sábado, 9 de setembro de 2017

PEDRAS GRITARÃO

Nestes tempos em que a angústia assola a humanidade, trazendo temores e apreensões; em que as ameaças se concretizam em forma de pessoas inconsequentes, de grupos que se  pautam pela intolerância... Nestes tempos em que o homem sente   falta de segurança, em que percebe a irresponsabilidade e despudor de governantes e políticos... E mais ainda, nestes tempos em que a pequenez humana fica patente diante de catástrofes  provocadas pela própria  natureza...
Nestes tempos é bom lembrar  Mário Quintana e sua poesia, que nos faz refletir, sempre.

O SEGUNDO MANDAMENTO

Bem sei que não se deve dizer Seu santo nome em vão.
Mas, agora,
o seu nome é apenas uma interjeição
como acontece com "Minha Nossa Senhora!"
-  este belíssimo grito tão certamente errado
como o faz tanta vez o povo em suas descobertas.
A voz do povo é um Livro de Revelações.
Só tem que o tempo as foi sedimentando em sucessivas     camadas
E elas agora nos dizem tanto como uma pedra.
Agora restam-nos apenas as palavras técnicas
pertencentes ao vocabulário inerte dos robôs.
Porém um dia as pedras se iluminarão milagrosamente por dentro
porque só termina para todo o sempre o que foi artificialmente construído...

Um dia,
um dia as pedras gritarão!

Mário Quintana
Baú de Espantos
Rio de Janeiro, Objetiva, 2014

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

DECORAÇÃO AFETIVA

Gosto de folhear revistas de decoração. Os espaços sempre harmônicos em cores e linhas, móveis modernos ou tradicionais, os revestimentos, os objetos de adorno, enfim, agradam meus olhos. Um prazer estético, uma ideia, talvez...
Mas, o que falta a esses espaços? Certamente o objetivo da revista não é mostrar o uso real desses aposentos e sim a melhor e mais harmônica ocupação do espaço: a colocação dos móveis, das almofadas, cortinas e tapetes, a melhor organização de uma cozinha ou área de serviço.
Repito, o que falta a esses espaços?  Um pouco de vida, talvez?
Não há um par de tênis infantil ao lado do sofá, ou um agasalho esquecido sobre a cadeira, ou ainda uma correspondência recém chegada, uma xícara de café sobre a pia.... Tudo é muito arrumado, tudo é muito perfeito.
Olho então para minha sala e percebo que nela a decoração é puramente afetiva. Com exceção da TV, e do móvel que a comporta, dos sofás e mesinhas, tudo tem uma história. 
Comecemos pelo piano, que foi de minha mãe e tem a enfeitá-lo fotos dos filhos e dos netos, acompanhados de duas recordações de viagens: um Dom Quixote que veio de Madri e uma Namoradeira que trouxe de Minas. Também foi de minha mãe a cadeirinha de balanço Thonet, enfeitada por uma das duas almofadas que foram lembrança de casamento do filho caçula.
Nas paredes, os quadros são obras da Flávia, minha filha e o prato de madeira, quase uma mandala, ganhei há muito tempo de minha irmã Jurema, que já se foi. 
Mas ainda há mais: o prato de cerâmica, arte de meu amigo Zaramello, a caixinha de couro em que ficam os controles da TV, presente de outro amigo querido, Ricardo Feital, e que tem como enfeite a foto do portão de Brandemburgo, lembrança de nossa viagem a Berlim.
Esses objetos todos, e outros ainda, que não são relacionados pois tornariam enfadonho este texto, têm relação com pessoas, momentos, fases da vida. Alguns deles compuseram outros espaços, em outras épocas. Outros ainda foram lembranças de pessoas a quem quero bem. E nessa sala, repleta de ternura, carinho e saudade, meu neto caçula constrói sua fortaleza, ataca e se defende de inimigos imaginários, dá suas cambalhotas ou empilha almofadas... 
É a vida, seguindo seu curso...
É a vida que torna essa sala, certamente sem a perfeita harmonia das revistas, um espaço  de aconchego, de paz,  a certeza da perenidade do afeto, ultrapassando o tempo e o espaço.

