quarta-feira, 21 de março de 2018

POESIA MULHER




Google Imagens


O poema que trago hoje é de autoria de uma velha amiga. 
Embora o tempo e a vida tenham nos distanciado - apesar de vivermos na mesma cidade - a leitura de seus poemas me fez lembrar a jovem de porte altivo e confiante que participou do grupo teatral da cidade, do qual eu, por breve espaço de tempo, também fiz parte.
Participamos do TEM, Teatro Experimental Mogiano, espaço em que se representava a vida, em um momento crítico de nossa historia política; época de repressão e violência contra aqueles que ousassem manifestar-se contrários à situação.
Mas, o objetivo desta página, hoje, é trazer o belo texto de Regina Lúcia Moreira Gomes, publicado na coletânia ENCONTRO IX,  sob coordenação do também poeta Walter Aguiar.

Vem a propósito o poema sobre a mulher, já que vivemos novamente tempos difíceis, e as vozes que se elevam têm sido caladas com ameaças, violência e morte...

MULHER INTEMPORAL

Tenho andado à beira do mundo
nas beiradas das calçadas
nos beirais dos séculos.
Eu, mulher, intemporal,
sem antes, sem ontens,
sem amanhãs.
Estou na memória do tempo
nos milênios da história, sou o que foram antes de mim, 
eis meu futuro.
Mulher nas chamas da noite
nos apelos  do mundo,
mulher das grandes horas,
das decisões seculares, mulher branca, negra, colorida,
sempre mulher.
Tenho andado por entre sedas
e calçado tamancos,
tenho tido joias nas mãos
e as mãos sangrando nas lavouras
dos séculos,
tenho rido risos à toa
e chorado as lágrimas mais amargas.
Tenho sido tudo e todos,
tenho seios que atraíram e mataram
tenho tido seios que amamentaram
reis e povo.
Tenho andado à beira do mundo
com o ventre inchado de humanidade,
tenho andado nos beirais da vida.
Eu, intemporal, sempre mulher.

Regina Lúcia


Texto: Coletânia IX. Org. Walter AGuiar. Mogi das Cruzes, SP, 2015, Ed. do Autor, Ribson Gráfica 
Imagem: Google Imagens, Disponível em: https://zenyzenam.cz/blog/11-odpovedi-znacka-zena/


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

TEMPO





A persistência da memória
Salvador Dali

Três poetas, um pintor e um compositor.
A arte em três momentos: a poesia, a música e a pintura.
O tema, cada um à sua maneira e forma, é o Tempo.
Tempo de ver, de ler, de ouvir.
Mas principalmente, de sentir e de usufruir...

TEMPO-ETERNIDADE
Paulo Mendes Campos

O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.

Pobre de tempo fico transparente
à luz desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira 
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.

Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minh'alma sem razões.

⚜⚜⚜⚜⚜

MOTIVO
Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

⚜⚜⚜⚜⚜

O TEMPO PASSA? NÃO PASSA
Carlos Drummond de Andrade

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor,  florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora, 
e o teu aniversário
é um nascer a toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
 o apelo da eternidade.

⚜⚜⚜⚜⚜


Oração ao tempo
Caetano Veloso

⚜⚜⚜⚜⚜


SALVADOR DALI. A persistência da memória
In: http://www.culturagenial.com/a-persistência-da-memoria-de-salvador-dali/
CAETANO VELOSO. Oração ao tempo. 
In: YouTube
CAMPOS, Paulo Mendes. Antologia poética. Rio de Janeiro: Fontana Expressão e Cultura, 1978.
MEIRELES, Cecília. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
ANDRADE, Carlos Drummond. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Record, 1993.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

NA TERRA DO CARNAVAL




Nos próximos dias, não se falará mais do mar de lama e corrupção que tomou conta deste país.
Não se decidirá se  políticos são culpados ou inocentes, se o rombo desta ou daquela instituição é fruto deste ou daquele esquema...
Por quatro dias, nada será resolvido, discutido, avaliado.
O meu país entra em recesso: o que importa agora é o Carnaval!!!
Certo? Errado? Não sei. 
Sei que o povo vai às ruas, não mais para protestar, mas para cantar, dançar, divertir-se. Os que não saem à rua estão em casa, em descanso, talvez curtindo um churrasco com a família, ou vendo pela TV a folia dos outros.
Assim é o meu país.
E eu? 
Para mim, Carnaval é um momento de descanso da rotina de dona de casa, mãe, esposa, avó. Aproveito para sentar-me ao piano sem me preocupar com o tempo que passa, ou escrever algo neste espaço, ou ainda, digitar mais algumas páginas do romance que teima em não se dar por terminado.
Minhas lembranças de Carnaval são poucas e controversas.
Lembro-me da fantasia preparada por minha irmã para a matinê do clube da cidade.  Lembro-me do medo que tinha, bem pequenina, dos  bonecos que eram preparados em um galpão próximo à minha casa, para saírem no bloco, à noite;  medo também dos amigos de meus irmãos, já moços, que, fantasiados de gorila vinham brincar  comigo e com minha mãe.
Mas a lembrança mais marcante foi a de uma imagem que permanece na memória até hoje. Deveria ter uns dez anos e ia até à padaria em um domingo de carnaval, à tarde. No caminho, um bar com mesinhas e sobre uma delas uma bailarina - de pernas peludas - em um vestido rosa... Dançava e eu, pasma, olhava para a figura que sem dúvida era um de meus irmãos...
Havia inocência naquele tempo. Havia brincadeira nas ruas e nos salões. Havia alegria.
Hoje, em tempos de drogas, muita bebida, licenciosidade, e também de folias programadas, com ingresso, camarotes caríssimos, me pergunto se o Carnaval mudou para melhor ou para pior. Repito: não sei...
Mas é inevitável a pergunta: Quem mudou? Foi o Carnaval ou será que quem mudou fui eu...

