sábado, 21 de outubro de 2017

AO PROFESSOR, NO SEU DIA

Este texto, com pequena alteração referente à data,  foi publicado no periódico RECRIAR, canal de expressão e realização da APAMPESP - Associação dos Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo - Regional de Mogi das Cruzes, SP.


Houve um tempo em que a criança, aos sete anos,  era levada à escola pelos pais, que diziam à professora ou professor, que fizesse o que quisesse com seu filho a fim de  que ele aprendesse o necessário para ser uma pessoa realizada. Muitas vezes o pai chegava  a dizer que desejava que o filho não fosse como ele mesmo...
Que imenso abismo existe entre esse tempo e o que vivemos hoje! A sociedade mudou, as crianças mudaram, os professores também mudaram. Hoje a figura do mestre  deixou de ter a importância e o valor que possuía, ele não é mais o único detentor do conhecimento, aquele que mostra o  caminho para uma vida melhor, respeitado por sua sabedoria e competência.
Hoje o conhecimento está aí para quem quiser acessá-lo. Criança ou adulto, qualquer um tem acesso a um número infinito de informações. As facilidades desta sociedade informatizada permitem até mesmo que jovens e adultos consigam certificados ou diplomas sem freqüentar uma escola tradicional.
E o professor? Que papel exerce essa figura na sociedade atual? Uma carreira com salários baixos, desvalorizado, sujeito a agressões verbais ou mesmo físicas....
Entretanto, indiferente a tudo isso, ele se mantém firme em sua trajetória.
O que o move? O que o sustenta?
Existe algo peculiar nessa figura que participa da vida da criança e do jovem. Existe um aspecto que sempre fez dessa carreira algo que foge à idéia de um mero emprego. Há uma força inexplicável,  que move e sempre moveu o professor, fazendo com que mantenha aceso o seu ideal de uma educação de qualidade, mesmo em condições desfavoráveis.
Ele ou ela acreditam na educação como o único meio de transformação da sociedade e, a despeito de todas as intempéries que enfrentam, seguem em sua missão. Uma missão sim, mas que não deve jamais suplantar a certeza de que são profissionais que se capacitaram e merecem o respeito e o reconhecimento.
No 15 de outubro passado, homenagens foram prestadas aos mestres. Àqueles que já se foram... Aos que dedicaram toda a sua vida ao magistério e hoje relembram sua trajetória. Aos que ainda aliam seu trabalho e sua dedicação à luta por uma maior valorização profissional. Aos que acabam de ingressar na profissão e trazem o ideal ainda firme, à espera dos desafios.

Nesta homenagem aos profissionais da educação desejamos que a chama que os move jamais esmoreça... Que sejam fortes para lutar por melhores condições de trabalho, que sejam amorosos para acolher a criança e o jovem e que sejam perseverantes para manter o ideal de um país em que a educação seja a maior riqueza. 

Eterno Mestre
Paulo Freire

"A educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham."

Imagem: http://alexandretavora.blogspot.com.br/2011/05/frases-de-paulo-freire.html
Texto: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 2003. 17.ed.p.72.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AMOR FRATERNO



