluminou minha juventude com sua voz límpida e interpretação primorosa.

Saudades de Elis Regina.



Bem a propósito da época: ÁGUAS DE MARÇO, de Tom Jobim.




segunda-feira, 2 de março de 2015

SEMPRE POESIA: RETRATO

Sobre a mesa
sob o tato
sem contato
com meus dedos, 
não ligado 
ao meu afeto:
seu retrato.

Não se perde
numa concha
o mar
que nela
instilaram.
Seu retrato
sob o tato
não dos dedos
mas do afeto
perde
um pequeno
objeto
que se reflete
em abstrato:
meu silêncio
em seu retrato.

(Carlos, Manoel. Bicho alado. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. p. 67)




FOTO: MENINA AFEGÃ
Steve McCurry

Foto da afegã Sharbat  Gula aos 12 anos, publicada na revista National Geographic, em junho de 1985.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sharbat_Gula

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, mais conhecido apenas como Manoel Carlos, nasceu em São Paulo em 14 de março de 1933. É escritor e autor de novelas. Seus trabalhos retratam o cotidiano e a sociedade carioca.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_Carlos