sábado, 23 de junho de 2018

NENÊ

A palavra Nenê apresenta diversas conotações. 
O nenê é a criança recém nascida, o bebezinho admirado e amado pela família. Sua pronúncia, afetuosa, muitas vezes se nasaliza e tias e avós se aproximam do pequeno ser com a frase: Onde está o neném da vovó? Cadê o neném da titia?
Muitas vezes identifica o caçula. Enquanto os irmãos têm seus nomes ou seus apelidos, o mais novo dos irmãos continua sendo o Nenê. Deixa de ser uma designação para ser um apelido, um nome. E por vezes o Nenê envelhece e continua sendo o Seu Nenê...
Mas não é privilégio de crianças do sexo masculino, Nenê designa meninos e meninas. Deixa de ser o Nenê para ser a Nenê.
E por toda a vida lá se vão as Donas Nenês, as Tias Nenês...
Todo esse prólogo para falar sobre duas Nenês que guardo com carinho em minhas remotas lembranças. 
Dona Nenê era mãe de minha madrinha de batismo, Ignez. Com certa regularidade, minha mãe ia visitar a comadre e consequentemente a família. Era uma grande família que vivia em três casas em um mesmo amplo terreno. Ficava no Braz, em São Paulo e, se a memória não me prega peças, a casa da madrinha era a segunda. Entrávamos por um pátio lateral, largo, com pouca vegetação e foi lá que aos nove ou dez anos permiti que um dos meninos beijasse meu rosto... 
Não me esqueço da figura forte que nos recebia com carinho. Com ela aprendi a fazer panquecas e a receita, que sigo até hoje, não falha: 1 copo de leite, 1 xícara de farinha, 1 ovo e uma pitada de sal. 
Todas as vezes que sirvo as panquecas recheadas lembro-me de Dona Nenê e de minha infância feliz.
A outra Nenê, conheci mais por conversas e informações de minha mãe e de minhas irmãs. Tia de minha mãe, Tia Nenê cuidou do cunhado viúvo com três filhos, a mais velha com 16 anos, minha mãe com 14 e o caçula de 11 ou 12 anos. A irmã, minha avó Hermínia, faleceu cedo, de doença desconhecida, que foi paralisando seu corpo até a falência total. A Professora Hermínia Villaça Camorim, formada pela Escola Normal Caetano de Campos, no século XIX, que se orgulhava de não ter faltado um só dia às aulas durante a epidemia de gripe espanhola, não resistiu aos dias em que ficou abrigada em um porão, enquanto a revolução de 1924 acontecia nas ruas de São Paulo.
Tia Nenê cuidou dos sobrinhos e depois de um sobrinho postiço, com quem viveu até falecer. 
Lembro-me de Tia Nenê, em uma visita que nos fez,  sentada na cama de minha irmã mais velha, a fazer uma trança no cabelinho ralo e grisalho. Já era idosa e pouco convivi com ela.
Por mais que me esforce, as lembranças são de fatos narrados por minha mãe ou meus irmãos. Essa imagem, da mulher franzina a trançar os cabelos, embora seja  a única, é  extremamente nítida em minha mente. Mas, ao lado de outras lembranças, constrói o extenso álbum de imagens afetivas, que constituem minha história de vida...


YouTube: 
Perfect - Ed Sheeran - Brooklin Duo

quinta-feira, 5 de abril de 2018

NÁUFRAGOS

Somos náufragos depois da borrasca
a pele crestada de sal e chuva,
as mãos feridas pelo leme áspero
na tentativa de manter o norte,
de manter o prumo...
Os passos trôpegos de novo em terra,
tentam encontrar o rumo há tanto perdido,
e seguimos desgarrados, combalidos...

No olhar, o cansaço de quem muito viu,
muito sonhou, muito perdeu...
A boca amarga do desengano,
lábios feridos, sem palavras, mudos...
Sim somos náufragos,
extenuados,  trôpegos, frágeis
mas sobrevivemos,
sim, sobrevivemos...

