sexta-feira, 26 de maio de 2017

CONTEMPLANDO AS PALAVRAS



Para Drummond, minha eterna admiração

Pelos poros,
pelos olhos,
pela boca sedenta,
pela garganta seca, 
pelos ouvidos,
sim, pelos ouvidos, 
elas penetram, com suas mil faces secretas...
Sua face neutra, aparente, 
inofensiva 
- quem disse?
se mostra, aqui, sempre, ansiosa por respostas, reações:
um sorriso, um olhar,
um gesto, 
uma palavra e outra e outra...
Há sim interesse pela resposta,
pobre ou terrível...
Mas... 
você não trouxe a chave,
você nunca viu a chave,
ou mesmo  tocou a chave.
Afinal, a chave existe?
Silêncio...




Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
 tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade
Rosa do Povo, 1945.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DESABAFO...

Por onde andam os heróis da minha terra, que inspiravam poetas, compositores, ou gente  comum, como eu e você?
Por onde andam os senhores dignos, que não precisavam assinar papel algum, pois sua palavra bastava, sua honra era a garantia de que o que prometiam seria feito?
Por onde andam as pessoas leais, que não traíam amigos ou parentes, não denunciavam o outro a fim da salvar a própria pele?
Por onde andam as pessoas que se orgulhavam de sua vida digna, de seu trabalho honesto?
Por onde andam os jovens que buscavam no conhecimento o caminho para ser alguém na vida?
Por onde andam as famílias que ensinavam o respeito ao outro e a valorização do sentimento, em lugar do consumismo desenfreado?
Essas pessoas não estão no noticiário. 
Não são notícia.
Mas eu sei, eu quero crer, fortemente, que elas existem.
Embora tenham se tornado invisíveis elas devem estar, como eu, observando abismadas a imensa degradação a que chegou este país,  e  que invade diariamente a nossa casa, em forma de notícias, em novas acusações, delações, encarceramentos e solturas...
Tristes dias...

Assentamento
Chico Buarque de Holanda
Youtube


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sexta-feira, 28 de abril de 2017

SOBRE CASAMENTO E FELICIDADE...




Seja feliz!
É o que se diz a um filho que se casa.
E a frase, imperativa, como se fosse  uma ordem e não  um desejo,  é apropriada, pois ser feliz é uma forma de encarar a vida, com todos os seus tropeços, dificuldades, permeados por momentos de pura alegria ou êxtase. 
Podemos escolher a forma de ver nossa trajetória: com entusiasmo, com alegria, com coragem...
E mais, com força de vontade para levantar-se ao cair, com a certeza de que tudo passa, o bom e o ruim; com ânimo para acordar para um novo dia que nos trará surpresas, às vezes boas, às vezes tristes, às vezes desesperadoras...
Ser feliz não significa estar alegre sempre, como inconsequentes pássaros a voar sobre as armadilhas... 
Não significa acreditar que seremos sempre vencedores, que ganharemos todas as batalhas, que seremos sempre jovens...
Ser feliz é enxergar nossas fraquezas e conviver com elas, tentando superá-las, se possível for. 
É amar o outro sem manipulações ou  exigências, feliz apenas por estar junto... por sentir-se parceiro.
Ser feliz, portanto, não é algo que, como disse o poeta, nunca alcançamos pois nunca  pomos a felicidade onde nós estamos. Pelo contrário, é algo que construímos, uma atitude que assumimos perante a vida. 

Seja feliz, meu filho!

Júlio e Loretta,  no dia em que comemoraram, 
entre amigos, o amor que os une.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

VOLTA A DORMIR , CORAÇÃO!

Quando a realidade parece imersa em calmaria,
em olhos cansados da mesmice,
em rotinas sufocantes 
e aridez profunda e cinzenta...
Eis que, de repente, sem se anunciar, 
o inesperado se apresenta
e o sonho invade a nossa vida.
A entrega é total e o coração,
esse se deixa levar pelo devaneio.
Somos então  felizes, 
sem a lembrança de que, 
a qualquer momento,  
haverá o acordar.
E o despertar desse sonho, 
muitas vezes, doloroso,
fere o coração cansado, sem piedade...

Volta a dormir, coração! 
É preciso sonhar!



Hier encore
Charles Aznavour e Patrick Bruel
Youtube



domingo, 19 de março de 2017

O SOM DAS ÁGUAS



Trago hoje o poema de um amigo de além mar.
João Menéres, premiado fotógrafo da cidade do  Porto, Portugal, respondeu de forma inspirada e poética a um comentário meu sobre uma belíssima foto sua.
Com sua autorização, transcrevo sua resposta/poema:

O SOM DAS ÁGUAS
João Menéres
Não escutaste o som das águas porque elas não buliam...
Nem sentiste a brisa leve porque não havia...
Tudo era um maravilhoso silêncio. 
Apenas silêncio.
E aquela balisa nos dizia que devia haver vida , 

não agora todavia.
E os olhos perdiam-se para lá do infinito 

que aqui não é alcançado.


Segue o link para que possam admirar a belíssima foto.
(se clicarem sobre ela, poderão vê-la ampliada)
http://grifoplanante.blogspot.com.br/2017/03/fim-de-dia.html

segunda-feira, 13 de março de 2017

LEMBRANÇAS

Lembranças vêm de mansinho, 
e se instalam sem pedir licença...
Chegam sem motivo, 
sem porquê
e quando menos se espera,
lá estão elas, dominando os olhos, os ouvidos,  a mente,
todos os espaços, invasivas...
Por vezes são serenas,
amenas imagens, 
coloridos sons, vozes, movimentos...
Outras vezes, sombrias,
trazem dolorosas ventanias,
arrasando um presente construído.
São apenas lembranças: 
um rosto, um sorriso, um lugar,
uma palavra, uma lágrima, um gesto...
Mas estão vivas, presentes, latentes,
aguardando a vez, quem sabe,
a oportunidade, talvez,
ou simplesmente um fato,
uma música, uma imagem
que as façam desencantar...
E então se mostram e se revelam
fazendo retornar um tempo ido,
um momento já vivido,
que aos poucos desvanece
deixando um gosto de passado,
um  suave sabor de saudade...




Retrato em branco e preto
Chico Buarque
autores: Chico Buarque e Tom Jobim
Youtube

"Eu trago o peito tão marcado
de lembranças do passado"
Chico Buarque de Holanda

sábado, 25 de fevereiro de 2017

SOBRE CAMINHOS E PEDRAS

No meio do caminho tinha uma pedra
disse o poeta, 
e repetiu:
tinha uma pedra no meio do caminho...
E mais e mais, a convencer-se talvez
da veracidade da constatação,
da inexorabilidade do fato...
Uma pedra: apenas
não se sabe se grande, se pequena, se imensa,
apenas se mostra no meio do caminho.
Com sua presença impactante,
metaforizando a vida,
sugerindo possibilidades,
lá está ela.
Como o poeta, apenas observamos sua presença,
e como ele nos damos conta
do que representa, do que pode representar...
A partir dessa constatação
nos  quedamos diante dela, imóveis,
impotentes perante sua força,
paralisados por sua presença.
E a vida em nossas mãos se torna mais real
porque nela há uma pedra a transpor...
Não uma pedra qualquer
mas sim aquela que está no meio do caminho
e ali estando, nos torna mais vivos
mais humanos...

Google Imagens
http://educacaonaatualidade.blogspot.com.br/2011/10/no-meio-do-caminho-tinha-uma-pedra.html

NO MEIO DO CAMINHO
Carlos Drummond de Andrade
  

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.