quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

RECORDAÇÕES: TIA NEM


Tia Nem produzia frutas de cera que eram vendidas no Rio de Janeiro. Em uma de nossas visitas a sua casa, um chalé de esquina, com janelas altas, ofereceu algumas a minha mãe, que as deixava no centro da mesa da sala de jantar. Tão perfeitas eram que uma delas, creio que a maçã - o tempo faz diluir as lembranças - tinha as marcas dos dentinhos de meu sobrinho, ainda pequenino, que iludido pela falsa fruta, quis provar do seu sabor...
Uma vez ao ano visitávamos Tia Nem, que não era minha tia, mas a  quem todos em minha casa, até mesmo minha mãe, sua amiga de longa data, a chamavam assim. Não me lembro de sua fisionomia, apenas da acolhida carinhosa e de seu marido, que nos mostrava com um sorriso maroto os belos quadros emoldurados nas paredes. Então, ainda sorrindo,  levantava as molduras para que víssemos que as pinturas faziam parte da parede.
Para meus olhos ainda infantis, quase adolescentes, tudo era encantamento.
A visita aos amigos de minha mãe era obrigatória. E não eram poucos: além de Tia Nem, a família de Agostinho Ramos, de Seu Donato, do José Lopes.
Havia ainda  Dona Doca, uma senhora idosa, de grande sabedoria e ternura. Dela, lembro-me da casa simples e da avenca verdinha sobre a mesa.
Essas lembranças, meio fragmentadas, mantenho com o carinho que vem de gerações, já que a amizade com as famílias de Cachoeira Paulista vem de meu avô que, ao ficar viúvo, para lá levou os três filhos, ainda em luto, para as primeiras férias sem a mãe.
Por alguns anos nossas férias eram passadas ali, já que tínhamos uma casa, no terreno comprado de Seu Donato. No grande quintal do Rancho Alegre, nossa casa, meus sobrinhos passaram por aventuras e descobertas. Mas o tempo, que tudo leva, levou também as nossas férias...
A casa que tínhamos foi vendida, a mãe, que era nosso elo com a cidade também se foi. Hoje Cachoeira é uma cidade pela qual passamos quando vamos para Minas. Mas não há parada... 
O encantamento ficou no passado, nas pessoas que não mais existem, no carinho que guardo no coração. 
Talvez um dia eu volte, quem sabe, para trilhar os caminhos de minha adolescência. Beber a água da Mão Fria, observar o Paraíba que passa ligeiro sob a Ponte, subir o morro ao lado da Igreja do Bom Jesus e lá de cima, olhar o horizonte, tentando resgatar as imagens que meus olhos jovens descortinavam.
Cachoeira hoje é apenas saudade.


Igreja do Bom Jesus da Cana Verde
Cachoeira Paulista, SP
Google Imagens
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