quarta-feira, 21 de junho de 2017

SÓ HOJE

Só hoje, eu não quero pensar no amanhã.
Apenas hoje, por favor,  permita-me ser indiferente,
ao que é diferente, ao que é igual,
ao que incomoda o olhar,
ao que incomoda os ouvidos,
ao que incomoda...

Só hoje, eu não quero ser quem eu sempre fui,
não quero dizer as palavras que sempre disse,
e que certamente iria dizer.
Só hoje,
Eu não quero ter mais ou menos do que tenho,
não quero saber o que sei,
não quero entender,
compreender...

Só hoje, por favor, deixe-me simplesmente
viver o momento presente,
viver a brisa no rosto,
sentir o perfume do verde,
a pele aquecida ao sol...

Só hoje, 
por favor permita-me 
apenas e simplesmente,  ser,
nada além do que ser... 

Só hoje...


TREM BALA
Ana Vilela
YouTube

terça-feira, 13 de junho de 2017

COMO VERDES SÃO OS SEUS OLHOS

Sobre a mesa, o verde se impõe
ao primeiro olhar.
Mais do que a harmonia do vaso,
mais do que a perfeição das folhas,
mais do que a composição,
é o verde que se destaca...
E brilha, invadindo sentidos,
permitindo o repouso do olhar,
o sonho, o devaneio.
E o sonho que se materializa 
traz voos sonoros sobre colinas coloridas
com  telhados de brinquedo sobre a relva,
passeios entre fragrâncias  de um tempo que já se foi,
carícias leves, como aragem branda...
Tudo isso despertado por um simples tom:
o verde, mais verde ainda ao segundo olhar.
Esse mais atento, mais sereno, talvez mais perspicaz,
permite que a razão se imponha.
E só então, a alma em paz se acalma
e o mistério todo é revelado.
A chama  que aquece o sonho e acalenta o devaneio;
que transforma a cor em som, em aroma e sentimento
é a constatação irrefutável e arrasadora:
Esse é o verde tão verde
como verdes são os seus olhos...

Para Kátia, a dona do verde e dos olhos, 
que ofereceu o mote.

Bonsai
Imagens Google

quarta-feira, 31 de maio de 2017

POESIA E PROSA

Leio nestes últimos dias dois autores que muito admiro: SARAMAGO e QUINTANA.
Do primeiro leio A viagem do elefante que, embora de leitura mais "fácil" do que a dos demais do autor, traz como naqueles, além de uma reflexão sobre as atitudes humanas,  toda a ironia e crítica social, desta feita de uma forma bem humorada, que nos faz sorrir... e pensar....
Já de Quintana, o Baú de Espantos nos oferece deliciosos poemas que, no dizer de Ronaldo Polito que assina a apresentação do livro, buscam o "insólito por trás do comum, do cotidiano, do corriqueiro".
Dois autores, duas obras, um eterno prazer...

Aqui vão dois trechos dos dois autores, que tratam, de forma poética, da construção e constituição do discurso.

Realmente, o maior desrespeito à realidade, seja ela, a realidade, o que for, que se poderá cometer quando nos dedicamos ao inútil trabalho de descrever uma paisagem, é ter de fazê-lo com palavras que não são nossas, que nunca foram nossas, repare-se palavras que já correram milhões de páginas e de bocas antes que chegasse a nossa vez de as utilizar, palavras cansadas, exaustas de tanto passarem de mão em mão e deixarem em cada uma parte da sua substância vital. 
(José Saramago, A viagem do elefante,  p. 241)


O DESCOBRIDOR

Ah, essa gente que me encomenda
um poema
com tema...

Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,
o que inquietamente procuro
em minhas escavações do ar?

Nesse futuro,
tão imperfeito,
vão dar,
desde o mais inocente nascituro,
suntuosas princesas mortas há milênios,
palavras desconhecidas mas com todas as letras misteriosamente acesas
palavras quotidianas
enfim libertas de qualquer objeto

E os objetos...