E continuamos,
e procuramos novos mares,
novos rumos,
novas metas.
Içamos as velas da esperança
e aguardamos  o vento bom que possa nos levar
talvez a novos portos
ou a paragens desconhecidas,
novas terras a desbravar.
Uma nova chama se acende e lá vamos nós
em busca do momento perdido,
do espaço a descobrir,
do tempo a se revelar,
da vida,
simplesmente...


"Um navio em alto mar apanhado pela borrasca"
Willen van de Velde, o Velho - 1680
https://pt.wikipedia.org/wiki/Willem_van_de_Velde,_o_Jovem



sábado, 24 de março de 2018

QUASE

A gente quase perde o trem...
Por um minuto, por um segundo,
uma fração de segundo.
E o pensado, o planejado, o desejado
poderiam se desfazer no tempo e no espaço
nesse instante fugaz...
Quase...
A gente quase ganha na loteria...
Por um número apenas, apenas um.
E todos os sonhos se realizariam,
todos os problemas terminariam
e a vida seria complacente, 
os passos teriam rumos certos...
Por um número apenas.
Quase...
A gente quase morre
e a volta, muitas vezes, é dura e triste,
mas a vida se sobrepõe e a gente continua, 
sem se lembrar de que um dia o "quase" se interpôs
e o que seria fatalidade, tornou-se apenas recomeço.
Quase...
A força dessa pequena palavra
que é senhora e dona  do nosso destino
parece transcender o vocábulo,
assume a forma de um oráculo 
manipulando o futuro a seu bel prazer.
E a gente segue vivendo a vida
sem muito pensar.
sem muito perceber, 
ou talvez 
Quase...




Daúde
QUASE
Caetano Veloso e Antônio Cícero
YouTube

quarta-feira, 21 de março de 2018

POESIA MULHER




Google Imagens


O poema que trago hoje é de autoria de uma velha amiga. 
Embora o tempo e a vida tenham nos distanciado - apesar de vivermos na mesma cidade - a leitura de seus poemas me fez lembrar a jovem de porte altivo e confiante que participou do grupo teatral da cidade, do qual eu, por breve espaço de tempo, também fiz parte.
Participamos do TEM, Teatro Experimental Mogiano, espaço em que se representava a vida, em um momento crítico de nossa historia política; época de repressão e violência contra aqueles que ousassem manifestar-se contrários à situação.
Mas, o objetivo desta página, hoje, é trazer o belo texto de Regina Lúcia Moreira Gomes, publicado na coletânia ENCONTRO IX,  sob coordenação do também poeta Walter Aguiar.

Vem a propósito o poema sobre a mulher, já que vivemos novamente tempos difíceis, e as vozes que se elevam têm sido caladas com ameaças, violência e morte...

MULHER INTEMPORAL

Tenho andado à beira do mundo
nas beiradas das calçadas
nos beirais dos séculos.
Eu, mulher, intemporal,
sem antes, sem ontens,
sem amanhãs.
Estou na memória do tempo
nos milênios da história, sou o que foram antes de mim, 
eis meu futuro.
Mulher nas chamas da noite
nos apelos  do mundo,
mulher das grandes horas,
das decisões seculares, mulher branca, negra, colorida,
sempre mulher.
Tenho andado por entre sedas
e calçado tamancos,
tenho tido joias nas mãos
e as mãos sangrando nas lavouras
dos séculos,
tenho rido risos à toa
e chorado as lágrimas mais amargas.
Tenho sido tudo e todos,
tenho seios que atraíram e mataram
tenho tido seios que amamentaram
reis e povo.
Tenho andado à beira do mundo
com o ventre inchado de humanidade,
tenho andado nos beirais da vida.
Eu, intemporal, sempre mulher.