Imagens Google
mg.olx.com.br

terça-feira, 25 de julho de 2017

O FIM DA HISTÓRIA

Sobre inspiração, construção e produção literária

As palavras fogem de mim, como passarinhos ariscos, no canteiro da praça. Em vão corro até elas, cerco-as, mas elas se perdem no vazio...
As ideias, irmãs das palavras, também escapam e ambas, unidas se recusam a aproximar-se.
É uma batalha constante, geralmente perdida, e a página em branco aguarda o toque mágico da tecnologia, que a faça transbordar em sentimentos e imagens.
As outras páginas, já preenchidas, aguardam empilhadas, sobrepostas, em calmaria. Esperam pelas próximas, que venham completar a última linha, reatar o fio da narrativa, para que, finalmente, possam enfeitar-se com o ponto final, derradeiro, da obra acabada.
Mas, a situação se mantém, e as mãos sobre o teclado aguardam a organização das ideias;  que riem de mim, afinal estão todas ali, as ideias, apenas não há uma bússola que possa nortear essa embarcação de sonhos...
Suspiros são a trilha sonora desses momentos. 
A ideia, a conclusão, o encerramento está traçado. Brinca em minha mente esperando apenas a ordem, a organização do pensamento. Mas como? 
Brincalhonas, as palavras continuam a correr em seus passos de passarinhos ou  a voar, recortando sua silhueta no céu azul.
E eu aguardo, impaciente. Certamente chegará o momento, a hora certa e alinhadas elas tomarão seu lugar na folha branca e poderei finalmente escrever FIM. 




GOOGLE IMAGENS
https://garuvanet.com/index/poema-semantica-sons-e-palavras/

sábado, 15 de julho de 2017

POEMA PARA UMA TARDE AZUL





O poema abaixo foi escrito há anos e registrado aqui em uma de minhas primeiras postagens. 
Achei oportuno transcrevê-lo, depois de alguns poucos dias de pleno azul, mar e descanso.

AZUL DRUMMOND

Em plena tarde azul
ausente de desejos
ou mágoas ou temores,
o olhar inebriado de luz e cores
- rosa dourado derretendo o dia -
busco encontrar sentido,
tento achar respostas
a perguntas perdidas na memória dos tempos...
As mesmas perguntas sem respostas
feitas desde que se percebeu ser no mundo,
as mesmas perguntas que a fé responde sem provas concretas
e a ciência busca em vão.
Nesta tarde inebriante de azul,
identifico-me, apenas,
entrego-me.
Perco-me no azul, na intensa luminosidade que me envolve,
apagam-se perguntas, perdem-se respostas,
sou apenas azul, dourado e róseo, derretendo o dia.