Os atônitos objetos que não sabem mais o que são
no terror delicioso
da Transfiguração
(Mário Quintana, Baú de espantos, 2014)



sexta-feira, 26 de maio de 2017

CONTEMPLANDO AS PALAVRAS



Para Drummond, minha eterna admiração

Pelos poros,
pelos olhos,
pela boca sedenta,
pela garganta seca, 
pelos ouvidos,
sim, pelos ouvidos, 
elas penetram, com suas mil faces secretas...
Sua face neutra, aparente, 
inofensiva 
- quem disse?
se mostra, aqui, sempre, ansiosa por respostas, reações:
um sorriso, um olhar,
um gesto, 
uma palavra e outra e outra...
Há sim interesse pela resposta,
pobre ou terrível...
Mas... 
você não trouxe a chave,
você nunca viu a chave,
ou mesmo  tocou a chave.
Afinal, a chave existe?
Silêncio...




Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
 tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade
Rosa do Povo, 1945.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DESABAFO...

Por onde andam os heróis da minha terra, que inspiravam poetas, compositores, ou gente  comum, como eu e você?
Por onde andam os senhores dignos, que não precisavam assinar papel algum, pois sua palavra bastava, sua honra era a garantia de que o que prometiam seria feito?
Por onde andam as pessoas leais, que não traíam amigos ou parentes, não denunciavam o outro a fim da salvar a própria pele?
Por onde andam as pessoas que se orgulhavam de sua vida digna, de seu trabalho honesto?
Por onde andam os jovens que buscavam no conhecimento o caminho para ser alguém na vida?
Por onde andam as famílias que ensinavam o respeito ao outro e a valorização do sentimento, em lugar do consumismo desenfreado?
Essas pessoas não estão no noticiário. 
Não são notícia.
Mas eu sei, eu quero crer, fortemente, que elas existem.
Embora tenham se tornado invisíveis elas devem estar, como eu, observando abismadas a imensa degradação a que chegou este país,  e  que invade diariamente a nossa casa, em forma de notícias, em novas acusações, delações, encarceramentos e solturas...
Tristes dias...

Assentamento
Chico Buarque de Holanda
Youtube


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sexta-feira, 28 de abril de 2017

SOBRE CASAMENTO E FELICIDADE...




Seja feliz!
É o que se diz a um filho que se casa.
E a frase, imperativa, como se fosse  uma ordem e não  um desejo,  é apropriada, pois ser feliz é uma forma de encarar a vida, com todos os seus tropeços, dificuldades, permeados por momentos de pura alegria ou êxtase. 
Podemos escolher a forma de ver nossa trajetória: com entusiasmo, com alegria, com coragem...
E mais, com força de vontade para levantar-se ao cair, com a certeza de que tudo passa, o bom e o ruim; com ânimo para acordar para um novo dia que nos trará surpresas, às vezes boas, às vezes tristes, às vezes desesperadoras...
Ser feliz não significa estar alegre sempre, como inconsequentes pássaros a voar sobre as armadilhas... 
Não significa acreditar que seremos sempre vencedores, que ganharemos todas as batalhas, que seremos sempre jovens...
Ser feliz é enxergar nossas fraquezas e conviver com elas, tentando superá-las, se possível for. 
É amar o outro sem manipulações ou  exigências, feliz apenas por estar junto... por sentir-se parceiro.
Ser feliz, portanto, não é algo que, como disse o poeta, nunca alcançamos pois nunca  pomos a felicidade onde nós estamos. Pelo contrário, é algo que construímos, uma atitude que assumimos perante a vida. 

Seja feliz, meu filho!

Júlio e Loretta,  no dia em que comemoraram, 
entre amigos, o amor que os une.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

VOLTA A DORMIR , CORAÇÃO!

Quando a realidade parece imersa em calmaria,
em olhos cansados da mesmice,
em rotinas sufocantes 
e aridez profunda e cinzenta...
Eis que, de repente, sem se anunciar, 
o inesperado se apresenta
e o sonho invade a nossa vida.
A entrega é total e o coração,
esse se deixa levar pelo devaneio.
Somos então  felizes, 
sem a lembrança de que, 
a qualquer momento,  
haverá o acordar.
E o despertar desse sonho, 
muitas vezes, doloroso,
fere o coração cansado, sem piedade...

Volta a dormir, coração! 
É preciso sonhar!



Hier encore
Charles Aznavour e Patrick Bruel
Youtube