Regina Lúcia


Texto: Coletânia IX. Org. Walter AGuiar. Mogi das Cruzes, SP, 2015, Ed. do Autor, Ribson Gráfica 
Imagem: Google Imagens, Disponível em: https://zenyzenam.cz/blog/11-odpovedi-znacka-zena/


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

TEMPO





A persistência da memória
Salvador Dali

Três poetas, um pintor e um compositor.
A arte em três momentos: a poesia, a música e a pintura.
O tema, cada um à sua maneira e forma, é o Tempo.
Tempo de ver, de ler, de ouvir.
Mas principalmente, de sentir e de usufruir...

TEMPO-ETERNIDADE
Paulo Mendes Campos

O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.

Pobre de tempo fico transparente
à luz desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira 
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.

Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minh'alma sem razões.

⚜⚜⚜⚜⚜

MOTIVO
Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

⚜⚜⚜⚜⚜

O TEMPO PASSA? NÃO PASSA
Carlos Drummond de Andrade

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor,  florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora, 
e o teu aniversário
é um nascer a toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
 o apelo da eternidade.

⚜⚜⚜⚜⚜


Oração ao tempo
Caetano Veloso

⚜⚜⚜⚜⚜


SALVADOR DALI. A persistência da memória
In: http://www.culturagenial.com/a-persistência-da-memoria-de-salvador-dali/
CAETANO VELOSO. Oração ao tempo. 
In: YouTube
CAMPOS, Paulo Mendes. Antologia poética. Rio de Janeiro: Fontana Expressão e Cultura, 1978.
MEIRELES, Cecília. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
ANDRADE, Carlos Drummond. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Record, 1993.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

NA TERRA DO CARNAVAL




Nos próximos dias, não se falará mais do mar de lama e corrupção que tomou conta deste país.
Não se decidirá se  políticos são culpados ou inocentes, se o rombo desta ou daquela instituição é fruto deste ou daquele esquema...
Por quatro dias, nada será resolvido, discutido, avaliado.
O meu país entra em recesso: o que importa agora é o Carnaval!!!
Certo? Errado? Não sei. 
Sei que o povo vai às ruas, não mais para protestar, mas para cantar, dançar, divertir-se. Os que não saem à rua estão em casa, em descanso, talvez curtindo um churrasco com a família, ou vendo pela TV a folia dos outros.
Assim é o meu país.
E eu? 
Para mim, Carnaval é um momento de descanso da rotina de dona de casa, mãe, esposa, avó. Aproveito para sentar-me ao piano sem me preocupar com o tempo que passa, ou escrever algo neste espaço, ou ainda, digitar mais algumas páginas do romance que teima em não se dar por terminado.
Minhas lembranças de Carnaval são poucas e controversas.
Lembro-me da fantasia preparada por minha irmã para a matinê do clube da cidade.  Lembro-me do medo que tinha, bem pequenina, dos  bonecos que eram preparados em um galpão próximo à minha casa, para saírem no bloco, à noite;  medo também dos amigos de meus irmãos, já moços, que, fantasiados de gorila vinham brincar  comigo e com minha mãe.
Mas a lembrança mais marcante foi a de uma imagem que permanece na memória até hoje. Deveria ter uns dez anos e ia até à padaria em um domingo de carnaval, à tarde. No caminho, um bar com mesinhas e sobre uma delas uma bailarina - de pernas peludas - em um vestido rosa... Dançava e eu, pasma, olhava para a figura que sem dúvida era um de meus irmãos...
Havia inocência naquele tempo. Havia brincadeira nas ruas e nos salões. Havia alegria.
Hoje, em tempos de drogas, muita bebida, licenciosidade, e também de folias programadas, com ingresso, camarotes caríssimos, me pergunto se o Carnaval mudou para melhor ou para pior. Repito: não sei...
Mas é inevitável a pergunta: Quem mudou? Foi o Carnaval ou será que quem mudou fui eu...

Bom Carnaval!