Neste fim de inverno, quase primavera, minha irmã completou 87 anos.
A aparência frágil esconde uma história de força e determinação, ultrapassando as adversidades que a vida impôs,com uma fé inabalável e a finura e delicadeza de uma dama. 
A grande diferença de idade entre nós, ela a mais velha e eu a caçula,  fez com que, durante minha infância sua figura fosse também materna para mim. Era ela a Inhá, já que, pequenina, eu não conseguia chamá-la como os demais, Vaninha. Era a Inhá e pronto.
Era ela quem fazia os desenhos na primeira página de meus cadernos de Artes, quem me ajudava a montar os panos de amostra das aulas de Trabalhos Manuais... 
Nosso contato continuou sempre harmonioso, mas o tempo fez com que as prioridades se impusessem, eu com meus estudos, ela com o marido e filhos. Entretanto estivemos sempre juntas, ao menos nas festividades da família, Natal, aniversários.
Nesta quarta feira, 19, reunimo-nos ao redor da mesa de sua casa, para um café com bolo. Não estavam ali a Professora Vânia, aposentada, o monge beneditino Dom José Carlos e eu, a Professora Jane. Não, ao redor da mesa estavam a Inhá, o Zé e a Janinha... A conversa fluiu tranquila e carinhosa, tentando manter as lembranças que teimam em desaparecer de sua mente...
Esse encontro me fez pensar no significado da família para os irmãos. Ou melhor, o significado dos irmãos para a família. Naquela mesa mantém-se o amor de meus pais. Perpetua-se. Temos nossas próprias  famílias, filhos, netos, mas os irmãos são a continuidade daquele primeiro amor.
A lembrança de nossa formação vem acompanhada do nosso relacionamento, das brigas, das brincadeiras. E, para mim, lembranças da infância vêm com o som do piano tocado pela Vânia ou pelo Jairo, a voz da Jurema ou do José. Lembro-me do orgulho que sentia ao caminhar ao lado de meus irmãos já moços, ou ainda, dos almoços de domingo em que todos se reuniam...
Preservar o amor entre irmãos é preservar a família. 
Irmãos são diferentes, a idade e a vida vão moldando as pessoas inexoravelmente. Irmãos têm atitudes que não aprovamos, muitas vezes dizem palavras que não queremos ouvir, agem  de forma que reprovamos. E eles também nos analisam da  mesma forma como nós os analisamos.
Mas o importante é que  temos uma história em comum. Vivemos momentos de alegria, de tristeza,  de sonhos e de esperança; rimos, choramos juntos muitas vezes.
A família sonhada por nossos pais, repito, perpetua-se em nós. 
Dos cinco filhos de meus pais, os três remanescentes, juntos,  celebraram com simplicidade o amor fraterno, o respeito ao outro e a certeza de que o que realmente importa nesta vida é o relacionamento que temos com  aqueles a quem queremos bem.


Imagens: Google



sábado, 9 de setembro de 2017

PEDRAS GRITARÃO

Nestes tempos em que a angústia assola a humanidade, trazendo temores e apreensões; em que as ameaças se concretizam em forma de pessoas inconsequentes, de grupos que se  pautam pela intolerância... Nestes tempos em que o homem sente   falta de segurança, em que percebe a irresponsabilidade e despudor de governantes e políticos... E mais ainda, nestes tempos em que a pequenez humana fica patente diante de catástrofes  provocadas pela própria  natureza...
Nestes tempos é bom lembrar  Mário Quintana e sua poesia, que nos faz refletir, sempre.

O SEGUNDO MANDAMENTO

Bem sei que não se deve dizer Seu santo nome em vão.
Mas, agora,
o seu nome é apenas uma interjeição
como acontece com "Minha Nossa Senhora!"
-  este belíssimo grito tão certamente errado
como o faz tanta vez o povo em suas descobertas.
A voz do povo é um Livro de Revelações.
Só tem que o tempo as foi sedimentando em sucessivas     camadas
E elas agora nos dizem tanto como uma pedra.
Agora restam-nos apenas as palavras técnicas
pertencentes ao vocabulário inerte dos robôs.
Porém um dia as pedras se iluminarão milagrosamente por dentro
porque só termina para todo o sempre o que foi artificialmente construído...

Um dia,
um dia as pedras gritarão!

