sábado, 21 de outubro de 2017

AO PROFESSOR, NO SEU DIA

Este texto, com pequena alteração referente à data,  foi publicado no periódico RECRIAR, canal de expressão e realização da APAMPESP - Associação dos Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo - Regional de Mogi das Cruzes, SP.


Houve um tempo em que a criança, aos sete anos,  era levada à escola pelos pais, que diziam à professora ou professor, que fizesse o que quisesse com seu filho a fim de  que ele aprendesse o necessário para ser uma pessoa realizada. Muitas vezes o pai chegava  a dizer que desejava que o filho não fosse como ele mesmo...
Que imenso abismo existe entre esse tempo e o que vivemos hoje! A sociedade mudou, as crianças mudaram, os professores também mudaram. Hoje a figura do mestre  deixou de ter a importância e o valor que possuía, ele não é mais o único detentor do conhecimento, aquele que mostra o  caminho para uma vida melhor, respeitado por sua sabedoria e competência.
Hoje o conhecimento está aí para quem quiser acessá-lo. Criança ou adulto, qualquer um tem acesso a um número infinito de informações. As facilidades desta sociedade informatizada permitem até mesmo que jovens e adultos consigam certificados ou diplomas sem freqüentar uma escola tradicional.
E o professor? Que papel exerce essa figura na sociedade atual? Uma carreira com salários baixos, desvalorizado, sujeito a agressões verbais ou mesmo físicas....
Entretanto, indiferente a tudo isso, ele se mantém firme em sua trajetória.
O que o move? O que o sustenta?
Existe algo peculiar nessa figura que participa da vida da criança e do jovem. Existe um aspecto que sempre fez dessa carreira algo que foge à idéia de um mero emprego. Há uma força inexplicável,  que move e sempre moveu o professor, fazendo com que mantenha aceso o seu ideal de uma educação de qualidade, mesmo em condições desfavoráveis.
Ele ou ela acreditam na educação como o único meio de transformação da sociedade e, a despeito de todas as intempéries que enfrentam, seguem em sua missão. Uma missão sim, mas que não deve jamais suplantar a certeza de que são profissionais que se capacitaram e merecem o respeito e o reconhecimento.
No 15 de outubro passado, homenagens foram prestadas aos mestres. Àqueles que já se foram... Aos que dedicaram toda a sua vida ao magistério e hoje relembram sua trajetória. Aos que ainda aliam seu trabalho e sua dedicação à luta por uma maior valorização profissional. Aos que acabam de ingressar na profissão e trazem o ideal ainda firme, à espera dos desafios.

Nesta homenagem aos profissionais da educação desejamos que a chama que os move jamais esmoreça... Que sejam fortes para lutar por melhores condições de trabalho, que sejam amorosos para acolher a criança e o jovem e que sejam perseverantes para manter o ideal de um país em que a educação seja a maior riqueza. 

Eterno Mestre
Paulo Freire

"A educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham."

Imagem: http://alexandretavora.blogspot.com.br/2011/05/frases-de-paulo-freire.html
Texto: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 2003. 17.ed.p.72.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AMOR FRATERNO



Neste fim de inverno, quase primavera, minha irmã completou 87 anos.
A aparência frágil esconde uma história de força e determinação, ultrapassando as adversidades que a vida impôs,com uma fé inabalável e a finura e delicadeza de uma dama. 
A grande diferença de idade entre nós, ela a mais velha e eu a caçula,  fez com que, durante minha infância sua figura fosse também materna para mim. Era ela a Inhá, já que, pequenina, eu não conseguia chamá-la como os demais, Vaninha. Era a Inhá e pronto.
Era ela quem fazia os desenhos na primeira página de meus cadernos de Artes, quem me ajudava a montar os panos de amostra das aulas de Trabalhos Manuais... 
Nosso contato continuou sempre harmonioso, mas o tempo fez com que as prioridades se impusessem, eu com meus estudos, ela com o marido e filhos. Entretanto estivemos sempre juntas, ao menos nas festividades da família, Natal, aniversários.
Nesta quarta feira, 19, reunimo-nos ao redor da mesa de sua casa, para um café com bolo. Não estavam ali a Professora Vânia, aposentada, o monge beneditino Dom José Carlos e eu, a Professora Jane. Não, ao redor da mesa estavam a Inhá, o Zé e a Janinha... A conversa fluiu tranquila e carinhosa, tentando manter as lembranças que teimam em desaparecer de sua mente...
Esse encontro me fez pensar no significado da família para os irmãos. Ou melhor, o significado dos irmãos para a família. Naquela mesa mantém-se o amor de meus pais. Perpetua-se. Temos nossas próprias  famílias, filhos, netos, mas os irmãos são a continuidade daquele primeiro amor.
A lembrança de nossa formação vem acompanhada do nosso relacionamento, das brigas, das brincadeiras. E, para mim, lembranças da infância vêm com o som do piano tocado pela Vânia ou pelo Jairo, a voz da Jurema ou do José. Lembro-me do orgulho que sentia ao caminhar ao lado de meus irmãos já moços, ou ainda, dos almoços de domingo em que todos se reuniam...
Preservar o amor entre irmãos é preservar a família. 
Irmãos são diferentes, a idade e a vida vão moldando as pessoas inexoravelmente. Irmãos têm atitudes que não aprovamos, muitas vezes dizem palavras que não queremos ouvir, agem  de forma que reprovamos. E eles também nos analisam da  mesma forma como nós os analisamos.
Mas o importante é que  temos uma história em comum. Vivemos momentos de alegria, de tristeza,  de sonhos e de esperança; rimos, choramos juntos muitas vezes.
A família sonhada por nossos pais, repito, perpetua-se em nós. 
Dos cinco filhos de meus pais, os três remanescentes, juntos,  celebraram com simplicidade o amor fraterno, o respeito ao outro e a certeza de que o que realmente importa nesta vida é o relacionamento que temos com  aqueles a quem queremos bem.