Chico Buarque
Quem te viu, quem te vê
YouTube

Imagem: http://fitfoodideas.com.br/tag/carnaval

domingo, 28 de janeiro de 2018

LEMBRANÇAS DE VENEZA






Assisti a um documentário sobre Veneza, dia desses...
Inevitavelmente, as lembranças vieram de mansinho e tomaram conta do pensamento. Momentos, pessoas, lugares e o prazer, o eterno prazer de viajar, de conhecer o desconhecido, de aventurar-se.
Minha estadia nessa bela cidade, que flutua na lagoa do mesmo nome, no mar Adriático, foi um tanto complicada. Problemas de acomodação:  sábado, procurar um alojamento? Impossível.
A inexperiência da primeira viagem à Europa fez com que chegássemos à cidade sem um hotel reservado. E lá íamos nós, "de mala e cuia" como se diz por aqui, subindo e descendo os degraus das pontes, até chegarmos à Pensão Guerino, graciosa e acolhedora.
Antes disso, provamos a hospitalidade e honestidade europeia (falta um pouco disso por aqui - nem tanto quanto à hospitalidade...).  Deixamos nossas malas no  saguão de um hostel,  por sugestão do atendente, um  rapaz educado e solícito, e fomos em busca de uma reserva na estação de trem. Sem desconfiança, nossa bagagem ficou em um corredor, junto a outras tantas, por sugestão de um desconhecido! Faríamos isso no Brasil?
Finalmente instaladas, e com a bagagem, certamente,  saímos a conhecer a bela Veneza...
Mas, veio a chuva! E ela  nos acompanhou durante todo o sábado e o domingo, só parando quando fomos embora.
Realmente, foi uma estadia um tanto turbulenta e frustrante. Entretanto, fica a lembrança do passeio pelos canais a admirar os  belos palácios, da Piazza San Marco, cheia de gente - e de pombos - e os labirintos medievais que nos transportaram para outros tempos.
A beleza do lugar, o prazer de simplesmente estar ali, certamente desfaz toda e qualquer lembrança negativa.



Rondò Veneziano - La serenissima
Versione Estesa
Youtube

Imagem: tela de  Canaletto (1697-1768)
Google Imagens


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

VIDA: SEGUINDO O CURSO



Prognóstico para um ano que se pretende seja melhor que os anteriores:

Muita música!
Muita poesia!
Muitos sorrisos inteligentes...
Muitas gargalhadas!
Muita fé!
Muitas manifestações de carinho!
Muitos sonhos realizados!
Muitos sonhos, apenas...
Muita garra!
Muita paciência...
Muitas lágrimas... de emoção.
Muita força.
Muita coragem...
Muita... VIDA!



A vida segue seu curso e é tempo de retomar prazeres deixados de lado.
De volta...




Dominguinhos e Orquestra
De volta pro meu aconchego
Youtube

Imagem: 
Qué es vida sana
https://www.chopo.com.mx/vidasana/

sábado, 21 de outubro de 2017

AO PROFESSOR, NO SEU DIA

Este texto, com pequena alteração referente à data,  foi publicado no periódico RECRIAR, canal de expressão e realização da APAMPESP - Associação dos Professores Aposentados do Magistério Público do Estado de São Paulo - Regional de Mogi das Cruzes, SP.