Mário Quintana
Baú de Espantos
Rio de Janeiro, Objetiva, 2014

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

DECORAÇÃO AFETIVA

Gosto de folhear revistas de decoração. Os espaços sempre harmônicos em cores e linhas, móveis modernos ou tradicionais, os revestimentos, os objetos de adorno, enfim, agradam meus olhos. Um prazer estético, uma ideia, talvez...
Mas, o que falta a esses espaços? Certamente o objetivo da revista não é mostrar o uso real desses aposentos e sim a melhor e mais harmônica ocupação do espaço: a colocação dos móveis, das almofadas, cortinas e tapetes, a melhor organização de uma cozinha ou área de serviço.
Repito, o que falta a esses espaços?  Um pouco de vida, talvez?
Não há um par de tênis infantil ao lado do sofá, ou um agasalho esquecido sobre a cadeira, ou ainda uma correspondência recém chegada, uma xícara de café sobre a pia.... Tudo é muito arrumado, tudo é muito perfeito.
Olho então para minha sala e percebo que nela a decoração é puramente afetiva. Com exceção da TV, e do móvel que a comporta, dos sofás e mesinhas, tudo tem uma história. 
Comecemos pelo piano, que foi de minha mãe e tem a enfeitá-lo fotos dos filhos e dos netos, acompanhados de duas recordações de viagens: um Dom Quixote que veio de Madri e uma Namoradeira que trouxe de Minas. Também foi de minha mãe a cadeirinha de balanço Thonet, enfeitada por uma das duas almofadas que foram lembrança de casamento do filho caçula.
Nas paredes, os quadros são obras da Flávia, minha filha e o prato de madeira, quase uma mandala, ganhei há muito tempo de minha irmã Jurema, que já se foi. 
Mas ainda há mais: o prato de cerâmica, arte de meu amigo Zaramello, a caixinha de couro em que ficam os controles da TV, presente de outro amigo querido, Ricardo Feital, e que tem como enfeite a foto do portão de Brandemburgo, lembrança de nossa viagem a Berlim.
Esses objetos todos, e outros ainda, que não são relacionados pois tornariam enfadonho este texto, têm relação com pessoas, momentos, fases da vida. Alguns deles compuseram outros espaços, em outras épocas. Outros ainda foram lembranças de pessoas a quem quero bem. E nessa sala, repleta de ternura, carinho e saudade, meu neto caçula constrói sua fortaleza, ataca e se defende de inimigos imaginários, dá suas cambalhotas ou empilha almofadas... 
É a vida, seguindo seu curso...
É a vida que torna essa sala, certamente sem a perfeita harmonia das revistas, um espaço  de aconchego, de paz,  a certeza da perenidade do afeto, ultrapassando o tempo e o espaço.

Imagens Google
mg.olx.com.br

terça-feira, 25 de julho de 2017

O FIM DA HISTÓRIA

Sobre inspiração, construção e produção literária

As palavras fogem de mim, como passarinhos ariscos, no canteiro da praça. Em vão corro até elas, cerco-as, mas elas se perdem no vazio...
As ideias, irmãs das palavras, também escapam e ambas, unidas se recusam a aproximar-se.
É uma batalha constante, geralmente perdida, e a página em branco aguarda o toque mágico da tecnologia, que a faça transbordar em sentimentos e imagens.
As outras páginas, já preenchidas, aguardam empilhadas, sobrepostas, em calmaria. Esperam pelas próximas, que venham completar a última linha, reatar o fio da narrativa, para que, finalmente, possam enfeitar-se com o ponto final, derradeiro, da obra acabada.
Mas, a situação se mantém, e as mãos sobre o teclado aguardam a organização das ideias;  que riem de mim, afinal estão todas ali, as ideias, apenas não há uma bússola que possa nortear essa embarcação de sonhos...
Suspiros são a trilha sonora desses momentos. 
A ideia, a conclusão, o encerramento está traçado. Brinca em minha mente esperando apenas a ordem, a organização do pensamento. Mas como? 
Brincalhonas, as palavras continuam a correr em seus passos de passarinhos ou  a voar, recortando sua silhueta no céu azul.
E eu aguardo, impaciente. Certamente chegará o momento, a hora certa e alinhadas elas tomarão seu lugar na folha branca e poderei finalmente escrever FIM. 




