Um espaço para a prosa e a poesia de todo dia, um espaço para os textos que amamos, os textos que produzimos, os textos que geram outros textos...
Viver em prosa e poesia, sem perder a ingenuidade e a utopia, mas de olhos abertos para o que se mostra, para o que é presente, para o que machuca e para o que se sente.
O poema que trago hoje é de autoria de uma velha amiga.
Embora o tempo e a vida tenham nos distanciado - apesar de vivermos na mesma cidade - a leitura de seus poemas me fez lembrar a jovem de porte altivo e confiante que participou do grupo teatral da cidade, do qual eu, por breve espaço de tempo, também fiz parte.
Participamos do TEM, Teatro Experimental Mogiano, espaço em que se representava a vida, em um momento crítico de nossa historia política; época de repressão e violência contra aqueles que ousassem manifestar-se contrários à situação.
Mas, o objetivo desta página, hoje, é trazer o belo texto de Regina Lúcia Moreira Gomes, publicado na coletânia ENCONTRO IX, sob coordenação do também poeta Walter Aguiar.
Vem a propósito o poema sobre a mulher, já que vivemos novamente tempos difíceis, e as vozes que se elevam têm sido caladas com ameaças, violência e morte...
MULHER INTEMPORAL
Tenho andado à beira do mundo
nas beiradas das calçadas
nos beirais dos séculos.
Eu, mulher, intemporal,
sem antes, sem ontens,
sem amanhãs.
Estou na memória do tempo
nos milênios da história, sou o que foram antes de mim,
eis meu futuro.
Mulher nas chamas da noite
nos apelos do mundo,
mulher das grandes horas,
das decisões seculares, mulher branca, negra, colorida,
sempre mulher.
Tenho andado por entre sedas
e calçado tamancos,
tenho tido joias nas mãos
e as mãos sangrando nas lavouras
dos séculos,
tenho rido risos à toa
e chorado as lágrimas mais amargas.
Tenho sido tudo e todos,
tenho seios que atraíram e mataram
tenho tido seios que amamentaram
reis e povo.
Tenho andado à beira do mundo
com o ventre inchado de humanidade,
tenho andado nos beirais da vida.
Eu, intemporal, sempre mulher.
Regina Lúcia
Texto: Coletânia IX. Org. Walter AGuiar. Mogi das Cruzes, SP, 2015, Ed. do Autor, Ribson Gráfica
Imagem: Google Imagens, Disponível em: https://zenyzenam.cz/blog/11-odpovedi-znacka-zena/
Nos próximos dias, não se falará mais do mar de lama e corrupção que tomou conta deste país.
Não se decidirá se políticos são culpados ou inocentes, se o rombo desta ou daquela instituição é fruto deste ou daquele esquema...
Por quatro dias, nada será resolvido, discutido, avaliado.
O meu país entra em recesso: o que importa agora é o Carnaval!!!
Certo? Errado? Não sei.
Sei que o povo vai às ruas, não mais para protestar, mas para cantar, dançar, divertir-se. Os que não saem à rua estão em casa, em descanso, talvez curtindo um churrasco com a família, ou vendo pela TV a folia dos outros.
Assim é o meu país.
E eu?
Para mim, Carnaval é um momento de descanso da rotina de dona de casa, mãe, esposa, avó. Aproveito para sentar-me ao piano sem me preocupar com o tempo que passa, ou escrever algo neste espaço, ou ainda, digitar mais algumas páginas do romance que teima em não se dar por terminado.
Minhas lembranças de Carnaval são poucas e controversas.
Lembro-me da fantasia preparada por minha irmã para a matinê do clube da cidade. Lembro-me do medo que tinha, bem pequenina, dos bonecos que eram preparados em um galpão próximo à minha casa, para saírem no bloco, à noite; medo também dos amigos de meus irmãos, já moços, que, fantasiados de gorila vinham brincar comigo e com minha mãe.
Mas a lembrança mais marcante foi a de uma imagem que permanece na memória até hoje. Deveria ter uns dez anos e ia até à padaria em um domingo de carnaval, à tarde. No caminho, um bar com mesinhas e sobre uma delas uma bailarina - de pernas peludas - em um vestido rosa... Dançava e eu, pasma, olhava para a figura que sem dúvida era um de meus irmãos...
Havia inocência naquele tempo. Havia brincadeira nas ruas e nos salões. Havia alegria.
Hoje, em tempos de drogas, muita bebida, licenciosidade, e também de folias programadas, com ingresso, camarotes caríssimos, me pergunto se o Carnaval mudou para melhor ou para pior. Repito: não sei...
Mas é inevitável a pergunta: Quem mudou? Foi o Carnaval ou será que quem mudou fui eu...
Assisti a um documentário sobre Veneza, dia desses...
Inevitavelmente, as lembranças vieram de mansinho e tomaram conta do pensamento. Momentos, pessoas, lugares e o prazer, o eterno prazer de viajar, de conhecer o desconhecido, de aventurar-se.