Houve um tempo em que a criança, aos sete anos,  era levada à escola pelos pais, que diziam à professora ou professor, que fizesse o que quisesse com seu filho a fim de  que ele aprendesse o necessário para ser uma pessoa realizada. Muitas vezes o pai chegava  a dizer que desejava que o filho não fosse como ele mesmo...
Que imenso abismo existe entre esse tempo e o que vivemos hoje! A sociedade mudou, as crianças mudaram, os professores também mudaram. Hoje a figura do mestre  deixou de ter a importância e o valor que possuía, ele não é mais o único detentor do conhecimento, aquele que mostra o  caminho para uma vida melhor, respeitado por sua sabedoria e competência.
Hoje o conhecimento está aí para quem quiser acessá-lo. Criança ou adulto, qualquer um tem acesso a um número infinito de informações. As facilidades desta sociedade informatizada permitem até mesmo que jovens e adultos consigam certificados ou diplomas sem freqüentar uma escola tradicional.
E o professor? Que papel exerce essa figura na sociedade atual? Uma carreira com salários baixos, desvalorizado, sujeito a agressões verbais ou mesmo físicas....
Entretanto, indiferente a tudo isso, ele se mantém firme em sua trajetória.
O que o move? O que o sustenta?
Existe algo peculiar nessa figura que participa da vida da criança e do jovem. Existe um aspecto que sempre fez dessa carreira algo que foge à idéia de um mero emprego. Há uma força inexplicável,  que move e sempre moveu o professor, fazendo com que mantenha aceso o seu ideal de uma educação de qualidade, mesmo em condições desfavoráveis.
Ele ou ela acreditam na educação como o único meio de transformação da sociedade e, a despeito de todas as intempéries que enfrentam, seguem em sua missão. Uma missão sim, mas que não deve jamais suplantar a certeza de que são profissionais que se capacitaram e merecem o respeito e o reconhecimento.
No 15 de outubro passado, homenagens foram prestadas aos mestres. Àqueles que já se foram... Aos que dedicaram toda a sua vida ao magistério e hoje relembram sua trajetória. Aos que ainda aliam seu trabalho e sua dedicação à luta por uma maior valorização profissional. Aos que acabam de ingressar na profissão e trazem o ideal ainda firme, à espera dos desafios.

Nesta homenagem aos profissionais da educação desejamos que a chama que os move jamais esmoreça... Que sejam fortes para lutar por melhores condições de trabalho, que sejam amorosos para acolher a criança e o jovem e que sejam perseverantes para manter o ideal de um país em que a educação seja a maior riqueza. 

Eterno Mestre
Paulo Freire

"A educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham."

Imagem: http://alexandretavora.blogspot.com.br/2011/05/frases-de-paulo-freire.html
Texto: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 2003. 17.ed.p.72.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AMOR FRATERNO



Neste fim de inverno, quase primavera, minha irmã completou 87 anos.
A aparência frágil esconde uma história de força e determinação, ultrapassando as adversidades que a vida impôs,com uma fé inabalável e a finura e delicadeza de uma dama. 
A grande diferença de idade entre nós, ela a mais velha e eu a caçula,  fez com que, durante minha infância sua figura fosse também materna para mim. Era ela a Inhá, já que, pequenina, eu não conseguia chamá-la como os demais, Vaninha. Era a Inhá e pronto.
Era ela quem fazia os desenhos na primeira página de meus cadernos de Artes, quem me ajudava a montar os panos de amostra das aulas de Trabalhos Manuais... 
Nosso contato continuou sempre harmonioso, mas o tempo fez com que as prioridades se impusessem, eu com meus estudos, ela com o marido e filhos. Entretanto estivemos sempre juntas, ao menos nas festividades da família, Natal, aniversários.
Nesta quarta feira, 19, reunimo-nos ao redor da mesa de sua casa, para um café com bolo. Não estavam ali a Professora Vânia, aposentada, o monge beneditino Dom José Carlos e eu, a Professora Jane. Não, ao redor da mesa estavam a Inhá, o Zé e a Janinha... A conversa fluiu tranquila e carinhosa, tentando manter as lembranças que teimam em desaparecer de sua mente...
Esse encontro me fez pensar no significado da família para os irmãos. Ou melhor, o significado dos irmãos para a família. Naquela mesa mantém-se o amor de meus pais. Perpetua-se. Temos nossas próprias  famílias, filhos, netos, mas os irmãos são a continuidade daquele primeiro amor.
A lembrança de nossa formação vem acompanhada do nosso relacionamento, das brigas, das brincadeiras. E, para mim, lembranças da infância vêm com o som do piano tocado pela Vânia ou pelo Jairo, a voz da Jurema ou do José. Lembro-me do orgulho que sentia ao caminhar ao lado de meus irmãos já moços, ou ainda, dos almoços de domingo em que todos se reuniam...
Preservar o amor entre irmãos é preservar a família. 
Irmãos são diferentes, a idade e a vida vão moldando as pessoas inexoravelmente. Irmãos têm atitudes que não aprovamos, muitas vezes dizem palavras que não queremos ouvir, agem  de forma que reprovamos. E eles também nos analisam da  mesma forma como nós os analisamos.
Mas o importante é que  temos uma história em comum. Vivemos momentos de alegria, de tristeza,  de sonhos e de esperança; rimos, choramos juntos muitas vezes.
A família sonhada por nossos pais, repito, perpetua-se em nós. 
Dos cinco filhos de meus pais, os três remanescentes, juntos,  celebraram com simplicidade o amor fraterno, o respeito ao outro e a certeza de que o que realmente importa nesta vida é o relacionamento que temos com  aqueles a quem queremos bem.