GOOGLE IMAGENS
https://garuvanet.com/index/poema-semantica-sons-e-palavras/

sábado, 15 de julho de 2017

POEMA PARA UMA TARDE AZUL





O poema abaixo foi escrito há anos e registrado aqui em uma de minhas primeiras postagens. 
Achei oportuno transcrevê-lo, depois de alguns poucos dias de pleno azul, mar e descanso.

AZUL DRUMMOND

Em plena tarde azul
ausente de desejos
ou mágoas ou temores,
o olhar inebriado de luz e cores
- rosa dourado derretendo o dia -
busco encontrar sentido,
tento achar respostas
a perguntas perdidas na memória dos tempos...
As mesmas perguntas sem respostas
feitas desde que se percebeu ser no mundo,
as mesmas perguntas que a fé responde sem provas concretas
e a ciência busca em vão.
Nesta tarde inebriante de azul,
identifico-me, apenas,
entrego-me.
Perco-me no azul, na intensa luminosidade que me envolve,
apagam-se perguntas, perdem-se respostas,
sou apenas azul, dourado e róseo, derretendo o dia.

Imagem: https://www.colegioweb.com.br/curiosidades/cor-ceu-como-se-explica.html

terça-feira, 4 de julho de 2017

PERDAS

Muito tenho falado sobre a alegria que inunda minha vida, e sei que para muitas pessoas essa alegria é constante, ou ao menos surge com muita frequência.
Entretanto, se analisarmos friamente nossa vida, veremos que ela é feita de constantes perdas. Acomodamo-nos a elas, esquecemos, ou tentamos esquecer e seguimos em frente. Mas as perdas... sim, elas caminham conosco, sempre.
A primeira delas surge quando abrimos nossos olhos para a vida. Perdemos o calor e aconchego do seio materno para um mundo frio e inseguro. Aos poucos nos acostumamos com essa insegurança e nos sentimos protegidos e amados pelos braços maternos. 
Mas as perdas continuam e ainda pequeninos somos deixados com estranhos, sejam babás, creches, escolinhas e choramos sim, com medo. Mas, nos acostumamos...
Passam-se os anos e perdemos... os dentes! Outros virão certamente, mas até que venham somos os "banguelinhas", temos "janelinhas" na boca. E nos acostumamos...
Crescemos, perdemos nossa aparência fofinha, engraçadinha, para nos tornarmos adolescentes desengonçados, com braços e pernas longas;  às vezes com espinhas no rosto; os meninos perdem sua voz que se torna estranha. Mas nos acostumamos...
E então vêm as perdas mais doídas: perdemos avós, perdemos às vezes os pais, ou irmãos, ou tios, ou amigos queridos. 
E, pela vida afora, perdemos e perdemos. Envelhecemos e perdemos dentes, muitas vezes perdemos cabelos, perdemos o equilíbrio, a visão clara e a capacidade até mesmo de pensar com coerência...
Analisando as perdas que sofremos pergunto-me como podemos ser felizes, como podemos sentir essa alegria que nos acompanha e nos nos faz sorrir até mesmo em momentos difíceis? 
Não sei.
Talvez a resposta esteja na certeza de que as perdas são inevitáveis e a esperança de momentos melhores esteja sempre conosco. Talvez o fato de viver um dia de cada vez, sem  rememorar a tristeza do dia anterior ou sem o medo do que virá...
Talvez simplesmente sejamos felizes por viver. Por conviver. Por amar. Por sermos amados. Por crer, seja qual for a crença que nos move.
Muitas são as perdas, sim,  mas muitos também são os motivos para viver, conviver e agradecer a alegria de cada amanhecer.



AMANHECER
http://blogdacynthia.blogspot.com.br/2012/03/amanhecer.html

   
Para Jairo, que nos deixou. 


quarta-feira, 21 de junho de 2017

SÓ HOJE

Só hoje, eu não quero pensar no amanhã.
Apenas hoje, por favor,  permita-me ser indiferente,
ao que é diferente, ao que é igual,
ao que incomoda o olhar,
ao que incomoda os ouvidos,
ao que incomoda...