Imagens: Google



sábado, 9 de setembro de 2017

PEDRAS GRITARÃO

Nestes tempos em que a angústia assola a humanidade, trazendo temores e apreensões; em que as ameaças se concretizam em forma de pessoas inconsequentes, de grupos que se  pautam pela intolerância... Nestes tempos em que o homem sente   falta de segurança, em que percebe a irresponsabilidade e despudor de governantes e políticos... E mais ainda, nestes tempos em que a pequenez humana fica patente diante de catástrofes  provocadas pela própria  natureza...
Nestes tempos é bom lembrar  Mário Quintana e sua poesia, que nos faz refletir, sempre.

O SEGUNDO MANDAMENTO

Bem sei que não se deve dizer Seu santo nome em vão.
Mas, agora,
o seu nome é apenas uma interjeição
como acontece com "Minha Nossa Senhora!"
-  este belíssimo grito tão certamente errado
como o faz tanta vez o povo em suas descobertas.
A voz do povo é um Livro de Revelações.
Só tem que o tempo as foi sedimentando em sucessivas     camadas
E elas agora nos dizem tanto como uma pedra.
Agora restam-nos apenas as palavras técnicas
pertencentes ao vocabulário inerte dos robôs.
Porém um dia as pedras se iluminarão milagrosamente por dentro
porque só termina para todo o sempre o que foi artificialmente construído...

Um dia,
um dia as pedras gritarão!

Mário Quintana
Baú de Espantos
Rio de Janeiro, Objetiva, 2014

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

DECORAÇÃO AFETIVA

Gosto de folhear revistas de decoração. Os espaços sempre harmônicos em cores e linhas, móveis modernos ou tradicionais, os revestimentos, os objetos de adorno, enfim, agradam meus olhos. Um prazer estético, uma ideia, talvez...
Mas, o que falta a esses espaços? Certamente o objetivo da revista não é mostrar o uso real desses aposentos e sim a melhor e mais harmônica ocupação do espaço: a colocação dos móveis, das almofadas, cortinas e tapetes, a melhor organização de uma cozinha ou área de serviço.
Repito, o que falta a esses espaços?  Um pouco de vida, talvez?
Não há um par de tênis infantil ao lado do sofá, ou um agasalho esquecido sobre a cadeira, ou ainda uma correspondência recém chegada, uma xícara de café sobre a pia.... Tudo é muito arrumado, tudo é muito perfeito.
Olho então para minha sala e percebo que nela a decoração é puramente afetiva. Com exceção da TV, e do móvel que a comporta, dos sofás e mesinhas, tudo tem uma história. 
Comecemos pelo piano, que foi de minha mãe e tem a enfeitá-lo fotos dos filhos e dos netos, acompanhados de duas recordações de viagens: um Dom Quixote que veio de Madri e uma Namoradeira que trouxe de Minas. Também foi de minha mãe a cadeirinha de balanço Thonet, enfeitada por uma das duas almofadas que foram lembrança de casamento do filho caçula.
Nas paredes, os quadros são obras da Flávia, minha filha e o prato de madeira, quase uma mandala, ganhei há muito tempo de minha irmã Jurema, que já se foi. 
Mas ainda há mais: o prato de cerâmica, arte de meu amigo Zaramello, a caixinha de couro em que ficam os controles da TV, presente de outro amigo querido, Ricardo Feital, e que tem como enfeite a foto do portão de Brandemburgo, lembrança de nossa viagem a Berlim.
Esses objetos todos, e outros ainda, que não são relacionados pois tornariam enfadonho este texto, têm relação com pessoas, momentos, fases da vida. Alguns deles compuseram outros espaços, em outras épocas. Outros ainda foram lembranças de pessoas a quem quero bem. E nessa sala, repleta de ternura, carinho e saudade, meu neto caçula constrói sua fortaleza, ataca e se defende de inimigos imaginários, dá suas cambalhotas ou empilha almofadas... 
É a vida, seguindo seu curso...
É a vida que torna essa sala, certamente sem a perfeita harmonia das revistas, um espaço  de aconchego, de paz,  a certeza da perenidade do afeto, ultrapassando o tempo e o espaço.