Imagens: Google



sábado, 9 de setembro de 2017

PEDRAS GRITARÃO

Nestes tempos em que a angústia assola a humanidade, trazendo temores e apreensões; em que as ameaças se concretizam em forma de pessoas inconsequentes, de grupos que se  pautam pela intolerância... Nestes tempos em que o homem sente   falta de segurança, em que percebe a irresponsabilidade e despudor de governantes e políticos... E mais ainda, nestes tempos em que a pequenez humana fica patente diante de catástrofes  provocadas pela própria  natureza...
Nestes tempos é bom lembrar  Mário Quintana e sua poesia, que nos faz refletir, sempre.

O SEGUNDO MANDAMENTO

Bem sei que não se deve dizer Seu santo nome em vão.
Mas, agora,
o seu nome é apenas uma interjeição
como acontece com "Minha Nossa Senhora!"
-  este belíssimo grito tão certamente errado
como o faz tanta vez o povo em suas descobertas.
A voz do povo é um Livro de Revelações.
Só tem que o tempo as foi sedimentando em sucessivas     camadas
E elas agora nos dizem tanto como uma pedra.
Agora restam-nos apenas as palavras técnicas
pertencentes ao vocabulário inerte dos robôs.
Porém um dia as pedras se iluminarão milagrosamente por dentro
porque só termina para todo o sempre o que foi artificialmente construído...

Um dia,
um dia as pedras gritarão!

Mário Quintana
Baú de Espantos
Rio de Janeiro, Objetiva, 2014

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

DECORAÇÃO AFETIVA

Gosto de folhear revistas de decoração. Os espaços sempre harmônicos em cores e linhas, móveis modernos ou tradicionais, os revestimentos, os objetos de adorno, enfim, agradam meus olhos. Um prazer estético, uma ideia, talvez...
Mas, o que falta a esses espaços? Certamente o objetivo da revista não é mostrar o uso real desses aposentos e sim a melhor e mais harmônica ocupação do espaço: a colocação dos móveis, das almofadas, cortinas e tapetes, a melhor organização de uma cozinha ou área de serviço.
Repito, o que falta a esses espaços?  Um pouco de vida, talvez?
Não há um par de tênis infantil ao lado do sofá, ou um agasalho esquecido sobre a cadeira, ou ainda uma correspondência recém chegada, uma xícara de café sobre a pia.... Tudo é muito arrumado, tudo é muito perfeito.
Olho então para minha sala e percebo que nela a decoração é puramente afetiva. Com exceção da TV, e do móvel que a comporta, dos sofás e mesinhas, tudo tem uma história. 
Comecemos pelo piano, que foi de minha mãe e tem a enfeitá-lo fotos dos filhos e dos netos, acompanhados de duas recordações de viagens: um Dom Quixote que veio de Madri e uma Namoradeira que trouxe de Minas. Também foi de minha mãe a cadeirinha de balanço Thonet, enfeitada por uma das duas almofadas que foram lembrança de casamento do filho caçula.
Nas paredes, os quadros são obras da Flávia, minha filha e o prato de madeira, quase uma mandala, ganhei há muito tempo de minha irmã Jurema, que já se foi. 
Mas ainda há mais: o prato de cerâmica, arte de meu amigo Zaramello, a caixinha de couro em que ficam os controles da TV, presente de outro amigo querido, Ricardo Feital, e que tem como enfeite a foto do portão de Brandemburgo, lembrança de nossa viagem a Berlim.
Esses objetos todos, e outros ainda, que não são relacionados pois tornariam enfadonho este texto, têm relação com pessoas, momentos, fases da vida. Alguns deles compuseram outros espaços, em outras épocas. Outros ainda foram lembranças de pessoas a quem quero bem. E nessa sala, repleta de ternura, carinho e saudade, meu neto caçula constrói sua fortaleza, ataca e se defende de inimigos imaginários, dá suas cambalhotas ou empilha almofadas... 
É a vida, seguindo seu curso...
É a vida que torna essa sala, certamente sem a perfeita harmonia das revistas, um espaço  de aconchego, de paz,  a certeza da perenidade do afeto, ultrapassando o tempo e o espaço.