Só hoje, eu não quero ser quem eu sempre fui,
não quero dizer as palavras que sempre disse,
e que certamente iria dizer.
Só hoje,
Eu não quero ter mais ou menos do que tenho,
não quero saber o que sei,
não quero entender,
compreender...

Só hoje, por favor, deixe-me simplesmente
viver o momento presente,
viver a brisa no rosto,
sentir o perfume do verde,
a pele aquecida ao sol...

Só hoje, 
por favor permita-me 
apenas e simplesmente,  ser,
nada além do que ser... 

Só hoje...


TREM BALA
Ana Vilela
YouTube

terça-feira, 13 de junho de 2017

COMO VERDES SÃO OS SEUS OLHOS

Sobre a mesa, o verde se impõe
ao primeiro olhar.
Mais do que a harmonia do vaso,
mais do que a perfeição das folhas,
mais do que a composição,
é o verde que se destaca...
E brilha, invadindo sentidos,
permitindo o repouso do olhar,
o sonho, o devaneio.
E o sonho que se materializa 
traz voos sonoros sobre colinas coloridas
com  telhados de brinquedo sobre a relva,
passeios entre fragrâncias  de um tempo que já se foi,
carícias leves, como aragem branda...
Tudo isso despertado por um simples tom:
o verde, mais verde ainda ao segundo olhar.
Esse mais atento, mais sereno, talvez mais perspicaz,
permite que a razão se imponha.
E só então, a alma em paz se acalma
e o mistério todo é revelado.
A chama  que aquece o sonho e acalenta o devaneio;
que transforma a cor em som, em aroma e sentimento
é a constatação irrefutável e arrasadora:
Esse é o verde tão verde
como verdes são os seus olhos...

Para Kátia, a dona do verde e dos olhos, 
que ofereceu o mote.

Bonsai
Imagens Google

quarta-feira, 31 de maio de 2017

POESIA E PROSA

Leio nestes últimos dias dois autores que muito admiro: SARAMAGO e QUINTANA.
Do primeiro leio A viagem do elefante que, embora de leitura mais "fácil" do que a dos demais do autor, traz como naqueles, além de uma reflexão sobre as atitudes humanas,  toda a ironia e crítica social, desta feita de uma forma bem humorada, que nos faz sorrir... e pensar....
Já de Quintana, o Baú de Espantos nos oferece deliciosos poemas que, no dizer de Ronaldo Polito que assina a apresentação do livro, buscam o "insólito por trás do comum, do cotidiano, do corriqueiro".
Dois autores, duas obras, um eterno prazer...

Aqui vão dois trechos dos dois autores, que tratam, de forma poética, da construção e constituição do discurso.

Realmente, o maior desrespeito à realidade, seja ela, a realidade, o que for, que se poderá cometer quando nos dedicamos ao inútil trabalho de descrever uma paisagem, é ter de fazê-lo com palavras que não são nossas, que nunca foram nossas, repare-se palavras que já correram milhões de páginas e de bocas antes que chegasse a nossa vez de as utilizar, palavras cansadas, exaustas de tanto passarem de mão em mão e deixarem em cada uma parte da sua substância vital. 
(José Saramago, A viagem do elefante,  p. 241)


O DESCOBRIDOR

Ah, essa gente que me encomenda
um poema
com tema...

Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,
o que inquietamente procuro
em minhas escavações do ar?

Nesse futuro,
tão imperfeito,
vão dar,
desde o mais inocente nascituro,
suntuosas princesas mortas há milênios,
palavras desconhecidas mas com todas as letras misteriosamente acesas
palavras quotidianas
enfim libertas de qualquer objeto

E os objetos...

Os atônitos objetos que não sabem mais o que são
no terror delicioso
da Transfiguração
(Mário Quintana, Baú de espantos, 2014)



sexta-feira, 26 de maio de 2017

CONTEMPLANDO AS PALAVRAS



Para Drummond, minha eterna admiração

Pelos poros,
pelos olhos,
pela boca sedenta,
pela garganta seca, 
pelos ouvidos,
sim, pelos ouvidos, 
elas penetram, com suas mil faces secretas...
Sua face neutra, aparente, 
inofensiva 
- quem disse?
se mostra, aqui, sempre, ansiosa por respostas, reações:
um sorriso, um olhar,
um gesto, 
uma palavra e outra e outra...
Há sim interesse pela resposta,
pobre ou terrível...
Mas... 
você não trouxe a chave,
você nunca viu a chave,
ou mesmo  tocou a chave.
Afinal, a chave existe?
Silêncio...




Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
 tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade
Rosa do Povo, 1945.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DESABAFO...

Por onde andam os heróis da minha terra, que inspiravam poetas, compositores, ou gente  comum, como eu e você?
Por onde andam os senhores dignos, que não precisavam assinar papel algum, pois sua palavra bastava, sua honra era a garantia de que o que prometiam seria feito?
Por onde andam as pessoas leais, que não traíam amigos ou parentes, não denunciavam o outro a fim da salvar a própria pele?
Por onde andam as pessoas que se orgulhavam de sua vida digna, de seu trabalho honesto?
Por onde andam os jovens que buscavam no conhecimento o caminho para ser alguém na vida?
Por onde andam as famílias que ensinavam o respeito ao outro e a valorização do sentimento, em lugar do consumismo desenfreado?
Essas pessoas não estão no noticiário. 
Não são notícia.
Mas eu sei, eu quero crer, fortemente, que elas existem.
Embora tenham se tornado invisíveis elas devem estar, como eu, observando abismadas a imensa degradação a que chegou este país,  e  que invade diariamente a nossa casa, em forma de notícias, em novas acusações, delações, encarceramentos e solturas...
Tristes dias...

Assentamento
Chico Buarque de Holanda
Youtube


.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

SOBRE CASAMENTO E FELICIDADE...




Seja feliz!
É o que se diz a um filho que se casa.
E a frase, imperativa, como se fosse  uma ordem e não  um desejo,  é apropriada, pois ser feliz é uma forma de encarar a vida, com todos os seus tropeços, dificuldades, permeados por momentos de pura alegria ou êxtase. 
Podemos escolher a forma de ver nossa trajetória: com entusiasmo, com alegria, com coragem...
E mais, com força de vontade para levantar-se ao cair, com a certeza de que tudo passa, o bom e o ruim; com ânimo para acordar para um novo dia que nos trará surpresas, às vezes boas, às vezes tristes, às vezes desesperadoras...
Ser feliz não significa estar alegre sempre, como inconsequentes pássaros a voar sobre as armadilhas... 
Não significa acreditar que seremos sempre vencedores, que ganharemos todas as batalhas, que seremos sempre jovens...
Ser feliz é enxergar nossas fraquezas e conviver com elas, tentando superá-las, se possível for. 
É amar o outro sem manipulações ou  exigências, feliz apenas por estar junto... por sentir-se parceiro.
Ser feliz, portanto, não é algo que, como disse o poeta, nunca alcançamos pois nunca  pomos a felicidade onde nós estamos. Pelo contrário, é algo que construímos, uma atitude que assumimos perante a vida. 

Seja feliz, meu filho!

Júlio e Loretta,  no dia em que comemoraram, 
entre amigos, o amor que os une.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

VOLTA A DORMIR , CORAÇÃO!

Quando a realidade parece imersa em calmaria,
em olhos cansados da mesmice,
em rotinas sufocantes 
e aridez profunda e cinzenta...
Eis que, de repente, sem se anunciar, 
o inesperado se apresenta
e o sonho invade a nossa vida.
A entrega é total e o coração,
esse se deixa levar pelo devaneio.
Somos então  felizes, 
sem a lembrança de que, 
a qualquer momento,  
haverá o acordar.
E o despertar desse sonho, 
muitas vezes, doloroso,
fere o coração cansado, sem piedade...