Imagem: https://www.colegioweb.com.br/curiosidades/cor-ceu-como-se-explica.html

terça-feira, 4 de julho de 2017

PERDAS

Muito tenho falado sobre a alegria que inunda minha vida, e sei que para muitas pessoas essa alegria é constante, ou ao menos surge com muita frequência.
Entretanto, se analisarmos friamente nossa vida, veremos que ela é feita de constantes perdas. Acomodamo-nos a elas, esquecemos, ou tentamos esquecer e seguimos em frente. Mas as perdas... sim, elas caminham conosco, sempre.
A primeira delas surge quando abrimos nossos olhos para a vida. Perdemos o calor e aconchego do seio materno para um mundo frio e inseguro. Aos poucos nos acostumamos com essa insegurança e nos sentimos protegidos e amados pelos braços maternos. 
Mas as perdas continuam e ainda pequeninos somos deixados com estranhos, sejam babás, creches, escolinhas e choramos sim, com medo. Mas, nos acostumamos...
Passam-se os anos e perdemos... os dentes! Outros virão certamente, mas até que venham somos os "banguelinhas", temos "janelinhas" na boca. E nos acostumamos...
Crescemos, perdemos nossa aparência fofinha, engraçadinha, para nos tornarmos adolescentes desengonçados, com braços e pernas longas;  às vezes com espinhas no rosto; os meninos perdem sua voz que se torna estranha. Mas nos acostumamos...
E então vêm as perdas mais doídas: perdemos avós, perdemos às vezes os pais, ou irmãos, ou tios, ou amigos queridos. 
E, pela vida afora, perdemos e perdemos. Envelhecemos e perdemos dentes, muitas vezes perdemos cabelos, perdemos o equilíbrio, a visão clara e a capacidade até mesmo de pensar com coerência...
Analisando as perdas que sofremos pergunto-me como podemos ser felizes, como podemos sentir essa alegria que nos acompanha e nos nos faz sorrir até mesmo em momentos difíceis? 
Não sei.
Talvez a resposta esteja na certeza de que as perdas são inevitáveis e a esperança de momentos melhores esteja sempre conosco. Talvez o fato de viver um dia de cada vez, sem  rememorar a tristeza do dia anterior ou sem o medo do que virá...
Talvez simplesmente sejamos felizes por viver. Por conviver. Por amar. Por sermos amados. Por crer, seja qual for a crença que nos move.
Muitas são as perdas, sim,  mas muitos também são os motivos para viver, conviver e agradecer a alegria de cada amanhecer.



AMANHECER
http://blogdacynthia.blogspot.com.br/2012/03/amanhecer.html

   
Para Jairo, que nos deixou. 


quarta-feira, 21 de junho de 2017

SÓ HOJE

Só hoje, eu não quero pensar no amanhã.
Apenas hoje, por favor,  permita-me ser indiferente,
ao que é diferente, ao que é igual,
ao que incomoda o olhar,
ao que incomoda os ouvidos,
ao que incomoda...

Só hoje, eu não quero ser quem eu sempre fui,
não quero dizer as palavras que sempre disse,
e que certamente iria dizer.
Só hoje,
Eu não quero ter mais ou menos do que tenho,
não quero saber o que sei,
não quero entender,
compreender...

Só hoje, por favor, deixe-me simplesmente
viver o momento presente,
viver a brisa no rosto,
sentir o perfume do verde,
a pele aquecida ao sol...

Só hoje, 
por favor permita-me 
apenas e simplesmente,  ser,
nada além do que ser... 

Só hoje...


TREM BALA
Ana Vilela
YouTube

terça-feira, 13 de junho de 2017

COMO VERDES SÃO OS SEUS OLHOS

Sobre a mesa, o verde se impõe
ao primeiro olhar.
Mais do que a harmonia do vaso,
mais do que a perfeição das folhas,
mais do que a composição,
é o verde que se destaca...
E brilha, invadindo sentidos,
permitindo o repouso do olhar,
o sonho, o devaneio.
E o sonho que se materializa 
traz voos sonoros sobre colinas coloridas
com  telhados de brinquedo sobre a relva,
passeios entre fragrâncias  de um tempo que já se foi,
carícias leves, como aragem branda...
Tudo isso despertado por um simples tom:
o verde, mais verde ainda ao segundo olhar.
Esse mais atento, mais sereno, talvez mais perspicaz,
permite que a razão se imponha.
E só então, a alma em paz se acalma
e o mistério todo é revelado.
A chama  que aquece o sonho e acalenta o devaneio;
que transforma a cor em som, em aroma e sentimento
é a constatação irrefutável e arrasadora:
Esse é o verde tão verde
como verdes são os seus olhos...

Para Kátia, a dona do verde e dos olhos, 
que ofereceu o mote.

Bonsai
Imagens Google