Imagens Google
mg.olx.com.br

terça-feira, 25 de julho de 2017

O FIM DA HISTÓRIA

Sobre inspiração, construção e produção literária

As palavras fogem de mim, como passarinhos ariscos, no canteiro da praça. Em vão corro até elas, cerco-as, mas elas se perdem no vazio...
As ideias, irmãs das palavras, também escapam e ambas, unidas se recusam a aproximar-se.
É uma batalha constante, geralmente perdida, e a página em branco aguarda o toque mágico da tecnologia, que a faça transbordar em sentimentos e imagens.
As outras páginas, já preenchidas, aguardam empilhadas, sobrepostas, em calmaria. Esperam pelas próximas, que venham completar a última linha, reatar o fio da narrativa, para que, finalmente, possam enfeitar-se com o ponto final, derradeiro, da obra acabada.
Mas, a situação se mantém, e as mãos sobre o teclado aguardam a organização das ideias;  que riem de mim, afinal estão todas ali, as ideias, apenas não há uma bússola que possa nortear essa embarcação de sonhos...
Suspiros são a trilha sonora desses momentos. 
A ideia, a conclusão, o encerramento está traçado. Brinca em minha mente esperando apenas a ordem, a organização do pensamento. Mas como? 
Brincalhonas, as palavras continuam a correr em seus passos de passarinhos ou  a voar, recortando sua silhueta no céu azul.
E eu aguardo, impaciente. Certamente chegará o momento, a hora certa e alinhadas elas tomarão seu lugar na folha branca e poderei finalmente escrever FIM. 




GOOGLE IMAGENS
https://garuvanet.com/index/poema-semantica-sons-e-palavras/

sábado, 15 de julho de 2017

POEMA PARA UMA TARDE AZUL





O poema abaixo foi escrito há anos e registrado aqui em uma de minhas primeiras postagens. 
Achei oportuno transcrevê-lo, depois de alguns poucos dias de pleno azul, mar e descanso.

AZUL DRUMMOND

Em plena tarde azul
ausente de desejos
ou mágoas ou temores,
o olhar inebriado de luz e cores
- rosa dourado derretendo o dia -
busco encontrar sentido,
tento achar respostas
a perguntas perdidas na memória dos tempos...
As mesmas perguntas sem respostas
feitas desde que se percebeu ser no mundo,
as mesmas perguntas que a fé responde sem provas concretas
e a ciência busca em vão.
Nesta tarde inebriante de azul,
identifico-me, apenas,
entrego-me.
Perco-me no azul, na intensa luminosidade que me envolve,
apagam-se perguntas, perdem-se respostas,
sou apenas azul, dourado e róseo, derretendo o dia.

Imagem: https://www.colegioweb.com.br/curiosidades/cor-ceu-como-se-explica.html