Minha estadia nessa bela cidade, que flutua na lagoa do mesmo nome, no mar Adriático, foi um tanto complicada. Problemas de acomodação: sábado, procurar um alojamento? Impossível.
A inexperiência da primeira viagem à Europa fez com que chegássemos à cidade sem um hotel reservado. E lá íamos nós, "de mala e cuia" como se diz por aqui, subindo e descendo os degraus das pontes, até chegarmos à Pensão Guerino, graciosa e acolhedora.
Antes disso, provamos a hospitalidade e honestidade europeia (falta um pouco disso por aqui - nem tanto quanto à hospitalidade...). Deixamos nossas malas no saguão de um hostel, por sugestão do atendente, um rapaz educado e solícito, e fomos em busca de uma reserva na estação de trem. Sem desconfiança, nossa bagagem ficou em um corredor, junto a outras tantas, por sugestão de um desconhecido! Faríamos isso no Brasil?
Finalmente instaladas, e com a bagagem, certamente, saímos a conhecer a bela Veneza...
Mas, veio a chuva! E ela nos acompanhou durante todo o sábado e o domingo, só parando quando fomos embora.
Realmente, foi uma estadia um tanto turbulenta e frustrante. Entretanto, fica a lembrança do passeio pelos canais a admirar os belos palácios, da Piazza San Marco, cheia de gente - e de pombos - e os labirintos medievais que nos transportaram para outros tempos.
A beleza do lugar, o prazer de simplesmente estar ali, certamente desfaz toda e qualquer lembrança negativa.
Rondò Veneziano - La serenissima
Versione Estesa
Youtube
Imagem: tela de Canaletto (1697-1768) Google Imagens
Prognóstico para um ano que se pretende seja melhor que os anteriores: Muita música! Muita poesia! Muitos sorrisos inteligentes... Muitas gargalhadas! Muita fé! Muitas manifestações de carinho! Muitos sonhos realizados! Muitos sonhos, apenas... Muita garra! Muita paciência... Muitas lágrimas... de emoção. Muita força. Muita coragem... Muita... VIDA!
A vida segue seu curso e é tempo de retomar prazeres deixados de lado.
Este texto, com pequena alteração referente à data, foi publicado no periódico RECRIAR, canal de expressão e realização da APAMPESP - Associação dos Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo - Regional de Mogi das Cruzes, SP.
Houve um tempo em que a criança,
aos sete anos, era levada à escola pelos
pais, que diziam à professora ou professor, que fizesse o que quisesse com seu
filho a fim de que ele aprendesse o
necessário para ser uma pessoa realizada. Muitas vezes o pai chegava a dizer que desejava que o filho não fosse
como ele mesmo...
Que imenso abismo existe entre
esse tempo e o que vivemos hoje! A sociedade mudou, as crianças mudaram, os
professores também mudaram. Hoje a figura do mestre deixou de ter a importância e o valor que
possuía, ele não é mais o único detentor do conhecimento, aquele que mostra
o caminho para uma vida melhor,
respeitado por sua sabedoria e competência.
Hoje o conhecimento está aí para
quem quiser acessá-lo. Criança ou adulto, qualquer um tem acesso a um número
infinito de informações. As facilidades desta sociedade informatizada permitem até
mesmo que jovens e adultos consigam certificados ou diplomas sem freqüentar uma
escola tradicional.
E o professor? Que papel exerce
essa figura na sociedade atual? Uma carreira com salários baixos, desvalorizado,
sujeito a agressões verbais ou mesmo físicas....
Entretanto, indiferente a tudo
isso, ele se mantém firme em sua trajetória.
O que o move? O que o sustenta?
Existe algo peculiar nessa figura
que participa da vida da criança e do jovem. Existe um aspecto que sempre fez
dessa carreira algo que foge à idéia de um mero emprego. Há uma força
inexplicável, que move e sempre moveu o
professor, fazendo com que mantenha aceso o seu ideal de uma educação de
qualidade, mesmo em condições desfavoráveis.
Ele ou ela acreditam na educação
como o único meio de transformação da sociedade e, a despeito de todas as
intempéries que enfrentam, seguem em sua missão. Uma missão sim, mas que não
deve jamais suplantar a certeza de que são profissionais que se capacitaram e
merecem o respeito e o reconhecimento.
No 15 de outubro passado, homenagens foram prestadas aos mestres. Àqueles que já se foram... Aos que dedicaram toda
a sua vida ao magistério e hoje relembram sua trajetória. Aos que ainda aliam
seu trabalho e sua dedicação à luta por uma maior valorização profissional.
Aos que acabam de ingressar na profissão e trazem o ideal ainda firme, à espera
dos desafios.
Nesta homenagem aos profissionais
da educação desejamos que a chama que os move jamais esmoreça... Que sejam
fortes para lutar por melhores condições de trabalho, que sejam amorosos para
acolher a criança e o jovem e que sejam perseverantes para manter o ideal de um
país em que a educação seja a maior riqueza.
Eterno Mestre
Paulo Freire
"A educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham."