segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

FORA DO AR

Estive fora do ar por quase um mês. 
Meu computador estava nas últimas, recusando-se a  comunicar-se com outros... Finalmente, chegou o novo, mais moderno e disposto a atender meus desejos de comunicação...
Cá estou novamente, pedindo desculpas aos que me acompanham por este período de ausência. Desta vez, involuntário.

Para nosso deleite, o poema de Manoel de Barros

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.


Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.



Manoel de Barros 
Memórias inventadas:  As Infâncias de Manoel de Barros 
São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.