Volta a dormir, coração! 
É preciso sonhar!



Hier encore
Charles Aznavour e Patrick Bruel
Youtube



domingo, 19 de março de 2017

O SOM DAS ÁGUAS



Trago hoje o poema de um amigo de além mar.
João Menéres, premiado fotógrafo da cidade do  Porto, Portugal, respondeu de forma inspirada e poética a um comentário meu sobre uma belíssima foto sua.
Com sua autorização, transcrevo sua resposta/poema:

O SOM DAS ÁGUAS
João Menéres
Não escutaste o som das águas porque elas não buliam...
Nem sentiste a brisa leve porque não havia...
Tudo era um maravilhoso silêncio. 
Apenas silêncio.
E aquela balisa nos dizia que devia haver vida , 

não agora todavia.
E os olhos perdiam-se para lá do infinito 

que aqui não é alcançado.


Segue o link para que possam admirar a belíssima foto.
(se clicarem sobre ela, poderão vê-la ampliada)
http://grifoplanante.blogspot.com.br/2017/03/fim-de-dia.html

segunda-feira, 13 de março de 2017

LEMBRANÇAS

Lembranças vêm de mansinho, 
e se instalam sem pedir licença...
Chegam sem motivo, 
sem porquê
e quando menos se espera,
lá estão elas, dominando os olhos, os ouvidos,  a mente,
todos os espaços, invasivas...
Por vezes são serenas,
amenas imagens, 
coloridos sons, vozes, movimentos...
Outras vezes, sombrias,
trazem dolorosas ventanias,
arrasando um presente construído.
São apenas lembranças: 
um rosto, um sorriso, um lugar,
uma palavra, uma lágrima, um gesto...
Mas estão vivas, presentes, latentes,
aguardando a vez, quem sabe,
a oportunidade, talvez,
ou simplesmente um fato,
uma música, uma imagem
que as façam desencantar...
E então se mostram e se revelam
fazendo retornar um tempo ido,
um momento já vivido,
que aos poucos desvanece
deixando um gosto de passado,
um  suave sabor de saudade...




Retrato em branco e preto
Chico Buarque
autores: Chico Buarque e Tom Jobim
Youtube

"Eu trago o peito tão marcado
de lembranças do passado"
Chico Buarque de Holanda

sábado, 25 de fevereiro de 2017

SOBRE CAMINHOS E PEDRAS

No meio do caminho tinha uma pedra
disse o poeta, 
e repetiu:
tinha uma pedra no meio do caminho...
E mais e mais, a convencer-se talvez
da veracidade da constatação,
da inexorabilidade do fato...
Uma pedra: apenas
não se sabe se grande, se pequena, se imensa,
apenas se mostra no meio do caminho.
Com sua presença impactante,
metaforizando a vida,
sugerindo possibilidades,
lá está ela.
Como o poeta, apenas observamos sua presença,
e como ele nos damos conta
do que representa, do que pode representar...
A partir dessa constatação
nos  quedamos diante dela, imóveis,
impotentes perante sua força,
paralisados por sua presença.
E a vida em nossas mãos se torna mais real
porque nela há uma pedra a transpor...
Não uma pedra qualquer
mas sim aquela que está no meio do caminho
e ali estando, nos torna mais vivos
mais humanos...

Google Imagens
http://educacaonaatualidade.blogspot.com.br/2011/10/no-meio-do-caminho-tinha-uma-pedra.html

NO MEIO DO CAMINHO
Carlos Drummond de Andrade
  

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

NATUREZA E HUMANIDADE

Observando as postagens do blog, encontrei em rascunho o texto abaixo, escrito em  2015, e que não foi postado. 
Publico agora e percebo que,  embora o  quintal não esteja tão florido, a humanidade continua a mesma...

http://rwpaisagismo.blogspot.com.br/2015/11/trepadeira-jasmim-estrela.html

Enquanto a humanidade  nos oferece, a cada dia,  violência, corrupção, morte, discriminação e enche nossos olhos e ouvidos com imagens e sons que chocam pela perversidade, pela incompreensão, pela indiferença pelo ser humano, a Natureza, por sua vez, cumpre sua missão eterna de perfume e beleza...
No meu pequeno quintal, os gerânios apresentam vários brotos de flores coloridas, começando a se abrir com a chuva benfazeja que vem atenuar a grande seca que vivemos.
As orquídeas, brancas, amarelas, roxas, gloriosas, enfeitam as prateleiras, alegrando quem por ali passa.
A roseira me presenteia com dois brotos fortes, de um rosa vivo. O grande arbusto de lantana, todo florido, aguarda a visita do beija-flor, todos os dias... O jasmim estrela já está florido o suficiente para perfumar o cantinho, ao lado da ararinha azul, de madeira, e do sino de bronze que trouxe de Santo Antonio do Pinhal. Ainda não têm flores os hibiscos vermelhos e nem o sapatinho de judeu que, embora verdejante e viçoso, depois da última poda, está revoltado e se recusa a subir pela trave da varanda...
Borboletas, abelhinhas jataí, minhocas, formigas e aranhas convivem em harmonia, respeitando espaços...
Esse é meu pedaço de mundo, aí tento esquecer a época em que vivo e as imagens tristes que me são apresentadas diariamente.
Meu quintal, meu refúgio, um lugar onde a natureza me conforta e me inspira.
Quem sabe, algum dia, a televisão, o jornal ou até mesmo a internet possam me apresentar um mundo tão harmonioso como este que existe em  meu  quintal.
Dezembro de 2015.










terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PEQUENOS PRAZERES

Muito se tem falado sobre prazer, nesses tempos de insegurança, violência e crises em diferentes aspectos da nossa vida.
O ser humano então, busca o prazer talvez como compensação. O  prazer do consumo, da posse ostensiva de bens materiais; o prazer do divertimento sem limites temporais ou espaciais... E a vida  torna-se uma eterna festa, sem comprometimentos...
Entretanto, não quero falar desses prazeres e sim daqueles, pequeninos, singelos, puros, que não proporcionam grandes euforias, mas sim provocam sorrisos, evocam lugares, pessoas, palavras, sons.
E, por serem singelos e puros, são comuns a todos, seja qual for a classe social, a situação econômica, a idade...

Proponho então, um passeio por esses pequenos prazeres que são meus, mas quem sabe, possam também ser seus.

Ah, o prazer que nos proporciona...
O aroma do café, bem cedo, coado pela mão amorosa da mãe...
O olhar de aprovação do professor, do técnico ou do instrutor após uma ação perfeita...
O carinho estabanado do cão à nossa chegada...
O encontro fortuito com um amigo que há muito não se via...
O carinho da mãe, do pai, do marido ou do filho, ajeitando nossas cobertas, em noites frias...
A visão de um céu de azul tão puro que ofusca o olhar...
Os acordes da melodia perfeita que invadem nosso ser, chegando até a alma...
Prazeres simples, que estão ao nosso alcance e que podem ser lembrados e sentidos a qualquer momento, em qualquer lugar. 
Pequenos prazeres, simples mas preciosos; esses, nada nem ninguém poderá jamais nos tirar.

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sábado, 4 de fevereiro de 2017

DEPOIS DO TEMPORAL

Há imagens que se tornam inesquecíveis:
o sol que se esconde no horizonte, avermelhando o firmamento;
a visão das nuvens, lá embaixo,  a partir da janela do avião;
o arco-íris enfeitando um céu ainda cinzento após o temporal...



Após um ano de temores, de angústia e apreensão, que 2017 nos traga a certeza de dias melhores...

A verdade por trás do céu azul
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E não havia arrecifes
Nem bancos de areia
Nem temores, nem mais dores
Não havia cansaço
Só havia, só havia azul e espaço...

                                          Ivan Lins



Depois dos Temporais
Ivan Lins
Youtube