Imagens Google
mg.olx.com.br

terça-feira, 25 de julho de 2017

O FIM DA HISTÓRIA

Sobre inspiração, construção e produção literária

As palavras fogem de mim, como passarinhos ariscos, no canteiro da praça. Em vão corro até elas, cerco-as, mas elas se perdem no vazio...
As ideias, irmãs das palavras, também escapam e ambas, unidas se recusam a aproximar-se.
É uma batalha constante, geralmente perdida, e a página em branco aguarda o toque mágico da tecnologia, que a faça transbordar em sentimentos e imagens.
As outras páginas, já preenchidas, aguardam empilhadas, sobrepostas, em calmaria. Esperam pelas próximas, que venham completar a última linha, reatar o fio da narrativa, para que, finalmente, possam enfeitar-se com o ponto final, derradeiro, da obra acabada.
Mas, a situação se mantém, e as mãos sobre o teclado aguardam a organização das ideias;  que riem de mim, afinal estão todas ali, as ideias, apenas não há uma bússola que possa nortear essa embarcação de sonhos...
Suspiros são a trilha sonora desses momentos. 
A ideia, a conclusão, o encerramento está traçado. Brinca em minha mente esperando apenas a ordem, a organização do pensamento. Mas como? 
Brincalhonas, as palavras continuam a correr em seus passos de passarinhos ou  a voar, recortando sua silhueta no céu azul.
E eu aguardo, impaciente. Certamente chegará o momento, a hora certa e alinhadas elas tomarão seu lugar na folha branca e poderei finalmente escrever FIM. 




GOOGLE IMAGENS
https://garuvanet.com/index/poema-semantica-sons-e-palavras/

sábado, 15 de julho de 2017

POEMA PARA UMA TARDE AZUL





O poema abaixo foi escrito há anos e registrado aqui em uma de minhas primeiras postagens. 
Achei oportuno transcrevê-lo, depois de alguns poucos dias de pleno azul, mar e descanso.

AZUL DRUMMOND

Em plena tarde azul
ausente de desejos
ou mágoas ou temores,
o olhar inebriado de luz e cores
- rosa dourado derretendo o dia -
busco encontrar sentido,
tento achar respostas
a perguntas perdidas na memória dos tempos...
As mesmas perguntas sem respostas
feitas desde que se percebeu ser no mundo,
as mesmas perguntas que a fé responde sem provas concretas
e a ciência busca em vão.
Nesta tarde inebriante de azul,
identifico-me, apenas,
entrego-me.
Perco-me no azul, na intensa luminosidade que me envolve,
apagam-se perguntas, perdem-se respostas,
sou apenas azul, dourado e róseo, derretendo o dia.

Imagem: https://www.colegioweb.com.br/curiosidades/cor-ceu-como-se-explica.html

terça-feira, 4 de julho de 2017

PERDAS

Muito tenho falado sobre a alegria que inunda minha vida, e sei que para muitas pessoas essa alegria é constante, ou ao menos surge com muita frequência.
Entretanto, se analisarmos friamente nossa vida, veremos que ela é feita de constantes perdas. Acomodamo-nos a elas, esquecemos, ou tentamos esquecer e seguimos em frente. Mas as perdas... sim, elas caminham conosco, sempre.
A primeira delas surge quando abrimos nossos olhos para a vida. Perdemos o calor e aconchego do seio materno para um mundo frio e inseguro. Aos poucos nos acostumamos com essa insegurança e nos sentimos protegidos e amados pelos braços maternos. 
Mas as perdas continuam e ainda pequeninos somos deixados com estranhos, sejam babás, creches, escolinhas e choramos sim, com medo. Mas, nos acostumamos...
Passam-se os anos e perdemos... os dentes! Outros virão certamente, mas até que venham somos os "banguelinhas", temos "janelinhas" na boca. E nos acostumamos...
Crescemos, perdemos nossa aparência fofinha, engraçadinha, para nos tornarmos adolescentes desengonçados, com braços e pernas longas;  às vezes com espinhas no rosto; os meninos perdem sua voz que se torna estranha. Mas nos acostumamos...
E então vêm as perdas mais doídas: perdemos avós, perdemos às vezes os pais, ou irmãos, ou tios, ou amigos queridos. 
E, pela vida afora, perdemos e perdemos. Envelhecemos e perdemos dentes, muitas vezes perdemos cabelos, perdemos o equilíbrio, a visão clara e a capacidade até mesmo de pensar com coerência...
Analisando as perdas que sofremos pergunto-me como podemos ser felizes, como podemos sentir essa alegria que nos acompanha e nos nos faz sorrir até mesmo em momentos difíceis? 
Não sei.
Talvez a resposta esteja na certeza de que as perdas são inevitáveis e a esperança de momentos melhores esteja sempre conosco. Talvez o fato de viver um dia de cada vez, sem  rememorar a tristeza do dia anterior ou sem o medo do que virá...
Talvez simplesmente sejamos felizes por viver. Por conviver. Por amar. Por sermos amados. Por crer, seja qual for a crença que nos move.
Muitas são as perdas, sim,  mas muitos também são os motivos para viver, conviver e agradecer a alegria de cada amanhecer.



AMANHECER
http://blogdacynthia.blogspot.com.br/2012/03/amanhecer.html

   
Para Jairo, que nos deixou.