Bom Carnaval!

Chico Buarque
Quem te viu, quem te vê
YouTube

Imagem: http://fitfoodideas.com.br/tag/carnaval

domingo, 28 de janeiro de 2018

LEMBRANÇAS DE VENEZA






Assisti a um documentário sobre Veneza, dia desses...
Inevitavelmente, as lembranças vieram de mansinho e tomaram conta do pensamento. Momentos, pessoas, lugares e o prazer, o eterno prazer de viajar, de conhecer o desconhecido, de aventurar-se.
Minha estadia nessa bela cidade, que flutua na lagoa do mesmo nome, no mar Adriático, foi um tanto complicada. Problemas de acomodação:  sábado, procurar um alojamento? Impossível.
A inexperiência da primeira viagem à Europa fez com que chegássemos à cidade sem um hotel reservado. E lá íamos nós, "de mala e cuia" como se diz por aqui, subindo e descendo os degraus das pontes, até chegarmos à Pensão Guerino, graciosa e acolhedora.
Antes disso, provamos a hospitalidade e honestidade europeia (falta um pouco disso por aqui - nem tanto quanto à hospitalidade...).  Deixamos nossas malas no  saguão de um hostel,  por sugestão do atendente, um  rapaz educado e solícito, e fomos em busca de uma reserva na estação de trem. Sem desconfiança, nossa bagagem ficou em um corredor, junto a outras tantas, por sugestão de um desconhecido! Faríamos isso no Brasil?
Finalmente instaladas, e com a bagagem, certamente,  saímos a conhecer a bela Veneza...
Mas, veio a chuva! E ela  nos acompanhou durante todo o sábado e o domingo, só parando quando fomos embora.
Realmente, foi uma estadia um tanto turbulenta e frustrante. Entretanto, fica a lembrança do passeio pelos canais a admirar os  belos palácios, da Piazza San Marco, cheia de gente - e de pombos - e os labirintos medievais que nos transportaram para outros tempos.
A beleza do lugar, o prazer de simplesmente estar ali, certamente desfaz toda e qualquer lembrança negativa.



Rondò Veneziano - La serenissima
Versione Estesa
Youtube

Imagem: tela de  Canaletto (1697-1768)
Google Imagens


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

VIDA: SEGUINDO O CURSO



Prognóstico para um ano que se pretende seja melhor que os anteriores:

Muita música!
Muita poesia!
Muitos sorrisos inteligentes...
Muitas gargalhadas!
Muita fé!
Muitas manifestações de carinho!
Muitos sonhos realizados!
Muitos sonhos, apenas...
Muita garra!
Muita paciência...
Muitas lágrimas... de emoção.
Muita força.
Muita coragem...
Muita... VIDA!



A vida segue seu curso e é tempo de retomar prazeres deixados de lado.
De volta...




Dominguinhos e Orquestra
De volta pro meu aconchego
Youtube

Imagem: 
Qué es vida sana
https://www.chopo.com.mx/vidasana/

sábado, 21 de outubro de 2017

AO PROFESSOR, NO SEU DIA

Este texto, com pequena alteração referente à data,  foi publicado no periódico RECRIAR, canal de expressão e realização da APAMPESP - Associação dos Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo - Regional de Mogi das Cruzes, SP.


Houve um tempo em que a criança, aos sete anos,  era levada à escola pelos pais, que diziam à professora ou professor, que fizesse o que quisesse com seu filho a fim de  que ele aprendesse o necessário para ser uma pessoa realizada. Muitas vezes o pai chegava  a dizer que desejava que o filho não fosse como ele mesmo...
Que imenso abismo existe entre esse tempo e o que vivemos hoje! A sociedade mudou, as crianças mudaram, os professores também mudaram. Hoje a figura do mestre  deixou de ter a importância e o valor que possuía, ele não é mais o único detentor do conhecimento, aquele que mostra o  caminho para uma vida melhor, respeitado por sua sabedoria e competência.
Hoje o conhecimento está aí para quem quiser acessá-lo. Criança ou adulto, qualquer um tem acesso a um número infinito de informações. As facilidades desta sociedade informatizada permitem até mesmo que jovens e adultos consigam certificados ou diplomas sem freqüentar uma escola tradicional.
E o professor? Que papel exerce essa figura na sociedade atual? Uma carreira com salários baixos, desvalorizado, sujeito a agressões verbais ou mesmo físicas....
Entretanto, indiferente a tudo isso, ele se mantém firme em sua trajetória.
O que o move? O que o sustenta?
Existe algo peculiar nessa figura que participa da vida da criança e do jovem. Existe um aspecto que sempre fez dessa carreira algo que foge à idéia de um mero emprego. Há uma força inexplicável,  que move e sempre moveu o professor, fazendo com que mantenha aceso o seu ideal de uma educação de qualidade, mesmo em condições desfavoráveis.
Ele ou ela acreditam na educação como o único meio de transformação da sociedade e, a despeito de todas as intempéries que enfrentam, seguem em sua missão. Uma missão sim, mas que não deve jamais suplantar a certeza de que são profissionais que se capacitaram e merecem o respeito e o reconhecimento.
No 15 de outubro passado, homenagens foram prestadas aos mestres. Àqueles que já se foram... Aos que dedicaram toda a sua vida ao magistério e hoje relembram sua trajetória. Aos que ainda aliam seu trabalho e sua dedicação à luta por uma maior valorização profissional. Aos que acabam de ingressar na profissão e trazem o ideal ainda firme, à espera dos desafios.

Nesta homenagem aos profissionais da educação desejamos que a chama que os move jamais esmoreça... Que sejam fortes para lutar por melhores condições de trabalho, que sejam amorosos para acolher a criança e o jovem e que sejam perseverantes para manter o ideal de um país em que a educação seja a maior riqueza. 

Eterno Mestre
Paulo Freire

"A educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham."

Imagem: http://alexandretavora.blogspot.com.br/2011/05/frases-de-paulo-freire.html
Texto: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 2003. 17.ed.p.72.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AMOR FRATERNO



Neste fim de inverno, quase primavera, minha irmã completou 87 anos.
A aparência frágil esconde uma história de força e determinação, ultrapassando as adversidades que a vida impôs,com uma fé inabalável e a finura e delicadeza de uma dama. 
A grande diferença de idade entre nós, ela a mais velha e eu a caçula,  fez com que, durante minha infância sua figura fosse também materna para mim. Era ela a Inhá, já que, pequenina, eu não conseguia chamá-la como os demais, Vaninha. Era a Inhá e pronto.
Era ela quem fazia os desenhos na primeira página de meus cadernos de Artes, quem me ajudava a montar os panos de amostra das aulas de Trabalhos Manuais... 
Nosso contato continuou sempre harmonioso, mas o tempo fez com que as prioridades se impusessem, eu com meus estudos, ela com o marido e filhos. Entretanto estivemos sempre juntas, ao menos nas festividades da família, Natal, aniversários.
Nesta quarta feira, 19, reunimo-nos ao redor da mesa de sua casa, para um café com bolo. Não estavam ali a Professora Vânia, aposentada, o monge beneditino Dom José Carlos e eu, a Professora Jane. Não, ao redor da mesa estavam a Inhá, o Zé e a Janinha... A conversa fluiu tranquila e carinhosa, tentando manter as lembranças que teimam em desaparecer de sua mente...
Esse encontro me fez pensar no significado da família para os irmãos. Ou melhor, o significado dos irmãos para a família. Naquela mesa mantém-se o amor de meus pais. Perpetua-se. Temos nossas próprias  famílias, filhos, netos, mas os irmãos são a continuidade daquele primeiro amor.
A lembrança de nossa formação vem acompanhada do nosso relacionamento, das brigas, das brincadeiras. E, para mim, lembranças da infância vêm com o som do piano tocado pela Vânia ou pelo Jairo, a voz da Jurema ou do José. Lembro-me do orgulho que sentia ao caminhar ao lado de meus irmãos já moços, ou ainda, dos almoços de domingo em que todos se reuniam...
Preservar o amor entre irmãos é preservar a família. 
Irmãos são diferentes, a idade e a vida vão moldando as pessoas inexoravelmente. Irmãos têm atitudes que não aprovamos, muitas vezes dizem palavras que não queremos ouvir, agem  de forma que reprovamos. E eles também nos analisam da  mesma forma como nós os analisamos.
Mas o importante é que  temos uma história em comum. Vivemos momentos de alegria, de tristeza,  de sonhos e de esperança; rimos, choramos juntos muitas vezes.
A família sonhada por nossos pais, repito, perpetua-se em nós. 
Dos cinco filhos de meus pais, os três remanescentes, juntos,  celebraram com simplicidade o amor fraterno, o respeito ao outro e a certeza de que o que realmente importa nesta vida é o relacionamento que temos com  aqueles a quem queremos bem.


Imagens: Google