domingo, 7 de julho de 2013

UM BOM TEXTO

O que pode ser considerado um bom texto?

Durante anos, em sala de aula, procurei orientar os alunos a escreverem bons textos. Não sei se consegui. Alguns ainda guardo, pois a poesia, presente nas linhas adolescentes, destacava-se dos vários outros que refletiam  a dificuldade de transpor para o papel as ideias que brotavam sem freio, ou então as poucas ideias que o tema despertava. A busca pelo bom texto, pelas palavras certas, pela sequência lógica, foi sempre uma preocupação.

Dos alunos que tive, alguns são hoje poetas, alguns jornalistas, muitos professores. Mas, dentre eles,  havia aqueles que surpreendiam e superavam minha expectativa.

Tudo isso apenas para comentar uma crônica que li hoje, no Estadão, assinada pelo Fábio Porchat. 

Já admirava esse menino, novo ainda, e sua capacidade de nos fazer rir, nos programas da TV. Agora ele assina aos domingos uma crônica, ora com um humor inteligente, ora com uma crítica interessante. Mas a de hoje é emoção pura. Fala dos sentimentos ao ver que a casa em que morou na infância não existe mais. 

Ao terminar de ler a crônica, com olhos marejados, constato que o bom texto é aquele que  toca o leitor, que faz despertar  a emoção e compartilhar o sentimento.

Minha casa minha vida (trechos)
Fábio Porchat
[...] Dia desses, resolvi, a caminho do hotel, passar pela minha antiga rua, pra matar as saudades. Quando parei o carro na frente da casa, qual não foi minha surpresa? Não havia mais casa, só um buraco gigante entre os meus vizinhos. A casa foi demolida. [...]

De repente, pensando em tudo isso, parado, perplexo, eu vi minha casa ali de novo, na minha frente. Exatamente como eu havia deixado. E percebi que, na verdade, ela só tinha sido demolida se eu estivesse de olhos abertos. Se eu fechasse os olhos, a casa estava lá, pronta pra morar, com todos os móveis, com toda a minha família comemorando o meu aniversário de dez anos, com minha irmã chorando porque eu impliquei com ela, a minha mãe costurando durante a noite enquanto assistia a um filme na sala, com o meu quarto cheio de bonequinhos do He Man... Pense na casa da sua infância agora. Feche os olhos. Viu? Ela também está lá. E digo mais. Se bobear, nós somos vizinhos!

O ESTADO DE SÃO PAULO. Caderno 2. p C6.  07/07/2013.